Fábio Machado

Rotina, contratações e análise dos jogos dos clubes catarinenses. A história do futebol no Estado é resgatada com postagens que relembram os títulos e jogadores que marcaram Santa Catarina.

Fala, Marcos Moura Teixeira: “Carta Aberta ao Figueirense Futebol Clube”

Atualizado

A coluna publica a Carta Aberta ao Figueirense escrita pelo ex-diretor do Futebol do clube, Marcos Moura Teixeira. Esse texto e análise sobre os passos do clube desde 2010 até o a assinatura com a Elephant no final do ano de 2010, foi escrita em janeiro deste ano.

Todos os citados no texto, caso queiram se defender ou corrigir alguma informação, tem espaço aberto aqui na coluna digital.

Carta aberta ao Figueirense Futebol Clube

Prezados,
Aguardei um longo período para me manifestar. O faço agora por perceber que o FFC se vê frente a frente com a possibilidade de descontinuidade de um novo projeto desportivo. Creio que posso contribuir com informações ao CD, que certamente podem ajudar a balizar suas discussões e resoluções. Não me manifestei após minha saída, pois havia combinado dessa maneira com o grupo que permaneceu à frente do projeto. Sem dúvida, somente um lado pôde se manifestar até hoje, e dessa forma, todos tem somente a visão e posição de um lado da história. Foram quase cinco anos para que me fosse dado o direito de me manifestar a respeito. (…).

Para mim foi uma situação muito delicada e complicada, que afetou minha vida profissional e pessoal, inclusive minha família. Foi preciso um longo período para superar essa situação, compreender que todos que atuaram nesse período, buscavam sempre seus próprios
interesses, baseados nas informações que possuíam no momento, nem sempre verificando o outro lado da história.

Posso dizer hoje, que superei as mágoas e rancores produzidos durante esses acontecimentos, até porque, imagino, devo também ter provocado o reverso, mesmo que de forma não intencional, isso posso afirmar. Resolvi me manifestar hoje por estar acompanhando o desenrolar dos acontecimentos relativos ao FFC. Também porque, caminhando hoje pela manhã na Beiramar, vi o ex-presidente Lodetti e esses fatos me vieram à lembrança.

Não tenho dúvida que foi um período também complicado para ele e nesse sentido quero reiterar que para mim está superado, sendo que também espero que ele se sinta assim. Quero pautar uma sequencia de fatos e acontecimentos que marcaram a história do FFC nos últimos anos. Como segue:

FIGUEIRENSE PARTICIPAÇÕES – 2000 a março de 2010

• Não há dúvida que o período em que o FFC esteve sob a gestão da Figueirense Participações, foi um período positivo quanto ao aspecto técnico e comercial. No caso a FP tinha controle absoluto do processo, pois seus sócios ou diretores se alternavam na presidência e cargos diretivos. No caso, a “caneta” que decide quem entra e sai (jogadores), estava sobre o controle da empresa gestora. No futebol, o que realmente importa, é quem tem o poder para autorizar a entrada e saída (contratação e liberação) de jogadores junto a FCF e CBF. Esse é o fundamento do negócio futebol!

• No contrato da FP constava que tinham direito a 80% das receitas e que os 20% restantes seriam para o FFC. No caso os 20% que seriam a parte do FFC, eram utilizados no operacional do clube, portanto, ao final, o clube não tinha receitas, apenas
ficou o que já era ou foi agregado ao seu patrimônio durante esse período.

• Quero lembrar que cheguei a Florianópolis ainda durante o processo de transição para a saída da FP. Vim como consultor para auxiliar o grupo do Edson Silva em seu projeto de reestruturação do Figueirense. Tanto eu, como o Renan, fizemos parte desse grupo, que por ações e motivos políticos, foi substituído pelo grupo do Wilfredo. Eu e Renan seguimos no projeto, pois profissionalmente já estávamos comprometidos.

