Fabio Gadotti

Comportamento, políticas públicas, tendências e inovação. Uma coluna sobre fatos e personagens de Florianópolis e região.

Professor da Unicamp defende a “humanização” das cidades

César Nunes, professor da Unicamp - divulgação/ND
César Nunes: “Mexer na educação é um primeiro elemento
para humanizar a cidade” – divulgação/ND

Professor titular de Filosofia e Educação da Unicamp (SP), César Nunes vai falar sobre humanização das cidades em sua palestra no 15o Congresso Catarinense de Municípios, que abre nesta terça-feira em Joinville. Para o especialista, “a capacidade humana de cuidar das pessoas” ainda é bem inferior aos avanços tecnológicos. Aos gestores públicos municipais, que tocam administrações com demandas gigantescas e orçamentos comprometidos, Nunes defende a criação de um “pacto de otimismo e de compromisso real”, com planejamento de políticas públicas que priorizem as pessoas. “Mexer na educação é um primeiro elemento para humanizar a cidade”, afirma o professor, salientando que os reflexos positivos repercutem em toda a família do estudante. Na entrevista abaixo, ele fala um pouco sobre esses desafios. 

Qual a abordagem da sua palestra no Congresso Catarinense de Municípios?
Vou falar sobre o quanto a capacidade humana de cuidar das pessoas, de respeitar as diversidades, ainda é bem inferior a capacidade material e tecnológica. Tivemos um grande desenvolvimento da tecnologia e das forças materiais e pouco desenvolvimento das relações humanas. A gestão das diferenças das pessoas não foi acompanhada no mesmo ritmo dos avanços das gestões das empresas e da economia. Hoje o mundo está preocupado com a questão da sustentabilidade, o respeito à biodiversidade, com diminuição da agressividade com que a gente cuida dos recursos naturais e, ao mesmo tempo, um padrão novo de relacionamento entre as pessoas, marcado pela dignidade de cada pessoa, tolerância, para que a gente não transfira para as gerações um avanço tecnológico e uma pobreza humanizadora.

Os municípios são o lugar onde as pessoas percebem a realidade do governo. O governo federal muito pouco chega nas pessoas, o estadual um pouco mais. Onde é que o munícipe, o cidadão, percebe a força do governo?
É no município, com o vereador, o prefeito e seus secretários. O que significa humanizar a gestão? Significa priorizar as pessoas. Cuidar da cidade, da educação, da saúde, das vias públicas, do esporte, de toda infraestrutura, mas tendo em vista o bem-estar das pessoas. Colocar em primeiro lugar a dignidade das pessoas, daqueles que mais precisam, sobretudo as crianças, os adolescentes, os idosos. Ter uma preocupação ética e cética com a transparência da gestão, mesmo quando tem que tomar decisões duras.

Como os municípios podem aumentar a humanização das gestões municipais?
Em primeiro lugar manter um pacto de otimismo. Significa que o gestor e sua equipe devem criar na cidade um pacto de otimismo e de compromisso real. Combater qualquer tipo de pessimismo, discurso amargurado. Criar uma atmosfera de otimismo real, palpável, bem planejado e desenvolver prioridades. Uma prefeitura, nas condições que o Brasil e o mundo estão, não vai resolver todos os problemas na gestão. Mexer na educação é um primeiro elementos para humanizar uma cidade. Repercute na criança, no pai, na mãe, nos avós, na comunidade. A humanização da cidade significa colocar a cidade em condições infraestruturais que gerem lazer alternativo, saúde coletiva. A prefeitura, o gestor, deve preocupar-se com isso. A cidade não precisa crescer somente na indústria e na economia. Tem que crescer no espaço público de lazer, no espaço educacional, no acolhimento cultural, no respeito a identidade ambiental. Isso que é humanizar.

Quais suas principais recomendações? 
O tema da humanização da gestão municipal é um dos mais sensíveis e destacados desafios da gestão pública atual. Ao lado do avanço das tecnologias e das grandes potencialidades produtivas da humanidade percebemos que as relações humanas e sociais ficam cada vez mais secundarizadas. A gestão pública dos municípios é aquela que cada pessoa, em sua cidade, percebe o agir e a atuação governamental. Então, nesse momento, promover a humanização e a cidadania, cuidar das pessoas para fazer a cidade mais humana, próspera e agradável é a bandeira maior. Priorizar ações de sustentabilidade e melhoria da educação, articulada com esporte, saúde, são dois caminhos muito importantes para humanizar as gestões. É preciso criar uma autoestima na comunidade. As prefeituras não têm dinheiro para investir pesado. Os gestores têm que fazer milagres com orçamentos curtos. Por isso é importante não abandonar os investimentos na sociedade, no bem-estar das pessoas.

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