Odisseia de uma mesa

A cidade era pequena. Um grupo de amantes da música reuniu-se e resolveu fundar uma sociedade lírica. Dentre eles, o maestro Parmênides, regente da banda de música local, e o escriturário Mirinho, que fazia imitações de Nelson Gonçalves (boemia, aqui me tens de regresso…).

Já possuíam um local, não muito amplo, mas que dava para o gasto. Conseguiram também quase uma centena de cadeiras para o público, doadas por amigos e familiares (todo mundo tem em casa uma velha cadeira, e não sabe o que fazer com ela).  Só faltava uma mesa de bom tamanho para as reuniões dos associados. Mirinho lembrou que na biblioteca, no térreo da prefeitura, havia uma bela mesa, antiga, praticamente sem uso. Aliás, servia apenas para que jovens desrespeitosos sentassem em cima, como se fosse a casa da sogra, sem respeito ao recato do ambiente.

O eficiente secretário da sociedade elaborou um ofício à biblioteca, solicitando doação ou ao menos empréstimo do bem (quando se trata de patrimônio do governo é conveniente mencioná-lo como bem, mesmo que seja um traste, o que não era o caso da mencionada mesa). A resposta do diretor da biblioteca veio rápida, desconfio que queria livrar-se com urgência daquele “antro de moleques”. Teria o maior prazer em fazer a doação do bem, mas este era propriedade do departamento de água e esgotos, no terceiro piso do prédio, ao qual deveria ser encaminhada a solicitação. E escrevendo isso, pegou o contínuo e o segurança e mandou devolver a mesa, mediante ofício, ao departamento competente.

Ao receber aquele bem não solicitado, o diretor mandou examinar os controles e descobriu que a mesa havia sido deixada naquele departamento pela secretaria de obras públicas, por falta de lugar em suas salas. Com o devido ofício, a mesa foi reencaminhada àquele órgão, no andar abaixo. O surpreso diretor de obras ficou aliviado quando se verificou que a origem do cada vez mais pesado bem, segundo seus pobres carregadores, era a sala do prefeito, nos fundos do terceiro pavimento. Toca pra lá.

A secretária do gabinete não quis receber o bem. Pediu, no entanto, ao contador para verificar seu registro. Estranhamente, a mesa não constava dos registros da prefeitura.

– Não podemos receber, nem fazer doação de um bem que não possuímos – disse.

E agora? Alguém lembrou de pedir informações ao “seu” Beneplácito, o mais antigo servidor do órgão, já passado da época de aposentadoria.

– Aquela velha mesa? Me lembro sim. Foi comprada para o acervo da biblioteca. Não sei como veio parar aqui.

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