• Quero também lembrar que participei de diversas reuniões, inclusive uma reunião muito importante no mês de janeiro ou fevereiro de 2010, realizada no escritório do  presidente do CD na época, onde estiveram presentes vários membros do CD do FFC. Nessa reunião foi discutido o contrato de resilição entre FP e FFC. Deixei bem claro
para todos os presentes, que assinar o contrato de resilição como estava, era assinar a inviabilidade operacional do FFC!!!

• Para que tenham uma ideia, a FP saiu do FFC e antes dessa resilição, transferiu todos os atletas de alto potencial técnico (profissionais e base) para o clube de seu parceiro, preservando seus interesses e de seus parceiros na época. Vendeu 10% dos Direitos Econômicos de todos os atletas do clube (profissional e base) para um banco (investidor) por US $ 1.0mi.

• Devido a isso, a partir daquele momento, o FFC passou a não ter nenhum jogador de sua equipe profissional registrado no clube, ou seja, o FFC passou a ser um clube 100% de “barriga de aluguel”!

• Para completar, na resilição constou que, a FP levava em sua saída 70% dos direitos econômicos dos jogadores com contrato profissional, e pasmem, 50% dos direitos econômicos dos atletas que ainda nem eram profissionalizados, ou seja, atletas de 14 a 17 anos que apenas eram “federados” na FCF. Na grande maioria desses atletas, o FFC ainda dividia seu percentual de participação nos direitos econômicos com outros parceiros, ou seja, agentes e empresários parceiros que indicaram ou trouxeram esses atletas ao FFC. Ao final, em muitos casos, o FFC ficou com 10 a 15 % de participação efetiva nos direitos econômicos. Ou seja, a outra metade desses 30% ficava com os
agentes ou empresários parceiros nesses atletas.

• Também foram transferido os direitos de solidariedade relativos a todos os jogadores que foram formados no FFC durante o período de 10 anos de atividade da FP, através
desse contrato de resilição.

• Creio que dessa forma, todos podem constatar o porquê da inviabilidade operacional e consequentemente, do futuro do FFC!

• No caso, o FFC e sua nova empresa gestora, ficaram com a responsabilidade de pagamento dos salários da equipe profissional (nenhum jogador pertencia ao FFC ou havia participação nos direitos econômicos) , assim como todo o investimento na formação dos atletas da base, o que leva vários anos (atletas de 14 a 19 anos). Nesse caso da base, na grande maioria, o FFC iria sustentar essa formação, trabalhando durante anos, para forma um jogador que tinha seus direitos econômicos pertencentes à FP, ou a empresários de jogadores, ficando uma parcela ínfima para o clube e sua futura empresa gestora. Creio que todos sabem o nome que se dá a isso!

• Para completar, existia um contrato exclusividade entre o parceiro técnico/comercial (empresário de jogadores) e o FFC. Não havia a menor possibilidade de seguir em qualquer
tipo de competição sem essa parceria naquele atual momento, pois o parceiro
técnico/comercial (empresário de atletas) detinha a totalidade dos direitos federativos dos jogadores, ou seja, o FFC não tinha nenhum controle sobre esses atletas, eram todos atletas emprestados ao clube, seguimos com a parceria, fazendo ajustes ao longo do processo. ALLIANCE/ – abril de2010 a Dezembro de 2011

