Alexandre Garcia

Jornalista com décadas de atuação na TV e rádio, como apresentador, repórter, comentarista e diretor de jornalismo. A coluna aborda temas do cotidiano, entre eles comportamento, política e economia.

Vergonha nossa

Atualizado

O deputado Eduardo Bolsonaro, na semana passada, teve esta frase transcrita nos jornais: “Um brasileiro ilegalmente fora do País é um problema do Brasil, isso é vergonha nossa, para a gente.” Isso resultou numa tal celeuma, com uma multidão de comentaristas condenando a manifestação, a ponto de o deputado voltar ao assunto, explicando que se referira ao brasileiro que entrara na Indonésia levando cocaína. O episódio serve para a gente pensar sobre nós no exterior. Creio que é, mesmo, uma grande vergonha para nós, ter milhares de brasileiros no exterior, que daqui fugiram de qualquer maneira, para viver fora a dura condição de ilegal, porque, nesses últimos anos, não encontraram no seu próprio país condições melhores para si e para suas famílias.

Deixam o país que tem Justiça do Trabalho e Leis Trabalhistas, para trabalhar em país que não tem nada disso, mas descobrem que é melhor assim. Certa vez encontrei em Tampa, Flórida, um comerciante de Governador Valadares, que me confessou que sonegava tudo que podia na sua loja brasileira, porque vivia oprimido pela tributação e pela burocracia, e não tinha retorno em serviços públicos. “Aqui – contou-me ele – pago cada centavo de imposto e acho pouco. Tenho segurança na minha loja, nenhum perigo de assalto, a rua está limpinha e organizada, meus filhos estão numa excelente escola pública, serviço de saúde perfeito, estou pagando hipoteca com facilidade, não há burocracia. Não pretendemos voltar.” Famílias de Criciúma reforçam seu patrimônio com as remessas dos trabalhadores brasileiros da região de Boston.

Em Madri encontrei a filha de um querido chefe que tive. Ela e o marido dão duro numa academia e num hotel. Mas quando os convidei para conhecerem a Espanha fora de Madri, me explicavam que era perigoso saírem da área sem documentos. Estavam irregulares. Fiquei com pena. Mas quando a diplomata brasileira me contou quantos brasileiros e brasileiras  ela visita nas prisões italianas, condenados por drogas e prostituição, me deu vergonha. Como me deu vergonha quando me contaram sobre os brasileiros cumprindo pena no Japão por infringirem as leis japonesas, envolvendo-se em brigas. No Brasil, a rígida educação japonesa fora contaminada e indo ao país de seus avós para trabalhar, desrespeitaram as leis locais.

Vergonha maior eu sinto quando um brasileiro é condenado à pena máxima, por homicídio ou tráfico e nós, por aqui, defendemos o criminoso só porque ele é brasileiro. Ser brasileiro não é atenuante. No fundo,  ofendem não apenas as leis de um país estrangeiro, mas nos ofendem também, porque  mancham a reputação do nosso povo. É da cultura de muita gente por aqui: defendemos a corrupção, defendendo corruptos condenados; defendemos o crime quando justificamos quadrilheiros do tráfico e da milícia; chamamos a ocupação de terra pública de “irregular”, e não de ilegal; chamamos ladrões de bancos ou de automóveis de “quadrilha especializada”; reelegemos corruptos e não nos importamos com quem passa o sinal fechado ou usurpa a vaga de deficiente. Atitudes assim deveriam nos envergonhar.

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