Que tal bater um papo?

Pessoas reunidas na sala, muitas risadas, comentários, assuntos, informações novas, música de fundo. Atmosfera perfeita para uma tarde de domingo. Não fossem as risadas provocadas apenas por vídeos postados em alguma rede social, os comentários sobre publicações, as informações novas as que dizem respeito ao que foi visto na rede e a música de fundo vinda de algum programa de TV que escolhe os músicos de acordo com as necessidades comerciais do momento.

Todas as mãos ocupadas com aparelhos celulares e a senha para estabelecer alguma conversação: “Viu isso?”. Passada a curiosidade, mais busca de assuntos nos celulares. Até lá, silêncio somente quebrado pelos sons emitidos pelos aparelhos. Começar assunto que não está em alguma telinha? Bobagem, pois mesmo que alguém escute, para de prestar atenção depois da segunda sílaba da terceira palavra emitida. Isso vale também para a resposta à pergunta eventualmente formulada.  Creio que, se mandar alguém para o lugar que vier à telha, não haverá reação alguma. Na próxima, experimento, mas o segredo é usar palavras bem curtas; não mais de cinco sílabas no total, mesmo assim, vai passar despercebido.

Mereço o troféu “Enfado”,  nessas circunstâncias, pois não faço a mínima questão de aprender como ficar “ligado” eletronicamente o tempo todo: nego-me a viver sem o lúdico, o contato pessoal, o trocar ideias na velha e boa conversa, o respirar saudável convívio.

Lembro das fantasias de robôs que falavam e decidiam o que fazer com os humanos, que povoavam nossa imaginação infantil, causando admiração e, também, medo de que viessem a existir e escravizar a humanidade. Ainda não tomam decisões de vida ou morte, por exemplo, mas já fazem muito mais do que falar. Quanto a escravizar a humanidade, podemos viver sem eles? Imaginemos a hecatombe se todos os computadores deixarem de funcionar por uns dois ou três dias no mundo: apocalipse é pouco.

Nesse cenário, será que a tecnologia também tirou nossa capacidade de conversar  sem qualquer muleta tecnológica?

De hoje em diante, sairei prevenido: quando começar o “papo”, abrirei um livro e, no meio do nada, de forma totalmente extemporânea, lerei:  “Porque essa necessidade da comunidade na adoção é o principal tormento de cada indivíduo e da humanidade inteira, desde o começo dos séculos” – Dostoiévski. Se alguém perguntar: “Quem”?, respondo: “Malschitzky”, ninguém saberá   a diferença, mesmo.

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