Marcos Cardoso

A sociedade da Grande Florianópolis, os eventos culturais e as tradições da região analisadas pelo experiente jornalista Marcos Cardoso.

Entrevista: Bruna Kadletz

Atualizado

Foto: Alan Gilsenan/Divulgação/ND

Nascida em Florianópolis e hoje morando na Guarda do Embaú, em Palhoça, Bruna Kadletz formou-se em odontologia, atividade que abandonou ao se despertar para a violência e a injustiça estrutural no país. A inquietude acabou levando-a para o voluntariado internacional. Sua participação em ações humanitárias junto a imigrantes e refugiados de diversos países culminaram na criação da entidade Círculos de Hospitalidade, que apoia estes grupos em situação de vulnerabilidade.

Como o voluntariado despertou em tua vida?

Minha mãe foi quem plantou as sementes do voluntariado em mim, quando eu ainda era criança. Ela se voluntariava no Centro Espírita Seara dos Pobres, em Capoeiras. Trabalhava como médica ginecologista e atendia mulheres do entorno do Centro. Aos sábados pela manhã, ao invés de me levar para o shopping ou parque, ela me levava para o Centro, onde eu ajudava a servir pão de trigo com margarina para as crianças.

Assim, eu fui internalizando a necessidade de olhar e servir o próximo, de me doar. Ao longo da minha vida, o voluntariado me ajudou a construir a visão de mundo que carrego hoje, de que somos seres interconectados e precisamos unir forças para desconstruir as estruturas de poder que ainda geram injustiças sociais.

Em 2008, foste morar no interior maranhense, onde iniciou-se um processo interno de mudança. De que forma aquela realidade mexeu com a tua visão sobre as coisas?

Eu fui morar em Imperatriz, no Maranhão, para viver um amor. Na época, com 25 anos, me apaixonei por um maranhense. Larguei minha vida e emprego em Florianópolis e me mudei para lá. Foi na cidade do interior que vivenciei uma outra realidade e despertei para a violência e injustiça estrutural que forma a base do nosso país.

O interior do Maranhão é muito desigual, pobreza lá significa miséria, destituição pura, e eu vivia entre dois extremos. Na minha vida pessoal, desfrutava de todo o conforto e privilégios que qualquer um poderia desejar. Na vida profissional, eu atendia crianças e famílias muito pobres. Falar de higiene bucal para quem não tinha comida na barriga perdeu o sentido.

Essa situação gerou uma inquietude interna muito grande, questionamentos começaram a emergir. E a pergunta “qual o propósito da minha vida, será que existe valor além do acúmulo de bens, títulos… ?” me perseguia. Eu costumo dizer que fui para viver um amor romântico, mas a vida me abriu para uma realidade muito maior, a do amor pela humanidade, por aqueles que são invisibilizados pelo sistema.

Deixaste a carreira de dentista de lado e te mudaste para a Austrália em 2009. Qual era o propósito da mudança?

Os questionamentos que emergiram no Maranhão me levaram a uma crise interna e um desejo de explorar outras fronteiras, de ver o mundo e viver outras experiências e culturas. Eu fui para a Austrália com o intuito de ficar seis meses, para melhorar meu inglês e repensar a vida. Mas eu morei no país por dois anos e meio. Lá, eu aprendi mais sobre mim, pude explorar outras qualidades e habilidades. E assim fui ressignificando minha identidade e propósito. Até que encontrei meu caminho.

Bruna Kadletz com jovens nepaleses, após exibição do documentário “Minha Terra Mora em Mim”, homônimo ao seu livro, em fevereiro de 2020, em Catmandu – Foto: Divulgação/ND

Conheceste pessoas de diferentes nacionalidades, culturas e condições sociais, várias refugiadas. O que mais te impressionou no contato com elas?

