Marcos Cardoso

A sociedade da Grande Florianópolis, os eventos culturais e as tradições da região analisadas pelo experiente jornalista Marcos Cardoso.

Entrevista: Bárbara Erig

Atualizado

Foto: Ana Corrêa/Divulgação/ND

Jornalista formada pelo Unisul Pedra Branca, ela aproveitou a desenvoltura como modelo e representante de Santa Catarina em concursos de beleza (chegou a segunda colocada no Miss Brasil 1998) para atuar na TV, onde fez comerciais e apresentou programas. Há 20 anos, meio por acaso, começou a trabalhar no ramo de eventos, coordenando festas e encontros de todos os tipos, em paralelo à atividade de locutora e mestre de cerimônias. Só de casamentos, já levou ao altar noivas dos cinco continentes.

De que forma começaste a frequentar grandes eventos e salões sociais?

Quando debutei, aos 15 anos, nos clubes de Florianópolis e nos bailes de prenda da Serra catarinense. Com isso, tive contato com a sociedade, os cursos de etiqueta e boas maneiras.

Fui convidada para ser rainha do Paula Ramos Esporte Clube, onde o colunista Moacir Benvenutti me conheceu e eu conheci o fotógrafo Giovani Lorenzen, para quem um dia perguntei como fazia para ser miss.

Ganhei o Miss Comércio do Brasil 1997 em São Paulo. Recebi o título de miss Florianópolis 1998 da então prefeita Angela Amin porque a de 1997 estava grávida.

A faixa de miss Santa Catarina 1998 ganhei no carro, indo para o Miss Brasil, pois nesse ano não teve concurso. Fui segunda colocada, com a diferença da primeira de apenas um ponto. E não fui para nenhum concurso internacional porque eu só tinha 16 anos, e os concursos internacionais pediam 18 anos.

Também participei da corte da Fenaostra (Festa Nacional da Ostra e da Cultura Açoriana) em dois anos consecutivos, entre outros diversos títulos, como representante dos clubes do Brasil, em Fortaleza, e musa do Figueirense.

Por que resolveu estudar jornalismo?

Escolhi a comunicação social depois de um ano rodando o Estado e o país com um dos melhores jornalistas que conheci na vida, Moacir Benvenutti. Percebi que o jornalismo vinha transformando o mundo. Entrei em 1999 e me formei em 2002, na Unisul (Universidade do Sul de Santa Catarina) Pedra Branca.

Como foi a tua experiência na comunicação?

Quando a faculdade acabou, trabalhei na TV da Igreja Universal do Reino de Deus. Depois apresentei programa de venda de automóveis, fiz várias propagandas, era jurada do Cesar Souza, fazia sorteio de consórcio de carros pela TV, muitas vezes ao vivo, e apresentei programetes para diversos clientes.

O jornalismo diário – tanto rádio, como jornal –, sem todo este mundo de informações que pesquisamos hoje na ponta dos dedos na internet, era muito diferente. Nós éramos os primeiros a dar a notícia. Tínhamos poucas ferramentas de pauta e de comunicação, o ao vivo fora do estúdio era muito caro, as fitas vinham por malote de ônibus ou por correio do Estado inteiro.

Aprendi muito com Saul Brandalise Júnior, Marcelo Mancha, Maria Paula e Leo Coelho naquela época, e com todos os câmeras e diretores da TV, da rádio e das propagandas.

Um belo dia fui demitida. Anunciei em guias, portais na internet que estavam começando, escrevi revistas e encartes para jornais em Florianópolis e Balneário Camboriú.

Brinco que sou organizadora de eventos por paixão, jornalista por profissão e comunicadora por missão de vida!

Em 1999, no seu desfile de despedida como miss SC – Foto: Divulgação/ND

Como começou a trabalhar com eventos?

Os eventos vieram naturalmente. Sempre gostei de trabalhar. Meu primeiro “emprego” foi num salão de beleza, aos 12 anos. Eu atendia telefone, marcava horários, abria o salão, lavava os cabelos, preparava a tinta, o café e mantinha tudo limpinho. Isso nas férias escolares, e já amava o contato com o público e como as pessoas se arrumavam para ir para os eventos.

Comecei como modelo de agência (a Pentaprisma, do Beto Abreu, e com os fotógrafos Ike Bottega e Lio Simas). Naquele tempo, as modelos eram contratadas para feiras e congressos. Trabalhei nos primeiros eventos do Centrosul, inaugurado em 1998, como também no Costão do Santinho.

