O muro da vergonha

Brasília foi concebida em sonhos vários como um lugar mais equidistante para todos os brasileiros para que houvesse oportunidades de miscigenação,  convívio e confraternização. Um lugar onde as pessoas se sentissem mais irmãos com suas misturas. Seu projeto urbanístico, com amplas áreas abertas, reforçou essa ideia. O formato de avião do Plano Piloto era para dar asas aos moradores  e visitantes. 

Nem tudo é perfeito: a falta de calçadas criou um problema de mobilidade, mas sempre há o jeitinho. Na arquitetura, apesar dos caixotes dos ministérios, várias formas curvas  – Niemeyer dizia que amava as curvas porque o universo é curvo – ondulam com as colinas, e ajudam a quebrar a secura das retas e do clima.

Brasília foi concebida para ser uma cidade de encontros, não de encontrões; uma cidade de debates, não de ofensas; uma cidade de sabedoria, não de ignorância e violência. 

Mas alguma coisa deu errado, em vez de as pessoas lá se desarmarem, alguns, nem tão poucos, armaram-se  para ir,  e não apenas passaram a ofender, mas a ameaçar. Cadê o brasileiro cordato? Incentiva a pegar em armas e matar quem pensa diferente dele. E em Brasília.

A solução para evitar essa batalha foi a mais humilhante possível: construir um muro para separar os manifestantes contra e a favor do processo. Querem separar os bons dos maus, ou vice-versa, já que os maus sempre estarão do outro lado. Num mundo em que se dizia que este século seria o da harmonia, as forças de segurança precisam construir um muro para separar brasileiros.

A capital do povo cordato virou um barril de nitroglicerina, já que pólvora não dá tanto estrago.

Escrevo no sábado, portanto, sem saber de qualquer resultado, de qualquer reação, de qualquer ato que cause muito mais tristeza ainda. Como escritor, tenho a obrigação de sonhar, por isso sonho em ver as pessoas colando mensagens de paz, de sonho de um Brasil de orgulho, de fraternidade na discordância no muro erguido para separar quem nasceu para andar junto.

Quem sabe, na segunda-feira, um operário não fique com pena e deixe apenas um pedacinho do muro, à guisa de monumento e moldura para um pedaço de papel com  estrofe de poema de Thiago de Mello, escrito em tempos escuros: “E, enquanto não chega o dia em que o chão se abra em reinado de trabalho e de alegria, cantando juntos, ergamos a arma do amor em ação.”   

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