Aqueles verões alegres e inesquecíveis da Ilha de Santa Catarina

Abertura do verão, em dezembro de 1982: mais de cinco mil pessoas na Joaquina - Marco Cezar/Mural
Abertura do verão, em dezembro de 1982: mais de cinco mil pessoas na Joaquina – Marco Cezar/Mural

Atrações da abertura do verão na Joaquina: música, esporte, desfile de moda - Marco Cezar/Mural
Atrações da abertura do verão na Joaquina: música, esporte, desfile de moda – Marco Cezar/Mural

Antes da avalanche de turistas, entre as décadas de 1970 e 1980, o verão em Florianópolis era menos festivo e mais restrito a encontros familiares e de amigos. Opções para diversão eram os bares de beira de praia, que em geral ofereciam petiscos e fartura de cerveja gelada. A dificuldade de acesso às praias nos anos 1970, antes do asfalto, que chegou no governo de Colombo Salles (1971-1975), tornava a temporada um privilégio para poucos, os que tinham carro e podiam enfrentar a viagem e a poeira das estradas. Com o asfalto, os moradores e os turistas descobriram os destinos que se consagrariam ao longo dos anos 1970 e 1980: Canasvieiras, Ingleses, Jurerê, Lagoa, Joaquina e Mole. As duas últimas, as preferidas pela juventude, o chamado “beautiful people”, graças à prática do surfe e ao rock, duas atrações eletrizantes. Os points de verão, mais frequentados pelos jovens e por alguns gurus, eram os pontos de encontro localizados mesmo nas praias, como o lendário Bar do Chico, na Joaquina, referência da paquera, do bem viver, da curtição, da música e do surfe. Em torno do Bar do Chico pontificavam os personagens da cidade e as tribos descoladas, com as presenças indispensáveis de Beto Stodieck, Cacau Menezes, Ricardinho e Karin Machado, Miro (Cláudio Hahn da Silva), Toló, Rico Lobato, Ricardo Bocão, Paulo Dutra, Ari Maravilha e Ari Pereira Oliveira, para citar apenas alguns, todos festeiros, criativos e irrequietos. Era a “raça” que transformava a praia numa festa permanente.

Alegria e descontração na Joaquina: Cacau Menezes e uma jovem de calcinha vermelha que subiu ao palco respondendo a um desafio do apresentador. Pela ousadia, ela ganhou uma bicicleta - Marco Cezar/Mural
Alegria e descontração na Joaquina: Cacau Menezes e uma jovem de calcinha vermelha que subiu ao palco respondendo a um desafio do apresentador. Pela ousadia, ela ganhou uma bicicleta – Marco Cezar/Mural
Tim Maia ajudando na percussão: a festa na Joaquina virava noite e dia  - Marco Cezar/Mural
Tim Maia ajudando na percussão: a festa na Joaquina virava noite e dia – Marco Cezar/Mural

A Joaquina era o lugar, era para lá que todos iam durante o dia e até o anoitecer. Botecos do centrinho da Lagoa recebiam os jovens no entardecer. Porque na noite a conversa era outra: estávamos no tempo em que a Avenida Beira-mar Norte ainda era o principal circuito da vida noturna, com mais de uma dezena de bares, restaurantes, boate (a Dizzy, referência obrigatória). Havia as lanchonetes dos trailers (hoje chamados de food trucks), que concentravam os frequentadores em vários pontos da avenida. Kay’s-Ki-Dum, Tremendão, Espetinho, Vagão (um vagão de trem, mesmo) eram lugares que se tornaram obrigatórios para os alegres encontros juvenis, para continuar aquela conversa que começou na Joaquina à tarde. A orla de Coqueiros também tinha seus points, como os bares Tritão (na Praia da Saudade) e Chopão (Praia do Meio), voltados a um público mais velho (os “coroas”) e a Capelinha (boate, em Itaguaçu). Outra boate marcante foi a Phoenix, que movimentava as noites do Estreito. Pelo Centro ainda havia as boates Chandon e Shampoo.

Essas são algumas referências e abrangem um largo período, entre as décadas de 1970 e 1990. E muitos desses pontos, em especial na Beira-mar, desapareceram por causa da especulação imobiliária. 

Galera acompanhando as baterias do Hang Loose na Joaquina, em 1986 - Marco Cezar/Mural
Galera acompanhando as baterias do Hang Loose na Joaquina, em 1986 – Marco Cezar/Mural


Uma ilha inteira para conquistar

Beatriz (Bea) Porto, jornalista, viveu intensamente os anos 1980 e, além de amiga muito próxima, foi assistente do colunista Beto Stodieck. Ela tem viva na memória a época áurea da Joaquina e dos agitos de verão, em especial dos campeonatos de surfe, que reuniam centenas de pessoas e transformavam a praia no point mais frequentado do verão. “Foram anos de conquistas. Minha geração era meio inocente. Não tínhamos maldade. Apenas uma ilha inteira para conquistar. Acho que fizemos bem, indo além. Com o surfe, recebemos muita gente de fora. E as amizades nos fortaleceram, o turismo melhorou. O surfe merece mais atenção. De liberdade e atenção à natureza. Poderíamos avançar, com parceria público-privada melhor estruturada”.

Fachada da boate Dizzy, esquina da Rua Arno Hoeschl com a Avenida Beira-Mar Norte. Danceteria marcou época em Florianópolis nos anos 1980 - Marco Cezar/Mural
Fachada da boate Dizzy, esquina da Rua Arno Hoeschl com a Avenida Beira-Mar Norte. Danceteria marcou época em Florianópolis nos anos 1980 – Marco Cezar/Mural


Uma festa permanente

Quem acompanhou bem a evolução festiva da cidade foi o fotógrafo Marco Cezar, que veio de São Paulo em 1980, atuou 20 anos em O Estado e hoje se dedica à edição da revista Mural. Marco lembra bem das grandes festas, dos campeonatos de surfe que levavam milhares de pessoas à Joaquina. Em 1982 ele registrou a festa de abertura do verão, que era um grande evento, promovido na praia da juventude, com apoio da prefeitura. Naquele ano, em 17 de dezembro, a Joaquina recebeu Tim Maia e a banda Vitória Régia, além de atrações musicais locais, esportes e desfiles de modas. “A Joaquina era o point, o principal ponto de encontro dos jovens, quase todos atraídos pelo surfe, pelo bar do Chico, pela boa música, pelo encontro com os amigos e a convivência com diferentes tribos”, recorda o fotógrafo.

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