A lágrima que Omran não verteu

“Dorme como um anjo”, alguém pode ter dito ou pensado ao mirar Omran Daqneesh , com sua inocência de menino de 4 anos a dormir com seus irmãos na cidade de Aleppo, na Síria. Mas o sono do anjo voou em pedaços em segundos. Levou-o o estrondo de uma bomba de barril, artefato criado pela ausência de qualquer resquício de dignidade pelos senhores da guerra. Uma bomba de concepção tão simples quanto destruidora e retrato da  total falta de escrúpulos e respeito pela vida daqueles que, pelo poder, não hesitam em destruir o presente e o futuro de quem quer que seja.

Basta encher um barril de gasolina, explosivos e peças de metal e lançá-lo de helicóptero sobre pretensos alvos. Fácil assim, sem tecnologia alguma, somente sangue frio e descaso, como num lance normal de pôquer, não de xadrez, como alguns analistas de guerra preferem dizer, pretendendo dar glamour ao que não passa de assassinato pavoroso, como todas as guerras.

A guerra não é um evento de heróis, mas de covardes que usam coitados para matarem e serem mortos em nome de uma ideologia, nação ou seja lá qual for a desculpa da vez. São aclamados os que matam muitos, os que destroem mais, os que apavoram. Recebem medalhas e discursos.

As crianças mortas, os pais que perderam os filhos, os filhos que perderam os pais, as viúvas e os viúvos, as conquistas de vidas inteiras destruídas, as esperanças e os sonhos enterrados, nada disso é condecorado, pouco é sequer lembrado, pois há heróis para louvar, há pátrias e ideias para aclamar.  Mas os verdadeiros heróis são as vítimas dessa insensatez, os que tiveram a sorte de sobreviver fisicamente, embora com suas almas destruídas pela barbárie e, mesmo assim, tentam continuar com seus passos, mesmo tropeçando nos escombros. E os que ficaram lá, entre os escombros ou viraram pó. Não há medalhas para eles, nem as querem, nem é possível entregá-las.

Não há glória na guerra, embora, em nome dela, as batalhas aconteçam e glórias sejam gritadas.

Omran não chorou: olhou para o vazio e, num gesto, gritou toda indignação ao mundo: na ambulância,  com a mão, limpou o sangue de um olho. Antes tivesse chorado ao menos uma lágrima, uma lágrima para ajudar a  limpar o sangue de seu  rosto. Ao menos uma lágrima para lavar um  pouco da vergonha da humanidade.

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