Existe uma narrativa global que trata e retrata pessoas refugiadas e imigrantes como problemas e ameaças à segurança nacional, ordem social e herança cultural. Essa narrativa informa políticas públicas, causa o fortalecimento de fronteiras e promove respostas hostis de Estados.

Ao viajar e conhecer pessoas refugiadas e imigrantes, seja em campos de refugiados, em fronteiras internacionais ou já integradas nas sociedades de acolhida, eu descobri pessoas com histórias inspiradoras, de muita coragem e resiliência. Pessoas capacitadas, com o potencial de contribuir para o desenvolvimento econômico, social e cultural destes países.

Refugiados são pessoas, com personalidades, bagagem própria. Impressiona-me como crises humanitárias são agravadas por respostas hostis e todo o desperdício de potencial humano que fica latente quando fechamos fronteiras. Por isso, eu acredito que a real fronteira que devemos atravessar é aquela que desumaniza o outro e nos separa da nossa humanidade compartilhada.

Foto: Divulgação/ND

O deslocamento forçado ocorre em diferentes regiões do planeta e tem diversas causas. Por que a Síria, em especial, te chamou a atenção?

Meu envolvimento com a causa síria tem três razões principais. Um senso de responsabilidade humanitária e interesse em questões geopolíticas complexas que unem interesses econômicos; interferência de poderes ocidentais, regimes ditatoriais, revoluções populares; e mudança climática, já que uma seca intensa é identificada como um dos gatilhos do conflito.

A crise síria desencadeou a pior crise humanitária dos nossos tempos, e marcou um novo capítulo na história humana, do deslocamento forçado em massa. Diante desta realidade, senti um chamado de responder, de me envolver e colaborar de alguma forma.

Em segundo, tenho motivos pessoais. Como muitas pessoas, minhas raízes ancestrais vêm também do Oriente Médio. Um dos meus bisavôs nasceu no que era a Síria no início do século 20 e era jovem quando migrou para o Brasil. Por último, a cultura oriental me fascina. A Síria está situada no berço da humanidade e a região tem um papel importantíssimo no desenvolvimento humano. A destruição do país, da sua rica cultura e povo é a destruição da humanidade.

Como foi o teu ingresso para atuar na ajuda internacional?

Quando comecei a viajar com mais frequência para o exterior e a me interessar por questões globais, desde a crise dos refugiados ao colapso climático e custo humano da destruição de ecossistemas, eu passei a conhecer grupos e organizações com interesses semelhantes. Assim, portas foram se abrindo. Um amigo ou amiga apresenta o meu trabalho para uma organização, ou eu mesma entro em contato e oportunidades surgem.

Em 2016, por exemplo, eu viajei quatro meses pela trilha do refúgio, passando por diversas fronteiras e países, e conheci muitas pessoas, que me levaram a outras experiências. A internet e redes sociais nos conectam com o mundo e ampliam nossas possibilidades. A escrita e participação em eventos internacionais, ministrando palestras e oficinas, foram outra porta de entrada.

Que experiências o mestrado em Sociologia e Mudança Global, realizado em 2014, te proporcionou?

A experiência do mestrado em Sociologia e Mudança Global pela Universidade de Edimburgo foi transformadora, tanto pelo conhecimento teórico como pela vivência prática da pesquisa de campo em Johanesburgo, África do Sul. Eu cheguei em Johanesburgo durante uma onda de ataques xenofóbicos para trabalhar em uma organização que atuava em transformação de conflito entre sociedades de acolhida e populações refugiadas e imigrantes.

Logo aprendi que diante da escassez, corrupção e de crises econômicas, líderes políticos manipulam facilmente o povo, culpabilizando e vilificando a presença de populações refugiadas e imigrantes – que se tornam “o outro” –, e legitimando assim atos hostis e de violência.

Aprendi também que uma das soluções e formas de construção de laços de paz reside em fortalecer os vínculos entre quem acolhe e quem busca refúgio e novos começos. Identificar necessidades em comum e buscar por soluções que contemplem ambas populações, local e migrante, encorajando coesão social é uma estratégia para reduzir xenofobia e promover a beleza da pluralidade étnica e diversidade cultural.

