Fábio Machado

Rotina, contratações e análise dos jogos dos clubes catarinenses. A história do futebol no Estado é resgatada com postagens que relembram os títulos e jogadores que marcaram Santa Catarina.

Histórias da bola: O Tênis Voador

“Nada pode dar errado”. Essa foi a frase que o Nei disse ao acordar naquela manhã fria de domingo. Logo depois, o seu Avaí estaria em campo diante Joinville decidindo uma vaga para a final do estadual de 1997 diante do Tubarão. Passou o dia feliz. Tentou tocar uma música no seu violão, mas não conseguia se concentrar: não passou de dois acordes. Contando o tempo, se viu juntos com os seus amigos a caminho da Ressacada. Na época, não existia a Beira Mar Sul, o ônibus parecia uma minhoca se contorcendo pelas ruas de acesso ao sul da ilha.  A fila era enorme, mas para o Nei, que ao acordar disse que “nada poder dar errado”, esse problema nem foi percebido. A festa com os amigos e outros torcedores dentro do ônibus era maior que “a bicha”. Após tomar algumas cervejas (na verdade todas possíveis) nos bares no entorno da Ressacada, Nei e amigos finalmente se instalaram lá no alto das arquibancadas oposto ao setor A, nas descobertas. Em 1997, não haviam os camarotes e nem a cobertura naquele setor. Apenas um muro delimitava as arquibancadas com o espaço vazio. Até que finalmente a bola começa a rolar. E logo nos minutos iniciais, o Avaí abre o placar: festa nas arquibancadas. Na comemoração, Nei imita o gesto do chute dado pelo atacante no gramado, nesse momento o seu tênis que não estava corretamente amarrado, saiu do seu pé, ganhou altura passando por cima da sua cabeça, caindo lá embaixo onde estão os carros estacionados. Atônito, Nei corre para o muro. De cima das arquibancadas consegue ver um “flanelinha” que milagrosamente ainda está ali ao lado dos carros (geralmente eles pegam o dinheiro e somem!). Apoiado no muro, com o “cofrinho” aparecendo e com meia furada no dedão do pé, enquanto a bola rolava no gramado, o nosso amigo gesticula pedindo para que o seu tênis seja devolvido. O problema é que a altura é enorme do topo da arquibancada até o chão. Haja força! Na primeira vez que o guardador de carro joga o tênis, ele não chega nem na metade. Após mais duas tentativas, o flanelinha percebe que o desespero do Nei era uma chance para ganhar uns trocados. “Joga 5 reais”. E o Nei mandava. “Joga 10 reais”, e o Nei mandava. “Tem passe de ônibus? ” Lá voou o passe de ônibus da volta para a casa rumo aos braços do flanelinha. Essa negociação durou praticamente o jogo inteiro. E dá-lhe tênis voando pra cá e pra lá. Detalhe: os amigos rolando no chão de tanto rir com a situação absurda e humilhante. O sofrimento só terminou quando o flanelinha percebeu que do dono do tênis não saia mais nada. Então juntou todas as forças e o tênis caiu de volta nos braços do Nei. Neste exato momento, toca o apito final do árbitro, com o estádio festejando a classificação do Avaí para a final. Enquanto isso, um Nei desolado está sentado calçando de volta o seu tênis. Abatido, cansado e sem dinheiro, Nei olha para os lados e lembra da primeira frase dita ao acordar naquele dia: “Nada pode dar errado”.

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