Saga dos alemães em Santa Catarina começou há 190 anos

“Auf Deinem Wink hingehen. Durch Leitung Deiner Hand / Wirst Du uns woh! Versorgen in dem Brasilien-Land”. [“Nos dirigimos seguindo o Teu sinal; orientados por Tua mão / Nos abrigarás bem nas terras do Brasil”]. Trecho da canção de Peter Minor, que era entoada pelos imigrantes alemães, durante a travessia do Atlântico, citada no livro “São Pedro de Alcântara, Primeira Colônia Alemã de Santa Catarina”, de Aderbal João Philippi.

Performance cultural Brigue Luiza em desfile pelas ruas de São Pedro de Alcântara lembra os primeiros imigrantes - Divulgação Mário Milton Müller  
Performance cultural Brigue Luiza em desfile pelas ruas de São Pedro de Alcântara lembra os primeiros imigrantes – Divulgação Mário Milton Müller  

No final de outubro de 1828 dois navios partiram do Rio de Janeiro em direção a Desterro, conduzindo os primeiros imigrantes alemães que vieram reforçar o processo de colonização do Estado. O primeiro a chegar, em 7 de novembro, foi o brigue Luiza, com 276 colonos. Cinco dias depois aportou em Desterro o bergantim Marquez de Vianna, com 359 imigrantes. O grupo do primeiro navio ficou alojado provisoriamente em quartéis da Ilha, inclusive o do Campo de Manejo (área do atual Instituto Estadual de Educação). Os integrantes do segundo navio foram acomodados na Armação da Lagoinha, costa Sudeste da Ilha de Santa Catarina. A grande maioria veio das proximidades do Rio Mosela (Hunsrück e Eifel), hoje estado da Renânia-Palatinado. Eles eram agricultores, ferreiros, carpinteiros, artesãos e soldados, em geral muito pobres, e enfrentaram péssimas condições de vida nos primeiros tempos de Brasil, por causa da desorganização portuguesa. Os colonos deveriam ocupar uma área cedida pelo governo do Estado entre Desterro e o início da estrada para Lages (caminho aberto no fim do século 19 por Antônio José da Costa).

As dificuldades eram imensas, porque a maior parte dos imigrantes chegou a Desterro em situação de penúria. O Império determinou ao presidente da Província, Francisco Albuquerque Melo, que pagasse diárias aos colonos. Mas não havia recursos suficientes para bancar a manutenção das 635 pessoas no território catarinense. Os líderes dos imigrantes informaram às autoridades sobre a impaciência em relação ao destino das famílias, enquanto os governantes mandavam estudar a região planejada para estabelecer os colonos. As providências para resolver o caso demoraram cerca de três meses, até que os primeiros imigrantes, que estavam abrigados num engenho na Colônia de Santa Tereza, entraram na área que seria destinada à formação da Colônia dos Alemães. Isso foi em 1º de março de 1829, considerada a data oficial de fundação de São Pedro de Alcântara, a primeira colônia germânica de Santa Catarina e a segunda do país (a primeira do Brasil foi São Leopoldo, no Rio Grande do Sul). Meses depois de instalados e já ocupando seus lotes, começaram a produzir alimentos básicos para o sustento e para comercialização, como batata, feijão, milho, verduras, legumes, mandioca, cana-de-açúcar.

A monumental Igreja Matriz de São Pedro de Alcântara, um dos símbolos mais destacados do município - Divulgação PMSPA
A monumental Igreja Matriz de São Pedro de Alcântara, um dos símbolos mais destacados do município – Divulgação PMSPA

Grupo de danças típicas, em apresentação especial em São Pedro de Alcântara - Divulgação PMSPA
Grupo de danças típicas, em apresentação especial em São Pedro de Alcântara – Divulgação PMSPA

Obstáculos e novos rumos

Enfrentando doenças, fome, condições insalubres, os alemães que chegaram ao Brasil cerca de um ano antes – ficando retidos no Rio de Janeiro até quase o fim de 1828 – encontraram enfim um lugar para construir suas vidas, distante cerca de 30 quilômetros de Desterro.

Mas ali, na colônia fundada por eles, ainda esbarraram em imensos obstáculos, como as enchentes frequentes do rio Maruim, terras impróprias para agricultura (topografia muito acidentada, com muitas pedras) e falta de apoio oficial.

