De maridos infiéis a calotes: as histórias do motorista de app homenageado em Floripa

Mario Mariano de Assis, de 56 anos, teve sua imagem ilustrada no Centro da Capital para ressaltar a importância da categoria de trabalhadores

Em um painel a céu aberto na lateral de um prédio, a pintura de um casal chama a atenção de quem passa na rua Tenente Silveira, no Centro de Florianópolis.

A imagem é do paulista Mario Mariano de Assis, de 56 anos, que há dois trabalha como motorista de aplicativo na Grande Florianópolis, ao lado da esposa, Elza Manger, de 50. Ele foi escolhido para representar, através da obra feita pela artista Gugie Cavalcanti, os trabalhadores essenciais que enfrentam as dificuldades trazidas pelo coronavírus.

Motorista de aplicativo é homenageado no Centro da Capital catarinense – Foto: 99 App/Divulgação/NDMotorista de aplicativo é homenageado no Centro da Capital catarinense – Foto: 99 App/Divulgação/ND

Após trabalhar por 20 anos como motorista de ônibus, no fim de 2019, ele  foi demitido. Na mesma época, viu nos aplicativos uma forma de ganhar a vida. Logo nos primeiros três meses, ficou entre os 50 melhores parceiros da empresa 99 App e, até o momento, realizou cerca de 7.500 corridas. Atualmente, faz uma média de 40 corridas por dia. Para isso, chega a trabalhar quase 14 horas.

“Minha filosofia de trabalho é nunca ficar parado, sempre vou atrás da corrida. Trabalho em ritmo de São Paulo: acordo cedo e durmo tarde”, ressalta o motorista. 

Maridos infiéis, pessoas sem pagar e emoção nas corridas

Nesse ritmo, milhares de pessoas passaram por seu carro e muitas histórias marcaram seus dias. Ele relata que algumas são recorrentes: mulheres que perseguem os maridos infiéis e o aconselhamento de passageiros.

“Sempre tento não julgar porque o meu papel é ajudar as pessoas a chegarem aos seus destinos. Sempre tem as mulheres que pedem para seguir os carros dos maridos. Uma delas contou que o companheiro trabalhava com a amante e ia dar o flagrante”, lembra seu Mario, quando chegou até um posto de gasolina e a passageira pediu para descer. Ele conta que preferiu não ficar para ver o desfecho.

Por conta de ouvir muitos desabafos, o motorista afirma que ouve e ajuda as pessoas da forma que pode. “Dou uma de psicólogo, se a pessoa quer conversar, eu converso”, diz. 

Seu Mario trabalha como motorista de aplicativo há mais de dois anos na Grande Florianópolis – Foto: Redes Sociais/ReproduçãoSeu Mario trabalha como motorista de aplicativo há mais de dois anos na Grande Florianópolis – Foto: Redes Sociais/Reprodução

“Única coisa ruim que acontece é o passageiro que desce e não paga”, relata seu Mario. Ele assegura que consegue identificar quem tem a intenção de pagar e quem não tem, logo nos primeiros minutos. Já transportou sete passageiros caloteiros.

“A última vez que aconteceu isso [passageiro que desceu sem  pagar] foi há um ano. Quando a mulher entrou no carro, já disse que precisava ir ao hospital porque tinha câncer e que iria acertar a corrida no sábado. Claro que ela nunca pagou”, lembra seu Mario, ao frisar que a passageira em questão é sua vizinha no bairro Los Angeles, em São José, na Grande Florianópolis.

Ao ser questionado se aceitaria uma corrida caso algo assim acontecesse de novo, ele não titubeia. “Tenho minha consciência tranquila. Não é por causa de 10, 15 reais que não vou ajudar as pessoas”, explica.

Outra situação marcante foi quando buscou uma senhora em um supermercado atacadista. “Coloquei as compras no carro e, de repente, a mulher sentou no banco de trás e começou a chorar. Perguntei se estava tudo bem, mas ela não me respondeu o motivo do choro”, afirma seu Mario. 

Ele conta que diversas vezes os passageiros comentam que ele lembra alguém como um irmão ou um pai. “Por isso acho que ela se lembrou de alguém quando me viu, porque se emocionou do nada.”

Com bom humor, seu Mario lembra de histórias da família

Em 700 m², seu Mario é retratado na lateral do Edifício Schweidson ao lado da esposa Elza, cuja união dura 36 anos. Em segundo plano, uma pequena janela representa o coração do paulista, com a imagem dos seis netos.

Uma janela é representa o coração de seu Mario com os seis netos- Foto: 99 App/Divulgação/NDUma janela é representa o coração de seu Mario com os seis netos- Foto: 99 App/Divulgação/ND

Outdoors, murais e painéis como esse foram realizados em outras seis capitais brasileiras: São Paulo, Belo Horizonte, Manaus, Salvador, Porto Alegre e Goiânia. “A importância da representatividade, da humanização das relações que temos, pois, ao homenageá-lo, estamos homenageando um pouco de cada pessoa que está no nosso dia a dia”, fala a artista sobre a ideia por trás da obra.

Além disso, Gugie conta que a intenção com a pintura foi a de transmitir o afeto e representar o vínculo de seu Mario com sua família.

Vínculo esse que ele faz questão de manter firme, mesmo saindo de casa tão cedo e chegando tarde.  Todos os dias, Mario almoça e janta com Elza, além dos filhos e netos. “Tento estar presente e trabalhar muito não atrapalha o convívio”, assegura.

Quando o assunto ainda é família, ele lembra sorridente do nascimento da caçula, de 23 anos. “Adiado por uma novela, acredita?”, conta.

Dona Elza, no dia do parto, estava acompanhando a novela “A Indomada”, que tinha Renata Sorrah como protagonista. O interesse foi tanto que ela não quis sair de casa para dar a luz à Daniele até que o capítulo terminasse. Por volta de 22h20, quando a exibição acabou, ela disse: vamos agora”.

O mural é obra da artista Gugie Cavalcanti e fica <span style="font-weight: 400;">na lateral do Edifício Schweidson, no Centro da Capital catarinense</span> &#8211; Foto: 99 App/Divulgação/NDO mural é obra da artista Gugie Cavalcanti e fica na lateral do Edifício Schweidson, no Centro da Capital catarinense – Foto: 99 App/Divulgação/ND

Seu Mario conta que não havia como sair àquela hora e conseguir chegar a tempo, principalmente por estarem em São Paulo. “Não teve outro jeito, fizemos o parto em casa”. Ao chegarem na maternidade, com a filha nos braços, a recepcionista tomou um susto. “Eu fiz o parto, a criança já está aqui”, disse ele, com a urgência e o carinho que norteiam sua vida.

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