• Portanto, foi essa a situação que encontramos no início de nosso trabalho em março/abril de 2010. Formamos um grupo de trabalho excelente, composto por Leonardo Moura, Marcos Teixeira, Renan dal Zotto, Alex Tomita (consultoria Phoenix) e depois a chegada do Chico Lins que conheci em um almoço junto com Renan e Leonardo, quando então o indiquei e o convidamos para que fizesse parte de nosso grupo como gerente de futebol. Não posso me esquecer dos demais funcionários que já estavam no clube, como Marcelo Haviaras, Junior Coradini e Rafael Machado. Depois passamos a contar com a Karina e Ronaldo na comunicação e assessoria de imprensa. Descrevo aqui o grupo mais relacionado ao futebol, que certamente todos, junto com os demais setores, nos auxiliaram e participaram efetivamente desse
processo. Quero afirmar e reiterar aqui que, nossa equipe de trabalho era de altíssimo nível profissional e também uma equipe que se relacionava muito bem. Não há dúvidas que formamos um conjunto com a diretoria estatutária, seu presidente e o CD, assim como com os investidores , Wilfredo e Rodrigo através da Alliance. • Como expliquei anteriormente, devido à condição relativa aos direitos econômicos dos atletas, orientei os investidores a adquirir da FP uma parcela de aproximadamente 50% de seus direitos econômicos (resilição FP/FFC), tornando assim minimamente interessante seguir investindo nos atletas da base de formação do FFC. Essa primeira aquisição ocorreu através da Alliance em setembro de 2011. Para completar o processo, foi realizada uma nova aquisição através da Alliance junto a FP em abril de 2012, quando então todo o percentual de direitos econômicos da FP, passou para a posse da Alliance, gestora parceira do Figueirense. Junto com esse percentual final, a
Alliance também adquiriu os direitos de solidariedade que haviam sido incluídos na resilição entre FP e FFC, que estavam na posse da FP desde sua saída. Esses direitos de solidariedade geravam receitas para a FP, sempre que um atleta da lista de atletas formados na gestão FP/FFC nos últimos 10 anos, era transferido (vendido) de um clube para outro no exterior. • Assim que iniciamos o trabalho, realizamos uma triagem efetiva na relação de atletas
da base e profissional. Eram 104 atletas, que reduzimos para 35, mas que nos custou muito trabalho e intensa negociação, com intuito de minimizar ao máximo os custos de dispensa. • Foram investidos quase R$ 4mi nessa aquisição de direitos econômicos da FP pela Alliance, única maneira de viabilizar e tornar comercialmente possível a continuidade do processo de formação da base do clube. Caso isso não houvesse sido feito, passaríamos os próximos anos arcando com o custo da formação dos jogadores e
repassando os resultados financeiros à FP e outros, ou seja, os valores resultantes da venda e transferência desses atletas não reverteriam para o FFC e a empresa gestora. • Podemos então frisar o enorme sucesso da parceria entre FFC e Alliance (empresa gestora) nos anos de 2010 e 2011 na sequencia com o acesso para a Série A e a melhor campanha da história do FFC na série A de 2011 (7º. Lugar). • Tivemos vários jogadores indicados como destaques do Brasileirão de 2011 (Bruno, Juninho, Júlio César e Wellington Nem), além do técnico Jorginho.

• Dobramos o valor dos direitos de TV através de negociações com o clube dos 13, chegamos a 13.000 sócios adimplentes e com a carteira de patrocínios completa, com patrocinadores do porte de uma Eletrosul e Taschibra. • Sem contar que finalizamos os estudos e a apresentação do projeto da Arena do Figueirense também ao final desse ano. Inclusive contratamos uma pesquisa do IBOPE Inteligência, que nos provou que o projeto da Arena era viável. Fizemos essa apresentação na FIESP-SC, com a presença do técnico Tetra Campeão Carlos Alberto Parreira como patrono.

• A parceria técnica/comercial entre o FFC, empresa parceira gestora (Alliance) e empresário de jogadores, foi renovada nesse ano, de forma exclusiva novamente. Fizemos em conjunto vários ajustes nessa parceria ao longo dos anos de 2010 e 2011, quando conseguimos a manutenção e continuidade da maioria dos atletas que interessavam ao FFC, assim como participação em futuras negociações desses atletas que estavam sendo valorizados na “vitrine” FFC. Foram dois anos muito produtivos, tanto no aspecto técnico, quanto no aspecto comercial. Com certeza esse foi um dos principais fatores de sucesso do FFC nesses dois anos. Nesse sentido, fui o principal responsável por essa interface entre os interesses do clube, do empresário de jogadores parceiro e da empresa gestora parceira do clube. ALLIANCE – Janeiro a setembro de 2012.
• O contrato da Alliance empresa parceira com o FFC, sempre foi motivo de contestação. Também entendo que não era o melhor modelo, mas era o contrato que existia e que estava vigente. O contrato basicamente dizia que a Alliance empresa parceira, teria direito a 20% das receitas anuais do clube como remuneração. Esse contrato foi baseado no percentual que cabia Ao FFC no contrato anterior entre FP e FFC. No caso do contrato entre FP (80%) e FFC (20%) de 2000 a 2010, os 20% da receita que o FFC tinha direito, eram usados pela FP nos custos operacionais do clube. Toda a receita extra principalmente relativa as negociação de jogadores, era destinada, distribuída aos
sócios da Figueirense Participações (FP).

