Os sons do silêncio

Chove e faz frio nesta sexta-feira em que escrevo,  e a casa se repleta  de convites à reflexão que levam a versos de “Sound of silence”: As palavras,  como silenciosas gotas de chuva caíram/ e ecoaram nas fontes do silêncio”. Vinícius, meu filho, quando ainda engatinhando, ao ouvir essa música, disparava para frente do toca-discos e lá ficava, como se hipnotizado. Talvez por isso, até hoje, a cantarolo sempre que algo me leva a mudar de pensamento.

Não há silêncio; é nele que descobrimos sons que nos gritam: “Estamos vivos”.

Gatos sabem pisar com pés de veludo, mas a grama levanta suaves murmúrios, como se de acariciamento, quando tocada pelo andar felino em noite de calmaria.

O campo, principalmente onde há poucos capões, respira silêncio, mas a brisa, quando penteia o campo, deixa sua canção, o orvalho, ao deslizar pelo capim, traça um caminho de rio e dá para escutá-lo pelos olhos,  e a geada, ao se partir, imperceptível,  imita o sopro da geleira que se rompe.

Há um mar adormecido nos quietos búzios vazios e que só acorda ao contato da concha com a orelha de criança que quer levar o mar para cima da serra. Ao quebrar as ondas, o mar empilha sons de forma a, de longe, parecer não uma quebrança, mas um rugido de tempestade com preguiça de ganhar força. Já distante da praia, na mansidão do azul, seu silêncio não mais que borbulha nos cascos dos barcos ou nas mãos que desenham efêmeras figuras em sua superfície. Dentro da concha, seu som respira.

Florestas não se calam, há sempre um chilreio, um miado, galhos se roçando como se amor fizessem, folhas a flutuar até tocarem o solo e, no caminho, a passar seus dedos em outras folhas, às vezes algazarras de bandos de animais, mas há um momento em que o silêncio se instala pesado: quando o céu prepara uma trovoada, todos os sons se abrigam e os ouvidos se afinam à espera do primeiro trovão e dos pingos que, pesadamente, tamborilarão nas copas.

A neve tem um silêncio de abafamento: o som se encurta e é absorvido pela brancura como se não tivesse pago pedágio para ir adiante. Não há silêncio mais profundo do que o ar na neve em dia sem vento. E esse silêncio pode mergulhar  e ser levado em segundos em avalanches.

Não há silêncio, há apenas sons que descansam. Alguns dormem um pouco.

Mais Conteúdo