Mobilidade sempre em pauta na Grande Florianópolis

Florianópolis ainda não adotou medidas que garantam facilidade no trânsito ao transporte público - Carlos Damião
Florianópolis ainda não adotou medidas que garantam facilidade no trânsito ao transporte público – Carlos Damião

Uma matéria sobre as piores cidades brasileiras para dirigir, publicada em novembro de 2017, voltou ao topo das mais lidas e compartilhadas nas redes sociais nos últimos dias. Simplesmente porque a campeã não é São Paulo, como se imaginava, mas Florianópolis. O ranking foi apurado pelo Waze, aplicativo especializado em trânsito.

A reportagem serviu de referência para ampliar a velha discussão sobre a mobilidade urbana na capital catarinense. Não evoluímos nos últimos 10 anos, apesar de tantas contribuições acadêmicas e técnicas, como o belo Plamus (Plano de Mobilidade Urbana Sustentável da Região Metropolitana), de 2013. Lá está que o transporte coletivo é a solução mais adequada para destravar a cidade. Mas o transporte individual continua sendo o preferencial para quem se desloca pelas ruas e atravessa as pontes. E talvez por isso o poder público continue privilegiando soluções urbanas para os automóveis, e não para os ônibus e meios alternativos. 

Travessia solitária Continente-Ilha, década de 1930. Começo de uma longa trajetória: hoje são 537 ônibus atendendo a região - Acervo Carlos Damião
Travessia solitária Continente-Ilha, década de 1930. Começo de uma longa trajetória: hoje são 537 ônibus atendendo a região |  Acervo Carlos Damião


Pioneirismo e modernidade

O transporte coletivo rodoviário completa 99 anos de operação em 2019. Começou com um ônibus (uma jardineira), do comerciante Júlio Moura, em 1920.

Naquela década, vivia-se em Florianópolis uma vida de província, de lugarejo, com baixa densidade populacional, poucos negócios prósperos e razoável movimento em seu porto.

De 1920 em diante os ônibus começaram a substituir o meio de transporte que vigorava até então, os bondes da Companhia de Carris Urbanos e Suburbanos, puxados a burro, que circulavam pela área central e arrabaldes – aí entendidos pouco mais de cinco quilômetros além da Praça 15 de Novembro. Os bondes, que serviram a população desde 1907, tiveram um fim pouco honroso: em nome do progresso, o que restava da “frota” foi atirado ao mar por um grupo de estudantes, em 1934.

Embora implantado lentamente, o transporte coletivo foi uma primeira revolução de modernidade em Florianópolis, vindo a seguir a inauguração (1926) da Ponte Hercílio Luz. A travessia rodoviária para o Continente possibilitou a ampliação dos limites da cidade e sua integração com o município mais próximo, São José, reduzindo substancialmente o transporte coletivo marítimo (feito por barcas).

Um dos pontos de ônibus que se espalhavam pelo Centro na década de 1950, entre a Praça Fernando Machado e o Miramar - Acervo Carlos Damião
Um dos pontos de ônibus que se espalhavam pelo Centro na década de 1950, entre a Praça Fernando Machado e o Miramar | Acervo Carlos Damião

Com o passar dos anos, foram se estabelecendo as primeiras linhas de ônibus, estendidas até os lugares mais longínquos, como a Agronômica e a Trindade, na Ilha, e o Canto, no Estreito. As ruas estreitas, construídas para a passagem de pedestres e carroças, tornavam essas viagens longas e cansativas. O transporte coletivo era utilizado por quem não tinha dinheiro para possuir um carro – em suma, era recurso para os pobres.

O crescimento da cidade intensificou-se a partir da inauguração da Ponte Hercílio Luz, que representou a consolidação de Florianópolis como capital do Estado. Mas o grande salto de desenvolvimento se deu ao longo das décadas de 1940 e 1950, época em que já era visível uma transformação urbana na área central, com a Prainha aterrada, as ruas com razoável volume de tráfego de veículos, inclusive os ônibus. Desse período em diante a frota do transporte coletivo foi agregando novos veículos e apareceram os primeiros sinais de saturação dos pontos finais ou iniciais das linhas que conduziam aos bairros, espalhados por várias ruas do Centro. Surgiam também novas empresas, algumas delas em operação até hoje.