• Tenho plena certeza que esse modelo não era adequado, tanto que foi modificado através de negociação entre a empresa Alliance e o FFC através de sua diretoria estatutária e Conselho Deliberativo (CD). A Alliance abriu mão de mais de R$ 8 mi que teria direito (20% da receita dos anos de 2010, 2011 e parte de 2012), em troca de parte de direitos econômicos ainda pertencentes ao FFC. Foi realizada uma equalização que atendeu aos interesses de ambas as partes. • Desde o principio da parceria, não tínhamos o controle efetivo da gestão do clube. O presidente do clube detinha o controle da entrada e saída de atletas, que é o corpo central do negócio futebol. Apesar de a parceria ter sido estabelecida baseada nessa confiança entre empresa gestora e presidente do clube, isso acabou sofrendo desalinhamento no início de 2012.

• Quando essa parceria entre Alliance e a diretoria estatutária que tomou posse em  março de 2010 foi estabelecida, o acordo entre as partes dizia que o presidente da diretoria estatutária seria o representante institucional do clube, com a responsabilidade de representá-lo. A empresa gestora seria responsável pela gestão do clube de forma integral, apesar de que, permanecia dependente da assinatura do presidente em todas as contratações e dispensa de atleta, direito inerente ao cargo de presidente, ou seja, assinar os contratos (entradas e saídas) que seriam registrados na FCF (Federação Catarinense de Futebol), no caso, controlando o que representa o coração de um clube de futebol, a contratação e dispensa de jogadores. Caberia a empresa gestora parceira, a efetiva gestão e controle operacional do clube de maneira geral, incluindo todos os departamentos.

• Naquela época, apesar de fazer parte de nosso planejamento futuro, ainda não era possível separar o departamento de futebol (empresa gestora), do FFC instituição (clube social), como foi realizado na sequencia em 2017. Esse era o nosso planejamento desde o inicio, mas somente após as mudanças na lei em 2015, isso foi possível de maneira mais definida. • Após o sucesso de 2010 e 2011, tínhamos um “céu de brigadeiro” pela frente em 2012. Receita prevista de mais de R$ 60 mil no ano de 2012. Projeto da arena pronto e que se
mostrou viável. Parceria técnica e comercial com empresário de jogadores muito bem afinada, apesar dos interesses serem sempre conflitantes, e eu sempre buscando o melhor interesse de todas as partes através da interface que realizava.

• Houve no inicio de janeiro de 2012 em minha casa, uma reunião entre todos os participantes desse processo (presidente do clube, sócios e representantes da empresa gestora, empresário de jogadores parceiro técnico/comercial do clube, assim como diversos amigos e companheiros de trabalho.

• Nessa noite houve a cisão que provocou todas as dificuldades e problemas que enfrentamos no ano de 2012. Ocorreu uma discussão entre o nosso diretor executivo e o presidente do clube. Um tratava de viabilizar efetivamente nossa gestão junto ao clube (empresa gestora). O outro não admitia ceder o poder de dirigir o clube, apesar do acordo informal no qual foi baseada essa parceria.

