Crônica do crioulo doido

Um amigo me telefonou logo cedo:

– Tenho más noticias!

O sangue me subiu rápido pra cabeça. E ele continuou com voz compungida:

– A camélia… caiu do galho, deu dois suspiros e depois morreu.

O cravo já se encontrava na UTI por causa de uma briga violenta com a esposa, em que saiu despedaçado. Tudo porque saiu por aí, violão debaixo do braço; em qualquer esquina parava, em qualquer boteco, bebia e, se houvesse motivo, fazia mais um samba. Só imagino como a jardineira deve estar triste…

Na rua, um bêbado com chapéu coco fazia irreverências mil, e eu aqui, nesta mesa de bar, na qual o garçom já cansou de escutar diversos casos de amor. Num belo passeio marítimo, há muitos anos, a canoa virou, foi pro fundo do mar. Dizem que a culpa foi minha, que não soube remar. Eu devo ter atirado o pau no gato quando criança pra me acontecerem essas coisas.

Minha vida não foi um palco iluminado. No jardim da vida, procurei colher as flores mais bonitas. As flores feias que me perdoem, mas a beleza é fundamental. Foi quando conheci Amélia, aquilo sim é que era mulher de verdade. Às vezes passava fome ao meu lado, enquanto eu comia a última bolachinha do pacote. Com ajuda de uns amigos, o Mato Grosso e o Joca, construímos nossa maloca. Mas Amélia morreu atropelada pelo trem das onze.

Lobão comeu a Chapeuzinho. Os caçadores não conseguiram pegar o malfeitor, pois fugiu para o Paraguai, onde leva uma vida de nababo (não leitor, é nababo mesmo, uma espécie de governador na Turquia). A vovozinha mandou confeccionar uma camiseta com a foto da neta e clama por justiça nas redes sociais.

O pior aconteceu com o belo príncipe. Depois de atravessar montanhas e florestas, encontrou a linda princesa que jazia numa cama de pedra. Acercou-se dela e tacou um demorado beijo na boca. Infelizmente a princesa não acordou, pois já havia falecido há mais de 20 anos. E que hálito, meu Deus!

Fui convidado para o casamento de dona Baratinha. Depois que ficou rica, resolveu escolher um marido, vejam só. Na hora do casório, cadê o marido, o senhor Dom Ratão? Sumiu de vez, o sem-vergonha. Como não houve mais casamento pelo pequeno inconveniente da ausência do noivo, resolvemos “estraçalhar” a panela do feijão, que por sinal estava ótimo, apenas com um gostinho mais esquisito. O que seria?

Antes de você perguntar se eu não tinha nada melhor pra fazer do que inventar essa barafunda, considere que é preciso, de vez em quando, adubar o resquício que ainda temos de alma infantil.

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