Terminal do Largo Fagundes (hoje uma praça com o mesmo nome) foi implantado na década de 1960 - | Acervo Carlos Damião
Terminal do Largo Fagundes (hoje uma praça com o mesmo nome) foi implantado na década de 1960 – | Acervo Carlos Damião

Tempos heroicos

O jornalista Ita Pereira, que atuou em A Gazeta e na Câmara de Vereadores (assessoria), conta que trabalhou como cobrador de ônibus no início da década de 1950, tempos heroicos e de grandes dificuldades: “Para se ir à Trindade, os ônibus faziam um ‘caminho de rato’. Como o ponto inicial ficava na Praça Pereira Oliveira, próximo ao Teatro Álvaro de Carvalho, os veículos saíam pela Rua Visconde de Ouro Preto, passavam pela Praça Getúlio Vargas, Rua Almirante Alvim, alcançavam a Avenida Trompowsky, depois a Rua Bocaiúva. Daí seguiam pelas ruas Frei Caneca, Rui Barbosa, Delminda Silveira, Lauro Linhares e, finalmente, chegavam à Praça Santos Dumont, na Trindade, fazendo o retorno no trevo do Córrego Grande. O que hoje demora 15 minutos, dependendo do trânsito, naquele tempo consumia 40 minutos ou mais. Era uma viagem”.

Os ônibus para a Agronômica (da Taner) saíam da frente do Miramar. O trajeto era semelhante ao percorrido pela Trindadense para a Trindade. Lá ficavam também as linhas do Circular (Taner), o normal e o contra – que fazia o sentido inverso -, este dirigido pelo lendário Lira (Ari Batista de Lira), um motorista que simbolizava qualidades raras hoje em dia, especialmente a cortesia e a paciência. Os veículos que faziam as linhas para o Saco dos Limões e Costeira (Limoense) também chegavam e partiam do Miramar.

Quem precisasse ir para o Continente procurava os ônibus ao lado da Alfândega, de onde saíam as linhas Canto, Aracy Vaz Callado e Capoeiras, a partir da Rua Trajano, dobrando à esquerda na Felipe Schmidt e seguindo para a Ponte Hercílio Luz. 

Terminal Francisco Tolentino surgiu em 1974 e funcionou durante quase 30 anos - | Acervo Carlos Damião
Terminal Francisco Tolentino surgiu em 1974 e funcionou durante quase 30 anos – | Acervo Carlos Damião

Terminal Cidade de Florianópolis foi inaugurado em 1988 e está praticamente abandonado pelo poder público - | Acervo Carlos Damião
Terminal Cidade de Florianópolis foi inaugurado em 1988 e está praticamente abandonado pelo poder público – | Acervo Carlos Damião

Os primeiros terminais

Na década de 1960, o terminal do Largo Fagundes concentrava os ônibus que tinham como destino São José, Palhoça e Biguaçu, absorvendo também, posteriormente, algumas linhas urbanas de Florianópolis. Em 1975, instalou-se um novo terminal, na área do antigo (e aterrado) Cais Frederico Rolla, na Rua Francisco Tolentino, proximidades do Mercado Público, para onde as linhas do largo foram transferidas.

O problema dos pontos espalhados, no entanto, continuou. Tanto que os veículos para Santo Amaro da Imperatriz, São Pedro de Alcântara, Santa Tereza, Colônia Santana, entre outras localidades da região, ficavam estacionados na Praça da Bandeira (atual Tancredo Neves). As linhas para Ingleses, Jurerê e Canasvieiras partiam da Rua Bulcão Viana, fundos do Instituto Estadual de Educação.

Mais tarde, a construção de um terminal no antigo Largo 13 de Maio (Prainha) resolveu o problema dos coletivos de Santo Amaro e região. Com a inauguração do Terminal Cidade de Florianópolis, em 1988, os ônibus para o Norte da Ilha ficaram no terminal da Francisco Tolentino (hoje um estacionamento), onde também permaneceram algumas linhas continentais.

Ticen surgiu com a implantação do Sistema Integrado de Transporte, em 2003. É o maior terminal da região metropolitana - | Carlos Damião
Ticen surgiu com a implantação do Sistema Integrado de Transporte, em 2003. É o maior terminal da região metropolitana – | Carlos Damião


O Sistema Integrado

Em 2003, ano de implantação do Sistema Integrado de Transporte, a cidade tinha quatro terminais centrais, substituídos pelo Ticen (Terminal Integrado do Centro), que é o mais movimentado da Grande Florianópolis. Estima-se que cerca de 200 mil pessoas utilizem o terminal diariamente, nos dias úteis, exceto em períodos de férias.

Desde que foi criado, em 2014, o Consórcio Fênix, que reúne as empresas do setor, opera com quase 9 mil partidas diárias (em dias úteis), utilizando 537 veículos para o transporte convencional e executivo, que cumprem 184 linhas. Mensalmente são transportados mais de 5,5 milhões de passageiros e percorridos 3 milhões de quilômetros, envolvendo cerca de 2.750 trabalhadores diretos e indiretos (dados de 2018).

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