• Analisando o que ocorreu no início de 2012, vejo que houve um movimento da presidência e da diretoria estatutária, apoiado por membros do CD do FFC, no sentido de retomar o controle do clube. Quando iniciamos nossa gestão em abril de 2010, o clube estava em situação muito precária, em função da resilição e saída da Figueirense participações. Em dois anos de gestão, chegamos a uma situação altamente favorável ao clube, com sucesso técnico e comercial, excelentes patrocínios e 13.000 sócios adimplentes. O horizonte para 2012 era excelente! Acredito que foi por esse motivo que esse movimento ocorreu. Claro que os participantes ou os que deram apoio a esse movimento, não vão concordar com essa manifestação, mas tenho certeza que foi
exatamente isso o que aconteceu ao fim das contas.

• Logo em seguida a esse acontecimento, passamos a ter problemas efetivos com nosso parceiro técnico/comercial que ainda tinha exclusividade por contrato na indicação de jogadores. Não conseguimos acertar participação nos direitos econômicos de nenhum jogador contratado através desse parceiro, que por ter a exclusividade e nossa confiança, intermediou a contratação de todos os jogadores contratados para o ano de 2012.

• É preciso lembrar que o sucesso da gestão da gestão em 2010 e 2011 foi tanto, que na virada para o ano de 2012, não foi possível manter uma base da equipe, pois a grande maioria foi negociada para clubes maiores e para o exterior. Tivemos que reformular a equipe quase que totalmente, muito diferente do que ocorreu na virada de 2010 para 2011, quando mantivemos a base da equipe de um ano para o outro.

• Ainda em fevereiro, alertei aos representantes da empresa gestora (Alliance), assim como à diretoria estatutária, que em função dessa não participação nos direitos econômicos desses jogadores contratados, que o ano de 2012 estaria efetivamente inviabilizado. Não haveria como fechar o ano, pois faltariam os recursos complementares e previstos no orçamento apresentado para o ano de 2012, onde havia uma previsão de R$ 6mi de receita proveniente da negociação de atletas, ou seja, receita que dependia da nossa participação nos direitos econômicos dos atletas contratados através do parceiro técnico/comercial, participação essa que não ocorreu, inviabilizando as finanças do clube e consequentemente seu desenvolvimento e
crescimento. Fizemos uma reunião muito dura com esse parceiro técnico/comercial ainda no mês de fevereiro, onde ocorreu um desgaste muito grande entre mim e ele, pois a situação que se apresentava tornava a gestão do ano inviável, assim como a manutenção da parceria naqueles moldes. Inclusive, nossa amizade foi abalada devido ao desgaste ocorrido nessa reunião.

• Não tenho a menor dúvida que a parceria técnico/comercial foi fundamental para o sucesso do Figueirense nos anos de 2010 e 2011. Até porque esse empresário de jogadores conhece o assunto e tinha muita capacidade para conseguir atletas qualificados.

• Também entendo que essa parceria não poderia seguir nesse mesmo formato nos próximos anos, mas também entendo que o processo de independência dessa parceria, deveria ter seguido um rito mais adequado ao longo de mais dois a três anos. Foi inadequado e improdutivo para ambas as partes o rompimento da parceria ainda no ano de 2013. A empresa gestora e o clube, ainda precisavam de mais dois a três anos dessa parceria para fazer uma transição para uma maior independência.

• Em função dessa dicotomia de interesses entre a empresa gestora (Alliance) e a diretoria estatutária, passamos a ter cada vez maiores dificuldades na administração e gestão do clube.

• O parceiro técnico/comercial (empresário de jogadores), naturalmente se alinhou ao presidente do conselho de administração do clube (diretoria estatutária), pois ele tinha plena consciência que, o presidente estatutário controlava a entrada e saída de seus jogadores (contratações e dispensas). Isso agravou ainda mais o processo e a cisão entre as partes, que resultou ao final, na renúncia do presidente estatutário, no afastamento da empresa gestora da gestão efetiva do clube por vários meses, desaguando no rebaixamento para a Série B e consequente caos financeiro. O clube
perdeu seus créditos bancários durante esse período, assim como ficou sem recursos relativos aos direitos econômicos que não foram acertados com o parceiro técnico/comercial. Ficamos então com uma equipe com custo de série A, que caiu para a Série B, gerando rescisões vultosas, prejudicando muito a reestruturação e reformulação que teria que ser feita para o início do ano de 2013. WILFREDO – Janeiro a setembro de 2013