Bruna Kadletz (centro) fala no Parlamento escocês, em Edimburgo, em fevereiro de 2017 – Foto: Alan Gilsenan/Divulgação/ND

A história mostra que o esforço pela paz e harmonia entre os povos, aos poucos, progredia. Agora, vemos a ascensão de grupos sectaristas, avessos ao sentimento de coletividade, legitimados pela população. O que aconteceu?

Nossa, nem sei por onde começar a responder esta pergunta! Creio que a resposta seja complexa e multidimensional, e há diversas formas de contemplar e refletir a respeito do cenário atual, que é assustadoramente obscuro. Vivemos um retrocesso muito grande, e determinados líderes políticos exploram esse cenário, exacerbando polarizações e conflitos.

Ao propagarem o discurso de poluição, que promove a narrativa “do outro” como um agente contaminador de sociedades, cuja presença polui ruas e espaços públicos, eles incitam medo, ódio e violência. O resultado é catastrófico e potencialmente sangrento. Muitos são os grupos afetados por esse discurso, como indígenas, mulheres, pessoas em situação de rua, negros, refugiados e imigrantes.

Eu creio que houve um distanciamento muito grande da nossa real natureza humana e a normalização da estética do mal. Enquanto hierarquizarmos a vida humana, agregando mais ou menos valor a determinados grupos, continuaremos a ver os desdobramentos da polarização social.

O Círculos de Hospitalidade, projeto que instituíste em 2015, foi criado para atender apenas refugiados que moram em Florianópolis?

No início, não tinha pretensão de criar um projeto e fundar uma organização da sociedade civil. Só queria participar de movimentos que garantissem os direitos e a dignidade de refugiados e imigrantes em nossa cidade. O projeto cresceu de forma orgânica e, em paralelo, continuei com ações fora do Brasil.

Em 2017, a organização foi oficializada, e a nossa demanda desde então só cresce. Nosso enfoque era, e continua sendo, no protagonismo das mulheres migrantes, na integração humanizada e na construção de políticas públicas, e essas bandeiras, com certeza, desejo que extrapolem toda e quaisquer fronteiras.

É possível que ele seja expandido em forma de rede para dentro do Estado ou país ou mesmo internacionalmente?

Antes de ser uma organização, nós nos percebemos como um movimento pela integração humanizada de refugiados e imigrantes. Neste sentido, almejamos, sim, fortalecer a rede de apoio e, quem sabe um dia, ter um alcance nacional. Muito embora nós participemos de eventos pontuais em outros Estados e fora do país e oferecemos capacitações online sem restrições geográficas, não temos, do ponto de vista operacional e financeiro, a estrutura necessária para expandir os projetos e iniciativas da organização Círculos de Hospitalidade.

Em Johanesburgo, África do Sul – Foto: Divulgação/ND

Quais são as ações promovidas pelo projeto?

A organização promove diversas iniciativas sociais, culturais e educacionais, que visam gerar oportunidades de renda, aprendizados e conexões. Neste momento, o nosso projeto de maior abrangência é o Projeto Integra, realizado no marco do projeto “Oportunidades – Integração no Brasil”, implementado pela OIM (Organização Internacional para as Migrações) e realizado com o financiamento da Usaid (Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional).

Este projeto tem o objetivo de fortalecer e promover a integração econômica e social de refugiados e imigrantes em Santa Catarina. Nossa atuação é em quatro eixos centrais: integração e proteção, empreendedorismo, parcerias com o setor privado e conscientização sobre a temática de refúgio.

Em Santa Catarina, quantos são os refugiados/imigrantes e de onde eles vêm?

No Brasil, os fluxos migratórios voluntários e o número de pessoas solicitantes de refúgio têm crescido juntamente com o restante do globo. Entre 2010 e 2018, foram registrados no país 774,2 mil imigrantes, vindos principalmente do Haiti, Venezuela e Colômbia.

