Ponto de encontro e palco afetivo de Florianópolis

Ponto “nervoso” da cidade, no fim da década de 1960, um pouco antes do calçadão - Divulgação
Ponto “nervoso” da cidade, no fim da década de 1960, um pouco antes do calçadão – Divulgação

Fechado no fim de janeiro, por compreensíveis razões empresariais, o Ponto Chic/Senadinho volta para a lista de perdas afetivas da cidade – e elas não são poucas, visto quantas referências materiais ou imateriais de nossa identidade desapareceram nas últimas três ou quatro décadas.

O Ponto Chic foi um dos locais de encontro mais importantes de Florianópolis durante cerca de 70 anos. Por ali passaram personagens e personalidades da política, autoridades, intelectuais, empresários e a gente simples. Antes e depois da implantação do calçadão, sempre foi um ponto de bate-papo, paquera e observação do movimento central, frequentado em geral pelo público masculino. Nas origens, e daí o nome “Chic”, recebia apenas fregueses engravatados.

O episódio histórico mais relevante ocorreu em 30 de novembro de 1979, quando o então presidente general João Figueiredo entrou em conflito com populares que participavam de um ato de protesto conhecido nacional e internacionalmente como Novembrada. Figueiredo foi ao café para receber o diploma de Senador, um título honorífico criado naquele ano, tomou um cafezinho, mas teve dificuldade para voltar, no meio da manifestação política, ao Palácio do Governo (hoje Palácio Cruz e Sousa). Na frente do Ponto Chic, o ministro César Cals foi empurrado por algumas pessoas. Conta-se que chegou a cair, mas foi acudido pelos seguranças.

Aspecto do velho Senadinho, no início da década de 1980 - Divulgação
Aspecto do velho Senadinho, no início da década de 1980 – Divulgação

O ex-prefeito Edison Andrino (PMDB), de jaqueta escura, em campanha para a prefeitura, em 1996: balcão político por excelência - Acervo Carlos Damião
O ex-prefeito Edison Andrino (PMDB), de jaqueta escura, em campanha para a prefeitura, em 1996: balcão político por excelência – Acervo Carlos Damião

Desde o início, foi o mais concorrido centro de fofocas da cidade. Especialmente as fofocas políticas, o que colocou o lugar na rota das campanhas eleitorais, dos tempos de UDN e PSD, passando pela ditadura civil-militar e até o período da redemocratização (pós-1985). Muito frequentado por funcionários públicos, era o lugar informal para pedir promoções, gratificações e outras vantagens diretamente aos ocupantes dos cargos de Estado mais relevantes. Alguns fatos contribuíam para isso: até 1956 a Assembleia Legislativa e o Tribunal de Justiça funcionavam na Praça Pereira Oliveira, distantes cerca de 300 metros do café. E até 1985 a sede do governo ficava no Palácio Rosado, sendo que a prefeitura era também bem próxima, na Casa de Câmara e Cadeia. Era comum que deputados, secretários de Estado, juízes e desembargadores frequentassem não só o Ponto Chic, mas também outros cafés, como o Rio Branco, na mesma região. Tapinhas nas costas eram as respostas mais comuns para os servidores públicos ansiosos por obter algum tipo de progressão nas carreiras. “Vamos ver, vamos ver”: a desculpa protelatória mais corriqueira. 

Os bordejadores e o Senador

Além das conversas e fofocas políticas, dos apelos dos funcionários, o Ponto Chic/Senadinho era também um dos locais favoritos dos bordejadores, aqueles que estavam sempre atrás de “algum” e abordavam autoridades e qualquer um que aparentasse alguma situação social mais privilegiada. Um deles continua por aí – tem o apelido de “Roberto Carlos” e chama seus interlocutores de “tios”. Outro, já falecido, era Carlos Alberto, o propagandista do megafone, também conhecido como “Homem do Chifre”. O café era um de seus locais favoritos para pedir “contribuições” – o outro era o Mercado Público, o velho e democrático mercado.

Entre tantas celebridades locais que frequentavam o Ponto Chic/Senadinho estava o falecido servidor público Alcides Hermógenes Ferreira, apelidado de Senador, célebre pela elegância e por tomar o cafezinho no pires e não na xícara. Ele aparecia em geral acompanhado por outros queridos da cidade, como o jornalista e documentarista José Hamilton Martinelli (“Martina”), o colunista Beto Stodieck ou os servidores públicos Cláudio Morais e Maurício Amorim.