Em todas as feiras/congressos, sempre anotava tudo: o nome das empresas de São Paulo que montavam os estandes, os fornecedores que tinham trabalhos diferentes e guardava (ainda guardo) os cartões de visita. Fazem parte da minha coleção.

Paguei a faculdade com estes trabalhos e, em alguns meses do ano, eu ganhava mais que meus pais. Sempre paguei as minhas contas com os eventos e propagandas.

E na organização de festas?

Num dos ensaios de fotos para uma revista, descobri que eles estavam sem jornalista, e assinei a edição posterior. Ia nos casamentos para fazer a cobertura fotográfica com uma máquina Mavica, que usava disquete para gravar as fotos. Eram 50 disquetes no bolso para meia dúzia de fotos.

Num desses casamentos, na praia Brava, faltou luz. O cerimonialista era o saudoso mestre Vivi Corrêa. Larguei a câmera e fui ajudá-lo. Comecei a trabalhar com ele no final de semana seguinte e não parei mais. Ele faleceu em 2005, e eu já coordenava a segunda equipe dele.

Aprendi tudo o que sei, desenhei o meu estilo de trabalhar e fui moldada por ele como não poderia ser por qualquer curso que fizesse. Aprendi na lida, na prática.

Todos os anos, no aniversário da sua morte, vou no cemitério Jardim da Paz para prestar meus agradecimentos, rir, chorar – e não à toa: até hoje ele me sopra algumas coisas que devo fazer quando me vejo sem saída nos eventos. Não poderia ter professor melhor.

O mais curioso foi que no dia da sua morte (12 de outubro de 2005), eu estava no Hospital de Caridade e recebi a notícia que tinha sido selecionada para ser editora e apresentadora do telejornal estadual de uma TV e da rádio do grupo. Parece que ele quis me deixar encaminhada.

Usei o meu hobby na época para pagar a faculdade e o hobby me deu a profissão mais linda que eu poderia ter.

Fizeste cursos para se aprimorar como cerimonialista?

O meu melhor curso foi na prática, com o Vivi Corrêa. Foram anos ao seu lado, aprendendo no “ao vivo” como fazer e como não fazer.

Mas, de lá para cá, aproveitei todas as oportunidades de cursos na área, tanto os de mestre de cerimônias e protocolos, quanto os de organização de eventos, que vinham para a cidade. Devo ter feito praticamente todos.

Sempre fui muito curiosa e li muito sobre o assunto. Desde as revistas do Ronaldo Esper até livros de etiqueta que caçava nos sebos. Ainda existe muito pouca literatura boa sobre isso.

Atuando como mestre de cerimônia no último Carnaval – Foto: David Silva/Divulgação/ND

Cerimonialista (organizador, produtor) é diferente de mestre de cerimônias (apresentador). Como começou a usar a voz no trabalho e que atividades tens feito com ela?

Grande parte das pessoas confunde. O cerimonialista organiza tanto eventos sociais como protocolares e o mestre de cerimônias é o que conduz pela voz no microfone – coincidentemente, eu tenho as duas habilidades. Lembro que, na faculdade, fiz vários trabalhos sobre o tema MC (mestre de cerimônias), e foi meio natural ir para o palco.

Não tenho medo de falar em público. Meu tio foi dono de loja de discos em Florianópolis, e sempre tive muitos aparelhos de som e microfone em casa. Quando minha avó adoeceu, na minha infância, meus pais eram separados e trabalhavam muito. Eu acabava brincando de apresentar, sozinha em casa. Tinha plateia, convidados e o dia ia passando, e eu “treinando” para o que hoje seria a minha profissão.

O primeiro evento que fiz como MC foi a inauguração de um shopping no Estreito e o desfile de uma empresa de modelos que o Moacir Benvenutti tinha. Mas acredito que o que tenha me jogado para este o mundo foi a apresentação do Miss Santa Catarina, ao vivo, pela TV, onde eu juntava a miss, a jornalista e a mestre de cerimônias numa só.

Hoje em dia, o trabalho de mestre de cerimônias é praticamente 70% da minha agenda. Acredito que, depois de 20 anos trabalhando com casamentos, eu tenha adquirido muita habilidade como cerimonialista e não tenho mais desafios como produtora de casamento.

Já no palco, como MC, a cada evento percebo que posso ser diferente em diversos momentos, interagindo com os palestrantes, participantes. Já dei palestras, e percebo a cada dia que a pivotagem vai acontecer naturalmente para voltar a ser a comunicadora que está mais dentro de mim.

Que tipos de eventos coordenas e, normalmente, qual era a média anual?