• A falta de recursos ditou a saída de vários jogadores, inclusive jogadores importantes e com história no clube. Sem dúvida a forma como saíram foi muito prejudicial, trazendo muitas dificuldades em relação aos torcedores, imprensa e membros do CD. Não cabe aqui discutir quem determinou essa estratégia, mas fica claro para todos, que a decisão até poderia ter sido a mesma, mas a forma de aplicação foi inadequada.

• Antes de minha saída, pude deixar todo o planejamento estruturado para obter o acesso, com a contratação do Vinícius Eutrópio (amigo pessoal), Marcos Seixas (trabalhamos juntos no Fluminense), Rodrigo Pastana (eu sabia que essa contratação ajudaria a acalmar a imprensa), profissional que já havia trabalhado com o Vinícius. Também pude completar as contratações de atletas, exceto Paulo Roberto e Everton Costa, que foram efetivamente contratados e bem contratados após minha saída. Passei ainda um período posterior a minha saída, aconselhando o grupo que permaneceu na gestão do futebol, mas ao final de outubro estava definitivamente afastado do processo.

• Foi um período de muita dificuldade financeira. Não fosse pela disponibilidade do presidente Wilfredo em financiar o clube através de mútuos com o FFC, não teríamos conseguido gerir o clube durante esse período e conseguir o acesso novamente a Série A.

. CONCLUSÃO: • Desde a virada do ano de 2012 para 2013, apesar de não recomendado por nós profissionais, se iniciou uma prática que tem ajudado a estourar as contas do FFC. Os atletas dispensados passaram a não ter suas rescisões pagas na saída, ou equacionadas através de parcelamento. Isso sempre provoca um “efeito rebote”, que implica em ações trabalhistas que geram prejuízos enormes, multiplicando os valores devidos. Também os agentes, representantes e empresários de atletas, passaram em sua grande maioria a não receber suas comissões, gerando insatisfação no mercado,
dificultando contratações, perda de credibilidade e em várias ocasiões, ações na justiça e acordos em valores inflacionados devido aos atrasos. • Acredito que essa prática tenha perdurado, inclusive durante os três anos posteriores
de Série A (2014, 2015 e 2016), intensificando de maneira ainda maior em 2017.

• Quando iniciamos a gestão em 2010, a dívida básica do FFC era de pouco mais de R$ 3 mil. Optou-se por refinanciamento contínuo. Acredito que mesmo que a dívida tivesse sido equacionada e paga no início do desenvolvimento do projeto, novas dívidas teriam ocorrido e seguindo esse modelo de gestão, provavelmente chegaria aos atuais R$ 85 mil.

• Mesmo sendo empresários bem sucedidos em suas empresas, após algum tempo de atuação no clube, esquecem-se dos ordenamentos corporativos e passam atuar mais como torcedores do que dirigentes. No caso o presidente era sócio, torcedor e membro do conselho. Pela necessidade e ansiedade em obter resultados técnicos durante seu período de gestão, acabam não praticando a gestão corporativa que aplicam com segurança em suas empresas.

• O período em que a Figueirense Participações teve resultado técnico e comercial, foi fruto de uma gestão equilibrada entre a necessidade de resultados e a necessidade de retorno financeiro. Tinham total controle da gestão, como já foi explicado anteriormente. Após o período de 2000 a 2010, especificamente durante o ano de 2011, o Clube dos 13 foi implodido pela CBF/Globo, com a ajuda do presidente Andrés Sanchez. A Globo passou a negociar diretamente com os clubes seus contratos de direito de TV. Os valores foram muito incrementados, especialmente para os grandes
clubes, aumentando ainda mais o distanciamento e a dificuldade para as equipes menores, como o Figueirense, em relação aos clubes grandes e médios.

