Um camelô na praça

Quando vi aquele pessoal todo em um círculo na praça, não pude deixar de me aproximar. Um camelô, certamente. Para mim, esses vendedores de rua fazem parte do visual de cidades grandes. Combinam com os ruídos que vêm de todos os lados, carros, auto-falantes, locutores de portas de lojas. Praça sem camelôs é praça triste, sem vida. E atraem passantes, choferes de táxi aguardando a próxima corrida, aposentados que se reúnem na praça e gente que sai de casa para curtir o dia de sol.

Camelôs nascem com o dom da palavra fácil, são tagarelas, não podem deixar de falar porque as pessoas irão embora, deixando-os a falar aos bancos e aos pardais da praça. Por isso se costuma dizer: Fulano fala mais do que o homem da cobra. Mas não há apenas o homem da cobra, há toda uma diversidade de “showmens” populares. Eles sabem criar um clima. Depois de envolver os passantes com sua conversa ininterrupta e divertida, deixam em suspenso o ato principal, o chamariz, seja passar por dentro de um arco de fogo ou meter a mão na boca da cobra. É hora do comercial, ou seja, da venda de unguentos, pomadas e afins. É preciso pagar a permanência no hotel.

Era hora de almoço. Eu pretendia ir num desses restaurantes populares, de comida caseira, outro signo de boas cidades. Adiei o almoço para dar uma olhada. Desta vez era um mágico, o único mágico de praça do país, conforme suas palavras. Me posicionei um pouco atrás do grupo a fim de observar as pessoas. Gosto de estudar suas reações.

As piadas e chistes do cara, provavelmente repetidos em todas as cidades visitadas, eram mais interessantes do que suas mágicas, essas do repertório de qualquer mágico iniciante. Mesmo assim, impressionavam as pessoas. Procurei visualizar bem suas mãos, quando fazia desaparecer um lenço entre elas. Não consegui descobrir o truque.

Ao meu lado, um senhor humilde ria desbragadamente por entre meia dúzia de dentes. Crianças, interessadas no espetáculo, se postavam bem na frente do círculo de pessoas. O fulano parecia um Renato Aragão dos pobres, procurando atingir todos os ouvidos com as cordas vocais já um tanto cansadas.

Veio o indefectível truque do relógio quebrado em pedacinhos dentro de um pano preto. O jovem que emprestara o relógio sorri sem jeito. E agora? A plateia se diverte. Veio a promessa de tirar um coelho de dentro de outra sacola. Tudo ficando naturalmente para o final da sessão. Hora de vender as poções milagrosas.

Não esperei o final. A fome estava apertando.

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