 O desfile triunfal do coronel Nery

Entre tantos episódios marcantes merece ser citada a chegada triunfal ao Ponto Chic/Senadinho do coronel Nery Clito Vieira, no dia em que foi reincorporado à Polícia Militar, no início da década de 1980. Ele tinha sido cassado, preso e perseguido pela ditadura civil-militar quando ocupava o posto de capitão, em 1964. Após a Lei da Anistia (1979), ingressou na Justiça pedindo sua reintegração à corporação. Foi reintegrado e promovido sucessivamente até alcançar o posto de tenente-coronel. Uma solenidade no quartel do comando, na Praça Getúlio Vargas, marcou sua volta à PMSC. Logo após, Nery fez questão de ir fardado até o Ponto Chic, para desfilar com sua roupa de oficial superior e pagar um café para os amigos que se mostraram solidários com sua situação ao longo do tempo, cerca de 20 anos desde sua prisão como “subversivo”. Depois da reintegração, ele passou para a reserva no posto de coronel, como manda a lei.

Nery não foi o único dos perseguidos pela ditadura a circular pelo Ponto Chic. Outros personagens que atuaram na resistência ao golpe de Estado de 1964 também apareciam com frequência. Um dos mais assíduos era Nésio Jacques Pereira (Nezinho), telegrafista dos Correios, preso e perseguido por causa de sua atuação sindical. Nésio foi um dos fundadores do PT em Santa Catarina em 1980. Por ali passavam ainda personalidades como o professor Sérgio Grando, primeiro e único comunista eleito prefeito de Florianópolis (1992).

 “Bilhetinho, engenheiro?”

A sorte também rondava o Ponto Chic/Senadinho: circulavam pelo café apontadores do jogo do bicho e vendedores de loteria federal, entre os quais o Formiga, o Palmeta e a Lurdes da Loteria. Esta tornou-se lendária na cidade pela forma como abordava os potenciais clientes:”Bilhetinho, doutor?”. Ou “Bilhetinho, engenheiro agrônomo?”. Ou, ainda, “Bilhetinho, deputado?”. E assim por diante. Ela inventava a ocupação do freguês na hora.

Reinauguração do café em 2005: teve até a banda de música da PMSC - Carlos Damião
Reinauguração do café em 2005: teve até a banda de música da PMSC – Carlos Damião

Então prefeito Dario Berger (mais à esquerda o atual, Gean Loureiro), na reinauguração festiva do espaço, em 2005 - Carlos Damião
Então prefeito Dario Berger (mais à esquerda o atual, Gean Loureiro), na reinauguração festiva do espaço, em 2005 – Carlos Damião

Novo ciclo durou 13 anos

O fechamento do café, em 2004, por motivos econômicos, causou comoção na cidade. Houve mobilização da Fundação Senadinho, de políticos, autoridades, empresários e velhos frequentadores. No ano seguinte, o imóvel foi alugado para uma financeira que, em acordo com o empresário Célio Philippi Salles (Bob’s), reservou um espaço, um pequeno balcão, de frente para a Rua Felipe Schmidt, com o objetivo de manter parte do Senadinho em funcionamento. Em seu interior, a financeira permitiu a colocação de painéis históricos sobre o café. A reinauguração, em 5 de agosto de 2005, foi muito prestigiada, teve banda de música da PMSC e a diplomação de novos Senadores.

A financeira anunciou o encerramento de suas atividades no fim de 2018, formalizando a saída no fim do mês de janeiro de 2019, o que obrigou também o fechamento do balcão do Senadinho, por absoluta inviabilidade financeira de ocupar o espaço inteiro.

Há esperança de que, em breve, uma nova operação comercial naquele local possa nos devolver pelo menos o balcão do café, mantendo a referência e a força da identidade local no Centro Histórico.

Assembleia do Senadinho no seu lugar de origem, de deliberações e diplomação dos novos Senadores - Carlos Damião
Assembleia do Senadinho no seu lugar de origem, de deliberações e diplomação dos novos Senadores – Carlos Damião

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