Fábio Machado

Rotina, contratações e análise dos jogos dos clubes catarinenses. A história do futebol no Estado é resgatada com postagens que relembram os títulos e jogadores que marcaram Santa Catarina.

Histórias do futebol: ADEUS, CARRO VELHO

“Hoje vou dar a última volta contigo”. Com muito otimismo, Jerri disse essa frase ao entrar na sua velha Brasília ano 72, de cor marrom caindo aos pedaços no início dos anos 1980. A caminho do Orlando Scarpelli com várias cartelas de bingo do Figueirense na mão, Jerri falava para os seus companheiros de trajeto que chegou a ter sonhado que naquele dia seria a última vez que entraria no seu carro que expelia fumaças pretas por onde passava e deixava poças de óleo no chão nos lugares em que ele ficava estacionado. Na verdade, o carro era muito velho, uma verdadeira lata-velha em movimento. Poucas coisas funcionavam. Até o pobre do rádio, só começava a falar se um soco bem dado fosse dado nele. Não é à toa que o nosso amigo Jerri sonhasse com essa despedida. E não poderia passar daquele dia: um grandioso bingo do seu time do coração, o Figueirense no estádio Orlando Scarpelli. Dez carros novinhos e da moda seriam sorteados naquela tarde. E um deles, é claro, seria do Jerri que finalmente se livraria da sua Brasília. “Hoje é a última volta que estou dando contigo”, afirmou ao passar em frente à Escola de Aprendizes da Marinha se aproximando do estádio do Figueirense. Antes de estacionar chegou a pensar em que fim daria na Brasília: vender para um desmonte? Doar para alguém (mas quem iria querer esse carro?) Até mesmo a ideia de jogá-la do alto de um penhasco foi pensada, só pelo prazer de ver as peças se soltando no meio das pedras a caminho do chão. A verdade é que pela intuição do otimista Jerri, o momento do adeus estava chegando. Achou um lugar tranquilo para estacionar. Pegou com cuidado as cartelas “uma delas é a premiada”, fechou a porta da sua Brasília. E antes de sair voltou a dizer “é, hoje foi a última vez que andei nesse carro”.  Entrou no estádio e aguardou pacientemente o início do bingo. Correu o primeiro sorteio, nada. Passou longe. Veio o segundo, melhorou. No terceiro acertou a maioria dos números. No quarto, acertou mais ainda. “É hoje, não tem jeito. O universo está conspirando a meu favor”. No quinto prêmio, ficou por apenas dois números. “Só dois”. No sexto prêmio, bateu na trave, só mais um número e ele ganharia um carro zero quilômetro. No sétimo, a história se repetiu: só um número. No oitavo prêmio, passou longe. Mas não desanimou, pelo contrário. Para os amigos e para os outros concorrentes que estavam sentados ao seu lado, mostrava as duas cartelas que restavam e dizia “um desses carros será meu. Pô até sonhei que hoje andaria pela última vez com a minha Brasília cansada de guerra”. No penúltimo prêmio voltou a ficar muito, mas muito próximo. No último prêmio “é agora, é agora”, foi uma decepção. Desolado, saiu do Orlando Scarpelli desanimado, frustrado e abatido “cheguei tão perto, tão perto”. A caminho do local onde estava estacionada a sua Brasília pensou no sonho que era tão real e tão convincente “hoje é o último dia que você vai andar no seu carro”. Ao virar a esquina, entendeu que realmente o sonho que teve era uma premonição. Tinham roubada a sua Brasília. Teve que pedir dinheiro emprestado para não voltar para a sua casa a pé. No banco duro do ônibus, sentiu saudade do seu velho carro.

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