Bons dias, doutor!

O empregado entra entusiasmado na sala do chefe, depois de haver passado pelo crivo da sorumbática secretaria:

– Bons dias, Dr. Sófocles. Com licença.

O chefe o acolhe com um olhar de “quem permitiu entrar este vaselina?”. Será que dona Filomena está amolecendo? E faz uma anotação em seu bloco de notas, para mais tarde tomar providências. Mas o homem não deixa esfriar o entusiasmo:

– Sempre admirei seu nome, doutor. Um grande herói grego. Bem escolhido, aliás; diz bem de seu caráter e seu espírito empreendedor.

– Detesto meu nome. E Sófocles não foi nenhum herói, foi um dramaturgo, autor de tragédias.

– Tragédias? Não me fale de tragédias, doutor. Vamos falar de coisas alegres. Quem são estas belas crianças no retrato sobre sua mesa? Seus filhos, aposto. Já dá de ver… o mesmo olhar firme e resoluto…

– Não, são fotos que tirei para uma exposição de fotografias. Aliás, saiba que não posso ter filhos. Esse é um assunto que me aborrece.

– Evidente, evidente, doutor. Não se fala mais nisso. E este lindo quadro na parede? Aposto que é um Picasso. Uma pessoa de bom gosto como o senhor…

– Que Picasso, qual nada. É uma pintura de minha mulher. Está iniciando as aulas de pintura.

– Mas é extraordinário! Que talento! E ainda está no início… vejam só! Daqui a uns anos vai estar expondo naquele museu da França… como é mesmo o nome? Meu sonho sempre foi ser um pintor. Ah, como gostaria de sê-lo (ele falou assim mesmo, era um entusiasta da boa gramática).

Repentinamente, o carão afunilado do chefe se acende com um sorriso, os olhos brilham por trás das lentes dos óculos.

– Selo? O senhor, seu Cardoso, falou em selo? Essa é minha paixão. Também é colecionador?

– Assim…assim. Dou as minhas coladinhas.

– O senhor precisa ver minha coleção. Veja só esse exemplar, acabei de adquirir – e fixa os olhos com ternura no selo que segura com cuidado.

– Colecionar selo foi sempre meu sonho. Mas sabe como é… não tenho meios de manter um hobby desses. Falando nisso, doutor, só uma coisinha: estou precisando de um valezinho para o fim de semana. Doença na família, senão não ia incomodá-lo.

Meia hora depois, o empregado pega o telefone: Oi gatona! Nosso passeio à praia está garantido. Foi duro, mas consegui que aquele velho zureta, broxa e paranóico abrisse a mão.

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