Brumadinho, uma tragédia que afeta a todos os brasileiros

O Brasil chora por Brumadinho, onde ocorreu, num espaço de quatro anos, o segundo crime ambiental protagonizado pela negligência e irresponsabilidade da mesma empresa – a Vale, estatal fundada por Getúlio Vargas e vendida a preço de banana pelo governo brasileiro, na administração de Fernando Henrique Cardoso (PSDB), em 1997. 

A mineração em si é uma atividade predadora, ambientalmente incorreta, como chama atenção, em seu perfil no Facebook, o compositor e cantor Caetano Veloso, que passou pela região em 2016.

Diz Caetano:

“Quando fui a Brumadinho em 2016 para cantar no Meca Festival, fiquei assustado com o que vi no caminho. O evento era em Inhotim, museu cujo prestígio conhecia de longe. O entorno, no entanto, era deprimente. Os veículos da mineradora com frequência soltavam fumaça preta e ultrapassavam o carro que nos transportava nas estradas não asfaltadas, lançando poeira ou lama. Tudo é muito feio ali. Talvez mineração seja uma atividade que atrai violência. Lendo o livro de Zé Miguel sobre Drummond, pensei muitas vezes no fato de o que há de belo em Inhotim tardar a ser captado por minha sensibilidade, tal a sensação de desconforto humano, vegetal, animal e espiritual da região. A delicadeza das pessoas, o sabor das comidas, a graça da decoração (tudo tão mineiro) da pousada Nova Estância era igualmente contaminada pelo sentimento de desequilíbrio e feiura que a cercava. Já chorei algumas vezes hoje, incontrolavelmente, pensando nas pessoas que conheci lá. E nas tantas que não conheci”.

Em 1984, o poeta Carlos Drummond de Andrade, mineiro de Itabira, publicou um poema que, de certa maneira, já era uma profecia sobre o que ocorreria em 2015 (Mariana) e 2019 (Brumadinho).

É este o poema:

“Lira Itabirana

O Rio? É doce.

A Vale? Amarga.

Ai, antes fosse

Mais leve a carga.

II

Entre estatais

E multinacionais,

Quantos ais!

III

A dívida interna.

A dívida externa

A dívida eterna.

IV

Quantas toneladas exportamos

De ferro?

Quantas lágrimas disfarçamos

Sem berro?”

Ainda não há, neste domingo (27), um balanço oficial sobre a quantidade de mortos ou desaparecidos. Equipes de socorro dos Bombeiros e do SUS (Sistema Único de Saúde) continuam vasculhando o cenário desolador de lama e morte em que se transformou a região mineira.

Levantamento divulgado hoje cedo pelo jornal O Estado de São Paulo indica que há pelo menos 24 mil pessoas em áreas de risco, em caso de rompimento de outras barragens.

A grande questão é: vale a pena ceder espaços generosos da natureza para que o grande capital continue depredando e matando? A mineradora Vale encerrou o terceiro trimestre de 2018 com lucro líquido atribuído aos acionistas de R$ 5,753 bilhões, representando um incremento de 1.780%.

Quanto o país ganhou com isso? Nada. Perdeu ambiente, perdeu vidas, perdeu referências, ganhou lágrimas, lamentos, desespero. E esse é um problema de todos nós.

O Estado brasileiro não pode ser conivente com isso tudo. Entenda-se por Estado brasileiro as prefeituras mineiras, a Assembleia e o governo de Minas Gerais, o Congresso Nacional, o governo federal, o Judiciário.

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