Lembranças do vento

Não sei se é porque sou um sinestésico, de acordo com a neurolinguística, mas meu histórico de vida é formado por sensações. Imagens são nuvens que se desvanecem em minha memória, se transfiguram em sombras. Mas me apreendo pelas sensações. Foram cicatrizes de alegria, tranquilidade, euforia, vergonha, amor e humilhação que tatuaram minha história. O aroma de tradição e incenso nas missas solenes na infância, o clima primaveril, o perfume de mato, os pingos de chuva na janela, o cheiro dos gibis antigos, o sol de verão nas costas e nos pés descalços, os mergulhos na água fria da Babitonga, o odor de flores nos tapetes diante do colégio, para as procissões, o correr nos quintais de terra, circundados de bananeiras, goiabeiras e pés de ameixa, a ascensão ao primeiro emprego…

Minha coleção de filmes antigos é uma tentativa de lembranças, mas não encontro neles o ponto certo que representa um menino ansioso diante das cortinas vermelhas do Cine Marajá. Meus gibis não têm o sabor que eu sorvia nas peripécias de seus heróis.

A única coisa que para mim permanece constante é o vento. Por que o vento?  Porque o vento me provoca sensações associadas a momentos de bem-estar. Me traz momentos de intensa liberdade. E também porque é poético formar frases com a figura do vento: “…E o vento levou”. “O tempo e o vento”. “O vento será tua herança” (foi a minha herança também, e, pelo jeito, vai ser a dos meus filhos).

Adorava correr contra o vento de outono, sentindo-o no rosto e nos braços. A exemplo do personagem de Titanic – e sem o saber – podia sentir-me o dono do mundo. Sempre que venta agradavelmente, vento de bom tempo, sinto perpassar essa sensação de liberdade. Respiro fundo. Não é por outra razão que minha concepção de lberdade é a de uma gaivota sobrevoando o mar, asas paradas, planando ao sabor do vento. 

Talvez eu não seja o único. Vejam o Caetano Veloso: “caminhando contra o vento”… e aquela outra música: …”depois andar de encontro ao vento…”. É como romper barreiras, vencer distâncias, seja no volante de um carro, de uma lancha, seja numa caminhada firme.  

É uma forma de captar a realidade, sentir a vida no corpo. Constatar que a velha natureza é uma fonte de prazer, dos poucos que nos são consentidos hoje gratuitamente. Sim, por mais que eu tenha mudado, a sensação do vento permanece a mesma de minha infância.

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