Antigomobilismo. Motores V8 seguem apaixonantes e desejados

Lendas que equiparam os carrões do passado são cada dia mais difíceis de achar

Marcos Horostecki/ND

Rufino alerta para raridade e valor das peças

Tijucas – Quando o colecionador Gilberto Rufino, 61 anos, encontra um motor V8 abandonado em uma garagem ou oficina, um sentimento de responsabilidade vem à tona. “Tenho que orientar que aquilo ali é algo precioso, que não deve ser simplesmente descartado ou abandonado. Me sinto responsável”, garante. Dono de uma invejável coleção dos motores que são sinônimos de força e velocidade, ele revela que achar esse tipo de relíquia está cada dia mais difícil. Antigomobilistas do Brasil e do exterior fazem de tudo para recuperar as peças encontradas e quem já garantiu o seu não costuma colocar preço. “Eu não os tenho para negócio. Só faço exceções caso a pessoa possua uma outra peça que eu esteja precisando”, acrescenta.

Os motores que Rufino garimpou, estocados no Celeiro do Carro Antigo, em Tijucas, na Grande Florianópolis, vão equipar o acervo do Museu da Marcenaria Automotiva, que está em organização e faz um resgate do uso da madeira em veículos de época, os chamados Woodies. Os V8 são parte da originalidade dos veículos e por isso são tão procurados pelos aficionados por carros antigos. A busca também é intensa pelos amantes da velocidade, já que os motores aceitam adaptações e alterações que podem elevar em muito a potência descarregada para as rodas do possante.

O motor V8 possui quatro pares de cilindros em formato de V e foi criado nos anos de 1920, nos Estados Unidos. Na época, equipava o imponente Cadillac L-Head. A ideia era garantir um propulsor mais compacto e com maior potência, já que um motor com oito cilindros em linha exigiria um compartimento muito grande e ocuparia muito espaço debaixo do capô.

Mas nem sempre eles tiveram os 200, 300 cavalos de força que deixam os marmanjos animados. O começo foi bem mais modesto. A Ford foi a primeira fabricante a utilizá-lo em veículos de linha comerciais e a potência era de meros 65 cavalos de força – a mesma descrita hoje em manuais de carros populares de 1 mil cilindradas, mas com muito mais força que um Palio ou Gol de hoje em dia, segundo Gilberto Rufino.

Marcos Horostecki/ND

Celso Ramos lamenta modernidade e lembra dos carrões com saudade

Mecânicos especializados estão escassos

Uma vez identificado em uma garagem ou galpão, o V8 em condições de uso precisa estar com o bloco intacto e com a tampa do cabeçote passível de receber novos reparos. O outro desafio para quem sonha em ter esse tipo de motor ligado à transmissão do carro é encontrar um mecânico disposto a encarar a remontagem. “Hoje em dia o pessoal mais jovem só quer ligar cabos e fazer diagnóstico em carros modernos. Ninguém quer mais saber de vela, platinado ou distribuidor”, comenta o mecânico Celso Ramos Silva, 58 anos, um dos poucos especialistas em V8 do Estado.

Na opinião dele, a reconstrução desses monstros sagrados da velocidade não pode ser considerada uma arte. Exige muito mais esforço e força de vontade do que habilidades especiais. Só a satisfação ao ver os motores voltarem a roncar é que não tem tamanho. Silva lembra com saudades do tempo em que começou a trabalhar na oficina mecânica em Tijucas, aos 13 anos de idade. “Tínhamos carros maravilhosos por aqui. Tinha uma porção de Mercurys, diversos carrões de luxo. Até os carros de praça eram maravilhosos. Hoje é tudo muito diferente”, continua.

O mecânico conhece os detalhes de cada versão do famoso V8. Dos defeitos mais complexos aos mais comuns, como a falha de rendimento depois de passar por uma poça d’água, ocorrida em determinados modelos com o distribuidor na parte de baixo do motor. A lição também está na ponta da língua do colecionador. Rufino sabe identificar as séries do motor, principalmente as que equipam os Woodies que ele está restaurando. “São motores fortes, alguns equipando caminhonetes que eram como fossem os ônibus de hoje, capazes de transportar 12 pessoas”, acrescenta.

Corridas de longa distância e parada em Santa Catarina

A série mais famosa do V8 Ford, segundo Rufino, é a 59AB, que surge a partir de 1946. É com ela que as cilindradas começam a aumentar e chamar a atenção dos loucos por velocidade. A presença desses motores nas corridas, no entanto, ocorre desde os anos de 1930. Os V8 foram campeões nas chamadas Carreteras latino-americanas – corridas de longo curso que atravessaram a América Latina. Uma delas, a Rio-Montevideo, em 1937, teve passagem por Santa Catarina e parada em Tijucas, justamente onde fica o Museu da Marcenaria Automotiva. Houve até uma recepção aos participantes no Tijucas Clube. Os corredores roncaram seus carros rumo ao Sul, logo depois, seguindo o traçado que hoje pertence à BR-101.

Foram as vitórias da Ford nas corridas pelo mundo que fizeram a General Motors apostar no mesmo conceito. O primeiro V8 da GM surgiu nos anos de 1950 – um Oldsmobile Tornado 425. A montadora chegou a fabricar versões superiores à da concorrente, especialmente nos anos de 1960, quando as potências e o tamanho dos carros cresceram bastante. No Brasil, o famoso motor equipou carros como o Sinca Chambord, o Ford Galaxi, o Dodge Dart e o Ford Maverick. A presença dele no País se enfraqueceu nos anos de 1970, com a crise do petróleo e o aumento do preço da gasolina. Mais recentemente, para a alegria de muitos, eles estão de volta em carros de alto luxo e desempenho reestilizados pela Ford e pela GM, como o Camaro e o Mustang.

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