O fantasma do Iapetec

Foi, nos seus bons tempos, funcionário do antigo Iapetec (órgão de aposentadoria dos trabalhadores em transportes e cargas), um dos que foram unificados pela criação do atual INSS.

Solteirão, morando num quarto alugado, o serviço era seu amor, sua razão de vida. Era o mais antigo da repartição (o velho prédio de dois andares, com uma barulhenta escada de madeira, era chamado de repartição). No amplo espaço superior estavam espalhadas as mesas de verniz gasto, com seu incrível arsenal burocrático: carimbos, tinteiros, mata borrões, papel carbono, estampilhas. Numa mesinha ao lado, velhas máquinas de datilografia ou calculadoras de manivela, tudo o que se chama hoje de “vintage”.

Havia os funcionários quase fantasmas, condignamente representados pelos paletós no encosto das cadeiras. Havia ainda – coisa rara na época – uma funcionária, apelidada, à boca pequena, de Maria Candelária, como numa conhecida marchinha carnavalesca: aquela que passava o expediente indo ao cabeleireiro, ao dentista, ao café… Era casada com o atual prefeito e teimava em fazer valer no serviço sua condição de primeira dama do município. Não preciso dizer que o grosso do serviço sobrava para nosso personagem.

De postura séria e fleumática, como convinha, no seu entender, a um bom servidor público, guardava no íntimo um pouco de sadismo; era por isso que, como forma de protesto, colocava algumas vezes na gaveta da servidora duas ou três repulsivas baratas. Era de ver o salto acrobático realizado pela primeira dama quando resolvia abrir sua gaveta, façanha que ele acompanhava com um riso comedido. Não queria se aposentar; dizia, como em outra música carnavalesca da época: “daqui não saio, daqui ninguém me tira”.

Mas, sem ninguém esperar, aquela senhora de negro e foice na mão providenciou seu definitivo afastamento, com decreto em três vias, devidamente estampilhado e carimbado. Fez muita falta na repartição, serviços começaram a se acumular, o chefão estadual pediu explicações sobre os atrasos.

Dali a uns dois ou três meses, coisas estranhas começaram a acontecer no local: carimbos espalhados na mesa que lhe pertencera, arquivos de aço abertos, papéis carbono utilizados. Um dia a Candelária foi abrir a gaveta e encontrou um camundongo a encará-la, o focinho tremelicando. Até que uma hora – coisa incrível – ao chegaram de manhã à repartição, os funcionários encontraram os serviços todos em dia, empilhados e esperando a assinatura do chefe.

Dizem que isso ainda hoje acontece em alguns órgãos públicos.

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