Ignorância não é desculpa

“Por que você usa palavras tão difíceis?”, perguntou-me o aluno em palestra. Perguntei a ele por que as palavras são difíceis e aproveitei a coincidência:  minutos antes, chegara um repórter para cobrir a Semana Literária que começava naquele dia, na escola. Eu não o conhecia e tampouco o conheciam os alunos; chamei-o, e perguntei aos alunos qual o nome dele. Como não houve respostas, li seu crachá e o apresentei: “É o Alexandre, ele é jornalista e veio cobrir o evento”. Na mesma hora, a manifestação: “A gente acha que são difíceis porque não conhece”. Mataram a charada.

Ouvi dizer que Ariano Suassuna falou: “Não uso palavras difíceis, eu conheço as palavras”.

Em tempos de “Eu não sabia de nada”, talvez seja bom meditarmos sobre a ignorância, condição básica do ser humano: nascemos ignorantes e continuamos ignorantes por toda a vida; o que faz a diferença é a atitude de cada um frente ao não saber. Para alguns, é um desafio – “Só sei que nada sei”, atribuído a Sócrates – de informar-se, buscar o saber, ficar de alma e mente abertas;  para outros, é a desculpa que leva ao erro, nascedouro do preconceito.

No quiproquó político e religioso em que estamos metidos, a ignorância é a maior arma dos sem escrúpulos: alguns vendem indulgências, outros, mentiras atuais e passadas, pregando equívocos históricos gritantes para justificar suas lutas nada éticas para preservar mordomias e falcatruas. E o manto da ignorância não escolhe quem cobrirá para que esses destituídos de moral se aproveitem, uma vez que o fanatismo é seu maior aliado e aí nenhum estudo, nenhuma vivência, nada consegue abrir espaço para o conhecimento, a  análise, a ponderação; é uma batalha em que a razão e o bom senso já entram derrotados.

Há um culto da ignorância, como se ela justificasse as ações dos ignorantes. O politicamente correto, por exemplo, agora quer chamar bandido de “desassistido”, ou seja, a culpa é de quem é assaltado.  Não há dúvida que a desigualdade social e a consequente falta de conhecimento são duas das causas da falta de segurança, mas daí a instituir a peninha como política oficial,  existe um oceano de distância entre a razão e a imbecilidade.

Jogar lixo nas ruas não é propriamente uma novidade em nossas cidades, e não é apenas os “desassistidos” que o fazem, mas  dizer, como disse um secretário de cidade perto daqui: “Não adianta fazer nada, isso faz parte da cultura da população”, não é simplesmente o fim da picada; é a sagração da desculpa pela ignorância.

Mais Conteúdo