Valdir Dutra, uma vida inteira dedicada à arte teatral

Valdir, à frente, semi agachado, no hall do TAC, onde trabalhava - Divulgação
Valdir, à frente, semi agachado, com funcionários e artistas, no hall do TAC, onde trabalhava – Divulgação

Valdir Dutra, o mago do teatro infantil em Santa Catarina, está comemorando 79 anos de idade nesta quarta-feira (30). E 2019 assinala os 55 anos de dedicação do produtor teatral à atividade profissional que escolheu para sua vida, na distante década de 1960.

Quem se dispuser a escrever a história do teatro em Santa Catarina jamais poderá ignorar a impressionante trajetória de Valdir. Ele é um dos mais ativos profissionais, diretor e produtor de centenas de apresentações, que foram assistidas, ao longo de cinco décadas, por mais de um milhão de pessoas. “Estou na terceira geração de plateia, os netos daquelas crianças que assistiam nossos espetáculos na década de 1960”, diz Valdir.

Não há receita que explique esse sucesso. Talento, trabalho, determinação, persistência, paixão, tudo isso pode explicar por que o GTI (Grupo de Teatro Independente) tornou-se uma referência em Santa Catarina, sem paralelo possível – não há, nem houve, um grupo com trajetória semelhante.

O que torna único o trabalho de Valdir Dutra é a simplicidade, a ausência de elucubrações acadêmicas, dissertações intelectuais, propostas vanguardistas. Valdir buscou no simples a essência do que a criança gosta, recorrendo a histórias clássicas – algumas inspiradas em personagens da Disney, outras em fábulas universais.

Nem sempre foi fácil. Ele lembra que no início as pessoas não iam “nem de graça”, era quase impossível lotar a plateia de um teatro, tempos de “Oncilda e Zé Buscapé”, primeira montagem encenada, no palco do Teatro Álvaro de Carvalho. “Os tempos mudaram, as pessoas mudaram, felizmente”, diz ele.

  “Os Três Porquinhos e o Lobo Mau”, espetáculo que o grupo apresenta há exatos 40 anos. A encenação foi totalmente revitalizada em 2011 - Divulgação
 “Os Três Porquinhos e o Lobo Mau”, espetáculo que o grupo apresenta há mais de 40 anos. A encenação foi totalmente revitalizada em 2011 – Divulgação


Um aprendiz permanente

Do início como porteiro do TAC, bico que fazia para incrementar o orçamento doméstico, à situação atual – em que se considera um vitorioso -, Valdir Dutra percorreu um longo e penoso caminho. No TAC, observava as montagens que vinham de fora, os textos, postura dos atores, iluminação, direção de cena, sonoplastia. Acompanhava os ensaios, mal sabendo, no começo, que estava aprendendo, de forma empírica, o ofício que viria a abraçar.

Ou seja, antes de ensaiar e apresentar os primeiros espetáculos, Valdir aprendeu tudo sobre bastidores, técnicas e práticas teatrais. Essa base foi fundamental para que ele percorresse o longo caminho para o sucesso, começando com algumas montagens amadoras sem repercussão, que acabaram depois aperfeiçoadas por meio da grande vivência profissional e artística. Contribuiu para isso o fato de que, ao optar pela produção e direção teatral, ele desistiu de qualquer outro tipo de atividade. Sempre foi e continua sendo um homem de teatro, com 100% de sua vida dedicada ao ofício. E promete continuar nessa luta, a caminho dos 80 anos, em 2020. 

Experiência no Nós e independência

Depois de pequenas montagens na década de 1960, Valdir Dutra encontrou pelo caminho o diretor teatral Luiz Alves da Silva (Culica), produtor do grupo teatral Nós. Valdir participou do Nós, ao lado de alguns figuras importantes do teatro da época, como Mário Alves Neto, Nilson Mello, Almir Passos, Gessony Pawlick, Adilson Veras, Antônio dos Passos, Aldo Noronha, entre outros. O grupo encenava peças infantis, geralmente textos de Nilson Mello, autor que se consagrou nessa atividade.

Em 14 de janeiro de 1977, Valdir Dutra resolveu se separar do Nós e fundar o GTI (Grupo de Teatro Independente), com outra dinâmica e outra perspectiva em relação ao teatro infantil. A opção de Valdir deu tão certo que o grupo existe até hoje. 

Valdir com a companheira da vida inteira, Neuza - Divulgação
Valdir com a companheira da vida inteira, Neusa – Divulgação


Família trabalha unida

A família de Valdir Dutra é a base do sucesso. Foi com apoio da mulher, Neusa, e dos filhos Adriano e Angelita, que o diretor e produtor construiu sua história. Mais recentemente, incorporou-se à trupe do GTI também o neto Eduardo. Mas Valdir chama o grupo todo de família, com seus 15 integrantes, todos dedicados e apaixonados pelo trabalho.

Adriano lembra que o teatro, desde o início, foi o sustento básico da família, ele criou, educou e encaminhou os filhos a partir do que ganhava com seu trabalho nos palcos. Ele trabalha há 35 anos na área de teatro, começou como ator mirim, aprendeu sonoplastia, iluminação, cenotécnica, produção e direção, tudo ao lado de Valdir. Angelita diz que o pai é “um homem de muita fibra, coragem, caráter; na idade dele, não é para qualquer um, é um merecedor”. A mulher Neusa destaca a dedicação de Valdir: “Ele é exigente em tudo. Ele só fala disso, é um prato de comida para ele”. [Texto parcialmente recuperado de um especial que produzi em 2014, em homenagem aos 50 anos de carreira de Valdir Dutra].

Relíquia; liberação da censura para peça infantil, no último ano da ditadura civil-militar (1984) - Divulgação
Relíquia; liberação da censura para peça infantil, no último ano da ditadura civil-militar (1984) – Divulgação

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