Morre o juiz aposentado e escritor florianopolitano Hamilton Alves

Fac-símile do perfil de Hamilton Alves no livro
Fac-símile do perfil de Hamilton Alves no livro “Retratos à Luz de Pomboca”, de Aldírio Simões – Reprodução

Foi enterrado na quinta-feira (24), no Cemitério Jardim da Paz, o corpo do juiz aposentado, cronista e poeta Hamilton Alves. Ele tinha 87 anos e morreu em casa, de parada cardíaca.

Alves colaborou durante muitos anos com a imprensa catarinense, em especial os jornais O Estado e A Notícia. Publicou oito livros.

Aldírio Simões escreveu um perfil sobre o escritor no livro “Retratos à Luz de Pomboca” (1997). Confira trechos:

“Na cidade antiga praticava-se a melhor boemia do mundo. A afirmativa é de um profundo conhecedor do ramo, o juiz aposentado e escritor Hamilton Alves, nascido no Morro do Tico-Tico, na Ilha de Santa Catarina, há quase 70 anos. Autor de oito livros e colaborador assíduo do Anexo, caderno cultural de A Notícia, repousa o seu guerreiro adormecido em sua chácara em Cacupé, levando uma vida simples e dedicada ao ‘ócio com dignidade’, debruçado sobre novos projetos literários e advogando para os amigos mais próximos, porque ‘o direito é uma cachaça’. O convívio com a noite, as andanças na bela época da Cidade Maravilhosa, porto em que desaguava a efervescente boemia ilhoa, transformaram o escritor em um homem de apurada sensibilidade e conhecedor dos limites do ser humano, contabilizando experiência e ensinamentos que foram colocados em prática durante 14 anos de magistratura”.

“’Florianópolis nunca teve um período tão rico como na década de 50. O movimento cultural era efervescente, aliás, um período áureo em todo o Brasil. Surgiu o Grupo Sul, de extrema importância para o desenvolvimento da cultura local, o rádio em evidência com excelentes programas noticiosos, esportivos e de auditório; surgiu o Zininho cantando sambas de breque e o cantor Narciso Lima, intérprete de ‘Aquarela do Brasil’ como poucos’”.

“Boêmio assumido na juventude, Hamilton Alves era titular absoluto de um time que jogava em todas as áreas, formado por José Mauro Mattos, Jairo Callado, Silveira de Souza, Murilo Pirajá Martins, Hélio Kersten da Silva e Adolfo Marinho, entre outros craques notívagos”.

“Ingressou na Faculdade de Direito aos 34 anos, formando-se na mesma turma com Esperidião Amin e Nelson Wedekin. Aos 41, assumiu a magistratura, atuando em diversas comarcas do Estado. Durante 13 anos cumpriu suas funções com um sentimento humanitário, tolerante diante dos erros humanos”.

“O escritor Hamilton Alves é, também, um homem constantemente preocupado com os destinos de sua cidade, critica a descaracterização e a depredação do casario para dar lugar a elefantes brancos. ‘As autoridades deveriam dar prioridade à memória arquitetônica que remonta à história da cidade, como ocorre em Ouro Preto, Olinda, Salvador e, mesmo, em Laguna. Aqui tudo é desfigurado, com extrema facilidade, como o Miramar e o Hotel Laporta. Se não ficarmos em vigília, acabam derrubando também o Mercado Público’”.

Um poema

Títulos matutinos

Beija-flor dançarino

Grande artista matutino

Profissional de olores.

Súbito, dá uma guinada,

Com um golpe feliz

Alcançou a outra banda

Com sua fina sobrepeliz

Ouve-se, em seguida, o pio,

De suave alacridade

Trepado sobre um fio.

Eis que outro cantor,

Sabiá puro-sangue,

Dá sua nota de tenor.

Mais Conteúdo