Pivô de discussão entre igrejas, Capela de Bombinhas esconde lendas sobre maldição

Em meio à polêmica entre igrejas Católica Apostólica Romana e Católica Apostólica Brasileira, Capela Imaculada Conceição foi inaugurada em 1928

Na última semana, quando uma nota da Diocese de Florianópolis foi publicada desautorizando um padre a celebrar missas em Santa Catarina, os olhos de muitos curiosos se voltaram para a “confusão” sobre as diferenças entre a Igreja Católica Apostólica Romana e a Igreja Católica Apostólica Brasileira – mais conhecida pela sigla ICAB. 

Porém, outra questão curiosa é a pivô que iniciou a discussão. Construída no fim da década de 1920, a Capela Imaculada Conceição, localizada em Bombinhas, guarda lendas e histórias. E foi lá que, segundo o padre Fabrício Adão Bernardo, da  ICAB, bastou celebrar algumas missas para que a confusão tivesse início. 

Capela Imaculada Conceição, no município de Bombinhas, Litoral Norte catarinense – Foto: Setur/Arquivo/ND

Em entrevista ao nd+, o sacerdote da ICAB contou que realizou alguns batizados e casamentos no local durante os últimos meses. Fotos e vídeos da Capela foram postados nas redes sociais e causaram a desconfiança de fiéis católicos Romanos. 

Com a incerteza, a Diocese de Florianópolis publicou a nota esclarecendo que Fabrício não pertence à Igreja Romana, mas sim à ICAB. Após o comunicado, Fabrício fez um Boletim de Ocorrência por acreditar que houve intolerância religiosa. 

O local, palco da desconfiança, já pertenceu à Igreja Católica Apostólica Romana, mas hoje é uma propriedade privada. Construída estrategicamente no alto do morro que divide os bairros de Bombas e Bombinhas, no Litoral Norte, a igrejinha é um dos mais importantes monumentos da cidade e guarda histórias curiosas .

A estrutura também contradiz o ditado de que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar. Inaugurado em 1928, o espaço foi construído pela comunidade, mas ficou parcialmente destruído após um raio atingir sua estrutura no ano de 1930.

Segundo os estudos da secretaria municipal de Turismo da cidade, em 1952 a Capela foi novamente atingida por descargas elétricas. Na década 70, o mesmo fenômeno destruiu completamente a igrejinha. 

Capela Imaculada Conceição – Foto: Departamento de Cultural/Arquivo/lha do Farol/ND

Com as constantes destruições, alguns moradores interpretaram os raios como um mistério. O terreno passou a ser considerado como amaldiçoado e místico. A crendice popular também criou a lenda de que a igreja era atingida por tantos raios porque escondia muito ouro no chão. 

“A questão das lendas existe mesmo e está escrito nos materiais que eu achei”, confirma Mário Pêra, ex-diretor da empresa Vila do Farol e um dos responsáveis pela reconstrução da Capela. 

Apesar das histórias, existe uma explicação. A cruz no alto do morro sobre a estrutura era de metal, perfeito condutor de energia para atrair os raios durante as tempestades. Porém, o esclarecimento só veio 15 anos atrás, quando a estrutura foi reconstruída e a cruz de metal substituída por outra de madeira. 

Leia também:

Reconstrução

Quando adquiriu o imóvel situado junto à praia do Ribeiro em 2000, o empresário Vilmar de Oliveira Schurmann manifestou interesse em reconstruir o pequeno templo. A ideia era resgatar a história cultural e religiosa da população.

Foto: Departamento de Cultural/Arquivo/lha do Farol/ND

“Eu era diretor da empresa e a gente desenvolveu a pesquisa” conta. “Aquilo ali não existia mais nada, era apenas um terreno baldio. A gente reconstruiu”, afirmou. 

Foram reunidas  informações junto às famílias locais e pessoas que pudessem fornecer detalhes para compor a arquitetura da igrejinha sem fugir dos traços originais. A capela foi reinaugurada no dia 8 de dezembro de 2005,  que é dedicado à Nossa Senhora da Conceição.

Atualmente, a propriedade privada é aberta aos visitantes e turistas. A capela tem sido emprestada, sem cobrança de aluguel, para cerimônias de casamentos, batizados, eventos culturais e mesmo celebrações religiosas – em datas como Sexta-feira Santa e dia dos Finados.

A Igreja Católica Apostólica Romana, não possui nenhuma responsabilidade sobre o local. Em contato com a Paróquia de Bombinhas, foi informado que a Igreja Romana não realiza eventos no local.

Brasileira X Romana

A igreja Católica Brasileira é dissidente da Igreja Romana. Ela surgiu em 1945 e tem como fundador Carlos Duarte Costa. Com templos em quase todos os estados do país, e até fora do Brasil, em Santa Catarina ganha cada vez mais adeptos. São 30 templos no Estado. 

A ICAB também utiliza nomenclaturas como padre, bispo, paróquia e nomes de santos. A maior diferença é que na ICAB padres podem casar. Além disso, como explica Dom André Anndolff, Bispo da igreja Brasileira, “pessoas divorciadas também são autorizadas a casar novamente ou receber o sacramento da eucaristia” (símbolo para os católicos que representa o corpo e sangue de Jesus Cristo). 

Mesmo com as diferenças, as aproximações levaram a discussão para a Justiça. Dois anos depois de ser fundada, em 1949 a ICAB ganhou em um Julgamento Histórico o direito de existir, mesmo com o nome similar. Veja aqui o acórdão

+

Arquitetura e Decoração