Que a CPI da Ponte sirva para esclarecer a verdade e não para alimentar histerias

Trabalhadores da ponte, durante visita técnica em julho de 2018 - Carlos Damião
Trabalhadores da ponte, durante visita técnica em julho de 2018 – Carlos Damião

Em geral, as CPIs têm um componente demagógico muito forte, embora sejam instrumentos legais e necessários ao aperfeiçoamento da administração pública e à eventual apuração de responsabilidades em caso de gastos públicos exacerbados. O problema da demagogia está nessa histeria “lavajateira” que tomou conta das redes sociais nos últimos anos. Histeria que busca o punitivismo puro e simples, a partir de suspeitas sobre fulano ou beltrano, sobre situação A ou B, com condenações sumárias que escapam ao rigor (presunção da inocência, ampla defesa) que deve nortear o Direito e a Justiça. 

Assistindo aos telejornais, desde segunda-feira (11/2), deparo-me com “informações” conflitantes e absurdas. Num dia, o repórter menciona que foram gastos R$ 740 milhões nas obras de recuperação da Ponte Hercílio Luz. Dois dias depois (13/2), outro repórter aponta gastos de R$ 400 milhões. A contradição das cifras induz a uma conclusão óbvia: há muito chute em relação ao que foi efetivamente investido em recursos públicos. O que leva o telespectador ou ouvinte à conclusão de que a ponte sempre foi uma “grande teta” usufruída por diferentes correntes políticas e autoridades ao longo do tempo. Sem esquecer que um membro do Ministério Público de Contas chegou a mencionar em seu cálculo (há uns três anos) o gasto de R$ 500 milhões, valor pouco ou nada mensurável objetivamente, como, citado por ele, o prejuízo global dos motoristas no tempo perdido nos engarrafamentos que se formam para acesso às pontes Colombo Salles e Pedro Ivo Campos. 

Conversando com engenheiros que acompanham os trabalhos atuais, desenvolvidos desde a metade da segunda gestão de Raimundo Colombo, eles ponderam o seguinte: os cálculos apresentados desconsideram, em geral, as despesas com a manutenção da ponte. Mesmo parada, desde a segunda interdição (1991, 27 anos corridos, e não 36, como alguns forçam a barra), a Hercílio Luz, por se tratar de uma ponte de ferro – material sujeito à ação do tempo (maresia, temperatura, ventos, umidade) –, sempre precisou de manutenção preventiva e/ou corretiva, desde sua inauguração, em 13 de maio de 1926. 

Outra questão que muitos “chutadores” omitem é que a reforma da ponte foi realmente começada no governo de Luiz Henrique da Silveira (2003-2011), antes não havia obras, apenas manutenção periódica. Entre 2006 e 2010 foram restaurados os viadutos dos lados insular e continental. A parte do vão central, mais delicada e complexa, só poderia ser iniciada se os viadutos estivessem em condições, porque o vão (que é a ponte em si) se apoia neles. Ainda assim, por causa do tempo decorrido e do desgaste físico, a empresa Teixeira Duarte precisou fazer ajustes nos dois viadutos. 

Então, quando se fala em R$ 400 milhões, R$ 500 milhões ou R$ 740 milhões, é preciso saber o que foi gasto em manutenção (obrigatória), reforma dos viadutos e reconstrução do vão central (como disse Raimundo Colombo, numa visita em 2017, “é como se estivéssemos (e estamos) fazendo uma ponte nova, porque peças originais, do período da construção, entre 1922 e 1926, estão sendo inteiramente substituídas”). 

Embora possa ter o mesmo fim que dezenas de outras CPIs (desde a década de 1940, basta consultar os escaninhos da Assembleia Legislativa), resultar em nada, a CPI da Ponte, que começa a se instalar na Alesc, pode pelo menos apurar o que é verdade e o que é chute nessa questão dos valores investidos, esclarecendo técnica e financeiramente a opinião pública. Resta saber se a opinião pública, tão rápida em seus julgamentos e condenações, vai acreditar no que de fato ocorreu e ocorre em relação à ponte.

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