OSCARITO PERDEU A GRAÇA

Há uma idade em que a pessoa percebe que, seguramente, tem mais tempo de passado que de futuro. E começa a voltar-se para os dias radiosos da “aurora da vida”.  Tudo no passado era melhor. Sente saudades até daquela professora chata e exigente, do vizinho encrenqueiro, que não devolvia a bola de couro quando chutada para seu quintal.

Orgulha-se de quando tinha que catar ossos na praia e vendê-los no ferro velho para poder comprar a entrada da matinê de domingo. Sente o sabor inigualável do cozido feito pela mãe, embora na época detestasse verduras e legumes. Disfarça um sorriso ao lembrar da vergonha que sentia na frente da bela garotinha, hoje certamente uma grisalha vovó.

Como escreveu Fernando Pessoa, que dizia grandes verdades de modo inusitado: fui feliz outrora agora. Fôssemos nos mudar para o passado, iríamos perceber que o passado só é maravilhoso em nossa lembrança; aliás, como quis dizer o poeta, esse passado mágico é inteiramente fabricado em nossa mente.

O passado não era essas coisas; havia a escola, as matérias a decorar, os colegas chatos, os tombos de bicicleta, as brigas de rua, as frustrações com as meninas, a falta de dinheiro, os banhos de sábado, as tardes de castigo. É uma época que permanece na memória como coisa pura, como um mito, para ser lembrado, não para ser revivido.

Hoje, verdade seja dita, ninguém tem saco para rever um filme de Durango Kid, o herói vestido de negro, cheio de brigas e perseguições a cavalo. Ninguém mais acha graça nas pantomimas de Oscarito, que enchiam as salas de cinema em dia de filme nacional. Oscarito era inigualável. Seus trejeitos desengonçados e sua ingênua esperteza faziam gargalhar crianças e adultos. Que papel ridículo fariam hoje os “catecismos”, quadrinhos de sexo explícito que líamos às escondidas, diante dos vídeos “quentes” da internet, acessíveis a um clicar de mouse.

As laranjas, que se colhiam diretamente das árvores (quase sempre no quintal alheio) e se comiam com prazer, debaixo da árvore, estão aí a preço de banana, nos supermercados. E não as comemos mais, pela preguiça (ou pela falta de tempo) de descascá-las.

Quem vai dispensar a comodidade do computador e continuar praticando caligrafia num caderno pautado, até ficar com as juntas dos dedos endurecidas? Quem pensa em largar seu moderno celular e voltar ao velho ábaco? Quem deseja ainda passar horas sovando o traseiro num banco de trem para ir de São Chico a Porto União?

Oscarito e Durango que me perdoem, o passado foi belo, mas que permaneça somente na memória.

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