O fluxo migratório alemão para São Pedro durou até a década de 1860, conforme registra o historiador Aderbal João Philippi. Sobrevivendo em condições muito difíceis na colônia pioneira, muitas famílias rumaram para outros lugares de Santa Catarina, como o Alto Biguaçu, o Vale do Itajaí, o Vale do Braço do Norte e o Planalto Serrano, em busca de condições mais propícias para a agricultura. Grupos de pioneiros posteriormente fundaram ou ajudaram a fundar municípios como Antônio Carlos, Santo Amaro da Imperatriz, Águas Mornas, Angelina, Rancho Queimado, Itajaí, Brusque e Blumenau.

Alguns dos sobrenomes mais conhecidos da política, da cultura, do funcionalismo público, das Igrejas Católica e Luterana, do magistério, de inúmeras profissões e do mundo empresarial catarinense têm raízes entre aqueles pioneiros. Exemplos: Backes, Bauer, Baumgarten, Becker, Besen, Bins, Bornhausen, Büttner, Colin, Deschamps, Fischer, Görent (Gerent), Heinzen, Hoffmann, Höschl (Hoeschl), Junkers (Junkes), Kehrig (Koerich), Klasen (Clasen), Konder, Kretzer, Lohn, Ludwig, Martendahl (Martendal), May, Mayer ou Meyer, Michels, Müller, Petri, Petry, Philippi, Prim, Reitz, Schäfer (Schaefer), Schmitt, Schmidt, Schmitz, Schneider, Schüttel, Stähelin, Stein, Waldrich (Waltrich), Weber, Wendhausen, Werner, Zimmer, Zimmermann.

Stammtisch (encontro de amigos): festa anual que preserva as tradições germânicas - Carlos Damião
Stammtisch (encontro de amigos): festa anual que preserva as tradições germânicas – Carlos Damião

Patrimônio conservado em São Pedro: Casarão Kretzer, do início do século 20, foi inteiramente restaurado - Carlos Damião
Patrimônio conservado em São Pedro: Casarão Kretzer, do início do século 20, foi inteiramente restaurado – Carlos Damião


SAIBA MAIS

* O ano de 2018 assinala o 190º aniversário da chegada dos primeiros colonos alemães a Desterro. Em 2019 (1 de março), será o 190º aniversário de fundação de São Pedro de Alcântara, a primeira colônia alemã catarinense.

* São Pedro de Alcântara pertenceu primeiro a Desterro, mas quando São José se desmembrou da Capital, em 1833, passou ao território do novo município. Em 1844, a vila de São Pedro foi elevada a freguesia.

* A freguesia foi elevada a município por meio da lei 9.534, de 16 de abril de 1994.

* São Pedro é a Capital Catarinense da Colonização Alemã – Lei 13.173, de 29 de novembro de 2004.

* População estimada em 2017 – 5.602 habitantes (IBGE)

* Área total – 140 km²

Prefeito Ernei José Stähelin, junto à Maibaum (Árvore de Maio), que representa os Estados alemães - Divulgação
Prefeito Ernei José Stähelin, junto à Maibaum (Árvore de Maio), que representa os Estados alemães – Divulgação


Festejos em São Pedro

As comemorações dos 190 anos de fundação da primeira colônia alemã de Santa Catarina começaram em 2018, em São Pedro de Alcântara, durante a tradicional Oktobertanz (que abriu as festas de outubro no Estado).

O prefeito Ernei José Stähelin, descendente dos pioneiros, é quem coordena a programação, como já fez nos festejos dos 180 anos, em 2008. Ele destaca a valorização da cultura alemã, por meio de apresentações folclóricas, bandas típicas, danças típicas, gastronomia, muito chope, entre outras atrações. O município investe, desde a primeira gestão de Stähelin (2005-2013) na educação vinculada às tradições germânicas, inclusive no ensino do idioma nas escolas.

Florianópolis, que primeiro recebeu os imigrantes em 1828, não programou nada de especial e não tem sequer um memorial relativo a esse importante evento histórico. O culto ao açorianismo acabou por colocar outras procedências migratórias – não só os alemães, como os gregos, italianos, libaneses, poloneses, africanos – em segundo plano.

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