O CadÚnico (Cadastro Único para Programas Sociais) aponta para a existência de 5.762 nacionais de outros países cadastrados em Santa Catarina, embora saiba-se que esse número está subestimado, uma vez que nem todos os migrantes e refugiados têm acesso a essa ferramenta.

Ainda de acordo o CadÚnico, Florianópolis é a cidade que mais recebe imigrantes, seguida por Joinville, Itajaí e Chapecó, sendo haitiana e venezuelana as nacionalidades mais expressivas.

Com jovens refugiados em Turim, Itália – Foto: Divulgação/ND

De que maneiras as pessoas podem colaborar com o Círculos de Hospitalidade?

Há diversas formas de colaborar com o nosso trabalho. As pessoas podem começar nos seguindo nas redes sociais (@circulosdehospitalidade) e compartilhando nosso conteúdo.

Para empresas que desejem estabelecer parcerias e contratar refugiados e imigrantes, nós encaminhamos currículos, podemos mediar entrevistas e ofertar oficinas para desmistificar o processo de contratação.

Para instituições de ensino, nós oferecemos palestras e participamos de aulas. Inclusive, durante a quarentena, já participamos de aulas em escolas e conversamos com alunos do ensino médio sobre fluxos migratórios atuais, refúgio e nosso trabalho na cidade.

Para quem quiser apoiar financeiramente ou com outros recursos, aceitamos doações em nossa conta bancária, alimentos e mobília de escritório.

Para aqueles que queiram doar seu tempo, aceitamos voluntários, apesar das nossas vagas já estarem todas preenchidas nesse momento.

Diante da pandemia, como vocês estão se movimentando num momento em que as pessoas estão confinadas e os eventos cancelados?

Diante da pandemia do coronavírus e das medidas de distanciamento social, nós desenvolvemos duas respostas principais. Adaptamos algumas iniciativas presenciais para plataformas digitais, como o atendimento de refugiados e imigrantes e orientações de acesso a direitos, a oferta de aulas de português, curso de empreendedorismo, entre outros.

No momento, estamos com sete turmas de português, um programa de empreendedorismo em andamento e lançamos um minicurso sobre como adaptar aulas presenciais para plataformas digitais. Em paralelo, implementamos uma resposta de emergência, que inclui doação de cestas básicas, kits de higiene pessoal e produtos de limpeza.

Somente em abril, cadastramos mais de 350 famílias em situação de vulnerabilidade social e, com o auxílio de parceiros e voluntários, já doamos mais de 425 cestas básicas para mais de 1.200 pessoas de 12 nacionalidades diferentes.

Lançaste o livro “Minha Terra Mora em Mim”, em 2019, sobre relatos de pessoas que tiveram de sair de seus países. Sairá mais um volume?

Sim, estou trabalhando num segundo livro – “Desbravando Fronteiras: A Coragem de Refugiados”, em parceria com a Incentive, por meio da Lei de Incentivo à Cultura. Neste livro, relato histórias de coragem e resiliência, trançando contextos históricos e atuais, e explorando as fronteiras visíveis e invisíveis que refugiados e imigrantes desbravam a fim de recomeçarem suas vidas em terras estranhas.

Bruna Kadletz no lançamento de seu primeiro livro “Minha Terra Mora em Mim” – Foto:  Lauro Maeda/Divulgação/ND

Obtiveste aprovação de um projeto para receber recursos do exterior. Do que se trata?

O projeto Humanidade em Ação, financiado pela instituição americana Tides Foundation e implementado pelo Círculos, visa apoiar algumas famílias atingidas economicamente pela pandemia do coronavírus por meio de auxílio financeiro para o pagamento do aluguel e outras despesas básicas. Esse auxílio tem a duração de três meses e as famílias contempladas podem respirar mais aliviadas neste período.

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