• Outro fato que sempre foi muito impactante refere-se aos contratos entre esses clubes que não faziam parte do Clube dos 13, que era o caso do Figueirense, Avaí, Ponte Preta e outros. Quando um clube como o Figueirense caía para a Série B, tinha seu contrato de Direito de TV reduzido absurdamente, passando a receber a cota da Série B, o que não era o caso de clubes que faziam parte do Clube dos 13, clubes esses que permaneciam recendo valores de Série A, durante o período de disputa da Série B. As demais receitas do clube, impactadas, tinham redução de quase 50%, dificultando ainda mais a operação do clube durante o ano de disputa da série B, na busca do
acesso.

• Tenho plena convicção que o modelo atual de estrutura de clube como entidade sem fins lucrativos não atende a necessidade de desenvolvimento de um clube de futebol. A formação de um conselho de administração formado por membros do conselho deliberativo, geralmente coloca à frente do clube, um presidente que tem pouco tempo de mandato (2 a 3 anos), torcedor, ansioso e cobrado por resultados técnicos competitivos, assim como passa a receber pressão interna de seu próprio conselho de administração e demais membros do CD, que não fazem parte efetiva de sua gestão.

• Não tenho dúvida da importância dessas pessoas que estruturaram e desenvolveram o clube ao longo dos anos, cuidando de seu patrimônio com carinho. Essas pessoas são muito importantes e tem que funcionar como um “controller”, de forma a não permitir que as gestões sejam irresponsáveis e possam dilapidar o patrimônio do clube, geralmente conquistado com muita dificuldade.

• Ao mesmo tempo, por sua grande maioria não poder acompanhar os acontecimentos, emitem opiniões internas e externas, sem o efetivo conhecimento dos processos e circunstâncias vivenciadas na operação e dinâmica de um clube de futebol. Geralmente tem contato com torcedores e membros da imprensa, trazendo dificuldades ainda maiores aos gestores do momento.

• Não tenho dúvida que precisam ser informados e que devem ser criados processos, mecanismos e oportunidades para sua participação, mas que não possam atrapalhar a gestão, seu processo e dinâmica de decisão.

• Nesse sentido, tenho consciência que me equivoquei, deveria ter criado esses
mecanismos e procedimentos, com o intuito de informar e criar o sentimento de “pertencimento e participação”! Vejo assim: se ao final não podem ajudar muito, por outro lado, podem atrapalhar e prejudicar muito a operação se assim o quiserem.

• Está claro para mim que o modelo atualmente adotado pelo FFC, que na verdade é a continuidade do projeto que sempre defendi, também não funciona e tem a tendência de não funcionar.

• Foi feito um contrato em 2017 cedendo o futebol do FFC para essa empresa que agora tem o controle total do futebol do FFC. Por trás da Elephant está um grupo de investidores, capitaneados pelo Vernalha. Portanto, o Vernalha não é dono, ele representa o grupo de investidores. Resumindo, caso alguma coisa aconteça, não será com os recursos dele, por isso, entendo que esse modelo também não tem o formato ideal.

• A maior prova de que esse modelo não é ideal, está no fato que o Vernalha vem sofrendo pressão de torcedores e do CD. Como é possível se hoje é uma empresa com autonomia total? Parece que o mundo do futebol já engoliu o atual mandatário. Os costumes já são os mesmos. Disseram-me que ele é um negociador de empresas em dificuldades, que atua como um trator nas negociações, com dureza, mas já está sendo “tratorado” pelo futebol!

• Para mim o modelo ideal, seria o caso de um contrato com uma pessoa, como nos Estados Unidos, o clube passaria a ter um dono efetivo, que teria que comprovar e apresentar garantias e planejamento para o desenvolvimento da operação. Um plano garantido de equacionamento e redução de dívidas, respeito aos orçamentos e planejamentos apresentados junto com um plano de investimento de curto, médio e longo prazo. Sem contar que teria que apresentar garantias bancárias para a  manutenção e operação do clube por um prazo de 3 a 5 anos como é nos Estados Unidos, quando se adquire uma franquia de qualquer esporte.