Aniversários, bodas, casamentos, festas corporativas, formaturas, coquetéis, lançamentos de lojas.

Temos 52 finais de semana no ano. Existiam poucos sábados livres na agenda. Quando não era um evento como casamento, tinha como mestre de cerimônias ou feiras, congressos, palestras e cursos, viagens de insights para novas ideias.

Tirando finais de semana com Carnaval, finados, Natal, Ano-Novo e alguns pontuais que ninguém casa, sobravam muito poucos sábados livres.

Como esta procura se distribui durante o ano na Capital?

Florianópolis é procurada por sua exuberante beleza. Nos meses de janeiro a março, os hotéis e beach clubs de frente para a praia (ou ocean view, como gosto de rebuscar para falar) não fazem tantos eventos sociais. Na alta temporada, geralmente, a agenda é bloqueada para os turistas e são poucas igrejas com ar condicionado. O trânsito também é caótico nesta época.

De abril a junho, é o ponto alto para realização de eventos de todos os tipos. Entre junho e agosto, não existe tanta procura de casamentos, pois é mais frio e os locais abertos se tornam inviáveis. Mas ainda tem bastante, acabam acontecendo as formaturas de meio de ano e os congressos e feiras como MC.

Entre setembro e novembro é a melhor fase do ano, culminando em dezembro o mês com mais eventos, segundo diversas pesquisas nacionais. Por quê? Décimo terceiro, férias coletivas e escolares e proximidade de datas especiais para rever a família.

Foto: Ana Corrêa/Divulgação/ND

O que mais dá trabalho ou gera dificuldade na execução de uma festa?

Administrar os detalhes, ser a mediadora entre o cliente e o fornecedor, estar sempre a postos para improvisar alguma situação que saiu da rota!

Saber costurar um vestido que abriu? Ter o contato de uma empresa de gelo que entregue 24 horas, caso termine na festa. Consertar um bolo que tombou no chão…

Pensando que estes eventos acontecem unicamente na vida, como um casamento, não pode existir erro, ou melhor, o cliente não pode ver o erro! Devemos eliminar ou achar saídas antes que eles percebam.

Quais são os eventos que mais necessitam de um cerimonialista?

Penso que todos, desde um simples aniversário a um casamento e bodas, assim como os corporativos.

Aí eu faço uma pergunta: na sua última festa de aniversário com gente, quem ficou recebendo presentes? Indo no supermercado, colocando bebida para gelar, vendo se não falta nada, escolhendo a música, tirando foto, abrindo a porta e quando viu a festa passou?

Você não conseguiu aproveitar com ninguém e ainda tem que guardar tudo de volta em casa. Independentemente do tamanho do evento, ter uma consultoria para te poupar tempo, escolhendo o melhor fornecedor, prevendo o que pode acontecer e deixando você livre para aproveitar a festa, juro que vale cada centavo.

Assim como nos corporativos, em que o empresário tem de ir a campo para fazer o networking com o cliente, e deixar a organização do evento com quem entende.

Certamente, viveste várias histórias engraçadas, curiosas ou até preocupantes no trabalho. Podes citar alguma?

Sim! Tenho diversas histórias, emocionantes, tristes, trágicas e engraçadas. Já teve noivo que foi dormir sem aguentar para ver a noiva jogar o buquê. Pai de noiva que teve um infarto e foi para hospital logo após a cerimônia religiosa.

Eu já levei sete pontos na mão e voltei para trabalhar no casamento. Tirei o vestido da noiva na suíte presidencial e o noivo não estava, tinha ido para um after com os amigos.

Fornecedor roubado e eu consegui recuperar o equipamento durante a festa. Tive que consertar um bolo naked que caiu literalmente no chão e ficou mais bonito que quando chegou.

Já teve mãe de noivo que me fez chorar de raiva, assim como houve casais que na hora da valsa me chamaram para dançar com eles em forma de gratidão.

Tive que acabar com a festinha de casais que foram fazer sexo no banheiro. Noiva que “tomou santo” na cerimônia. Já teve convidado armado que ameaçou a festa.

Foto: DM Fotografias/Divulgação/ND

O setor de festas e eventos se organizou, se profissionalizou e cresceu muito nas últimas décadas. Como avalias a qualidade dos fornecedores catarinenses?

No começo da minha carreira, meu banco de dados eram cartões de visitas e telefone fixo. Aos poucos, entraram os sites, as redes sociais. Hoje em dia, os clientes conseguem achar os fornecedores sem a nossa ajuda.

Mas aí é que está: temos muitos fornecedores, mas apenas uma parcela deles preparada para atender com excelência em todas as áreas, de músicos a alimentação. É onde entra a experiência de quem está há tempo no mercado e conhece o fornecedor a fundo, sabe como ele presta o serviço, quanto tempo demora, se fala outra língua para atender a demanda dos destinations weddings (noivos que vêm de fora para casar no Brasil).

Sempre amei a tecnologia, e mesmo antes disso tudo já usava o que chamamos de home office/reuniões on-line para atender a noiva que morava no mesmo bairro e outras que estavam no fuso horário da Austrália, 12 horas de diferença mais ou menos. Mas muitos fornecedores não queriam isso, ainda queriam o antigo formato das reuniões presenciais nos seus lindos escritórios para mostrar todo um portifólio pessoalmente.

Quando fomos bombardeados com a quarentena, a primeira coisa que eu pensei foi nos fornecedores e quais deles aguentariam passar por esta crise, porque, na volta “ao normal”, quem ainda estaria no mercado? De nada adianta ser o melhor fornecedor, se ele não se adapta ao mercado, ao cliente e à proposta do evento.

Vocês têm conversado sobre isto?

No início do isolamento, montei diversos grupos de WhatsApp, por áreas (doce, bolo, guloseimas em um, locais e bufês em outro, etc.), e quis ouvir de todos eles o que poderíamos fazer juntos para passar por isso. Ver concorrentes diretos somando ideia foi bárbaro!

Quero continuar este trabalho, ajudando a desenvolver estes fornecedores para cada vez mais se adaptarem ao novo mundo que virá. E este é um dos meus projetos que estão no forno nesta quarentena.

Sem eles, como organizadora, não sou ninguém. Não cozinho, não faço docinhos, nem bolo. Não sou DJ, não toco instrumentos, nem costuro. Preciso deles, ativos, com diferenciais, pois cada cliente tem um perfil, para poder contar com este time.

A área de eventos foi um das primeiras e mais fatalmente atingidas com a pandemia do novo coronavírus. Qual a dimensão deste impacto?

Em dados da Abrape (Associação Brasileira de Promotores de Eventos) e do Sebrae, já foram 590 mil eventos remarcados ou cancelados, atingindo 1,8 milhão de empregos diretos, cinco milhões de empregos informais em 42 cadeias econômicas (transporte, hospedagem, alimentação, beleza, vestuário, etc.). Fomos os primeiros a parar e, provavelmente, os últimos a voltar!

Trabalhando de máscara, em respeito às recomendações de segurança sanitária – Foto: André Vanzin/Divulgação/ND

Como os profissionais que fazem parte desta cadeia estão se reinventando?

Os bufês, para manterem os funcionários, começaram a lançar o delivery e take away com o que de melhor eles ofertavam nos casamentos. Tem desde congelados a pratos assinados por chefs de cozinha.

As doceiras tiveram um crescente na Páscoa. Nunca pensaram em vender seus centos de doces por aplicativos de entrega, e isto está desafogando mais.

Músicos estão fazendo lives para doações a quem está na cadeia de fornecedores e literalmente parado, como montadores, carregadores, técnicos de som, luz, vídeo, e também web couverts, onde o espectador paga como se estivesse no barzinho para ver o músico tocar.

Profissionais estão fazendo serenatas em frente às casas em aniversários e demais comemorações ou serenatas exclusivas para uma família ou pessoa pela internet ou apenas tocam para animar seu prédio, sua vizinhança e proporcionar bem-estar.

Teve também a união de empresas de painel de LED, som e gerador de energia que atualizaram o antigo modelo de carro de som para poder levar às ruas em formato tecnológico a propaganda que não está mais sendo vista nos outdoors (parados) e nos pontos de venda (fechados).

Tudo ficou mais personalizado e cuidadoso, como minifestas de aniversário para quem está na quarentena em casa, congressos que aconteceriam estão mandando o coffee break para a casa dos participantes, entre outras invenções e adaptações.

Observando as normas de isolamento social e a flexibilização, alguns eventos passaram ser possíveis, porém, adaptados. Como estão ocorrendo?

Uma das saídas no ramos dos casamentos foi desengavetar o elopement wedding (a tradução é “fuga para casar”). Geralmente, os casais em lua de mel aproveitavam lugares paradisíacos para fazer isso, em Fernando de Noronha, Dubai, Havaí, ou em viagens de aniversário de casamento, fazendo apenas os dois, com uma celebração local e cultural, a renovação dos votos, com direto a jantar romântico e sessão de fotos.

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