• O patrimônio do clube seria discutido à parte, dependendo do interesse do clube e da capacidade de desenvolvimento do propositor.

• Claro que vão dizer que isso é muito difícil! Sem dúvida é, mas se não for assim, o clube sempre estará sujeito a esse “efeito gangorra”, a essa constante “montanha russa”, onde de tempos em tempos, é necessário romper o processo e começar tudo novamente, só que em uma situação pior!

• Todos quando chegam propõem a profissionalização da gestão do clube,
profissionalização essa que nunca ultrapassa o limite do diretor de futebol (executivo de futebol), pois senão, qual seria a “graça” de ser presidente sem efetivamente participar e influir nos processos decisórios?
• Além disso, o clube nunca tem uma continuidade em seus planejamentos, projetos e desenvolvimento efetivo. É um eterno recomeçar, aonde projetos importantes como a ARENA, vai ficando para trás.

• Como relatei anteriormente, a quebra do contrato com a Alliance e todo o processo de renúncia vivida em 2012, fez com que perdêssemos a possibilidade de efetivamente viabilizarmos o projeto da ARENA, além de termos recuados cinco anos no processo de desenvolvimento desportivo do clube.

Pergunto: VALEU A PENA?
• Voltando a questão da ARENA. Não há como o FFC realmente se desenvolver e atingir patamares adequados e sustentáveis, sem a construção da ARENA. Já havia dito e avisado sobre isso desde 2011.
• Minha sugestão aos membros do conselho é: negociem o retorno do controle sobre o processo da Arena para um grupo de conselheiros. Peguem de volta isso, pois, caso contrário, não acontecerá tão cedo. Tire das mãos desse grupo, não vão ter tempo de viabilizar isso, como tantos problemas e “buchas” que acontecem no dia do futebol!
Tem que ser um grupo enxuto e muito proativo, para realmente tocar em frente o projeto, que aí no Estreito é viável.

• Sei que o grupo do Edson tem sugestões, assim como outros, mas se estiver sob o guarda chuva da empresa atual, as chances de desenvolvimento são poucas.

• Claro que o ideal seria somente um estádio para os dois clubes da capital, mas é pedir muito que uma parceria como essa ocorra. Caso fossem dois clubes e um só estádio, esse estádio seria viável de inicio, principalmente se localizado no Scarpelli, no formato de shopping e estádio, como era nosso projeto. Já daria partida com 38 jogos de Série A ou B, sem contar Copa do Brasil, eventuais Sulamericanas e decisões de estadual!

• Outros clubes estão trabalhando com modelos de gestão compartilhada, casos do Londrina, Paraná Clube, Ferroviária (SP) e o Guarani que agora finaliza um processo desse tipo. Eventualmente conseguem sucesso e resultados, mas mesmo assim, vivenciam também uma “montanha russa” de emoções!

• Será necessário um trabalho de longo prazo, com planejamento e continuidade de gestão, caso contrário, os riscos e as dificuldades serão cada vez maiores.

• A pergunta que fica: O que o clube Figueirense deseja para seu desenvolvimento e continuidade? Qual a perspectiva do clube sem um estádio novo ou remodelado? Como garantir um desenvolvimento sustentável? Como conseguir estabilidade financeira e regularidade de resultados?
• Vejam o exemplo do Coritiba, que no próximo ano de 2019, terá contrato de TV de Série B (R$ 8 milhões) e uma receita prevista de R$ 46 milhões, ou seja, a mesma receita do Figueirense no ano de 2011. Vejam que um clube pode efetivamente “andar para trás”!

• Espero com esse texto, ter contribuído para que possam avaliar os “porquês” do Figueirense ter chegado nessa situação atual, assim como provocar uma avaliação e movimento para renovar e encontrar o caminho a ser trilhado.

Fico à disposição. Obrigado. Marcos Moura Teixeira

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