Marcos Cardoso

A sociedade da Grande Florianópolis, os eventos culturais e as tradições da região analisadas pelo experiente jornalista Marcos Cardoso.

Entrevista: Fábio Botelho

Atualizado

Foto: Rony Costa/Divulgação/ND

Quando nasceu, Fábio Botelho ganhou de presente de Armandinho Gonzaga (um dos fundadores da Copa Lord e grande amigo de seu pai), um tamborim ainda na maternidade. Cresceu frequentando a quadra da escola de samba até conhecer, aos 23 anos, a Consulado, onde integrou a ala dos tamborins, a convite de Mestre Paulão, e ocupou diversas funções, como diretor de bateria, de patrimônio, de Carnaval e conselheiro.

À frente da presidência da Liesf (Liga das Escolas de Samba de Florianópolis) desde 2017, ele avalia o concurso na passarela e o desempenho da entidade que congrega 16 agremiações, das quais 10 desfilarão neste Carnaval, seu último antes de passar o cargo em abril.

Na tua posse da presidência da Liesf, pedias união entre as filiadas e comprometimento dos setores público e privado. Como era o cenário na época?

Assumi a Liesf a pedido dos presidentes da época. Ninguém queria assumir o cargo devido o momento do país e o sentimento da sociedade contra o Carnaval, que começava a tomar força. Rio e São Paulo sofrendo fortes ameaças e aqui o poder público virando as costas para a nossa cultura. Além da dívida na entidade, que dificultava, e muito, um planejamento mais consistente.

Aceitei o desafio por entender que o Carnaval faz parte de mim e que eu deveria dar a minha contribuição na união e no melhor entendimento da sociedade para com as nossas escolas.

Nossas entidades geram emprego, renda e todas têm seus projetos sociais. Levar a culpa pela falta de recursos na saúde e educação é muita covardia com nossa cultura, pois o que tira os recursos destes setores é a corrupção. A primeira grande aliada, e que virou grande parceira, foi a Prefeitura, mais especificamente na pessoa do prefeito Gean Loureiro.

Em 2012, o concurso passou a ser dividido entre os grupos especial e de acesso. Em 2016, foi criado também o grupo de acesso A. No ano seguinte, o modelo foi de novo reformulado. Por que estas mudanças?

Estas questões nos deram muita dor de cabeça, foram o primeiro problema que enfrentei. O nosso Carnaval não comporta 16 escolas, e a decisão partiu única e exclusivamente por ordem financeira, pois os recursos são cada vez mais escassos e a infraestrutura para três dias representaria um custo maior, de aproximadamente R$ 1,5 milhão, o que inviabilizou em 2018 os grupos de acesso e de acesso A.

Em 2019, conseguimos colocar o acesso na avenida no mesmo dia do especial. Sabemos que não é o ideal, mas ao menos demos a condição de termos dois grupos, e praticamente definimos o término do acesso A.

Agora, em 2020, com a iniciativa privada e os recursos para infraestrutura bem definidos, acordamos em assembleia um modelo com sete escolas no especial e três no acesso, subindo uma nesta competição. Em 2021, ficarão oito escolas no especial e duas no acesso, com sobe e desce a partir do Carnaval seguinte.

Há um entendimento a partir da Capital de que municípios vizinhos representados na passarela contribuam no financiamento do espetáculo. Qual a tua opinião?

Acho correto. Hoje, quem financia toda a infraestrutura é a empresa RK e a Prefeitura de Florianópolis. A participação dos outros municípios no custeio da competição de maneira proporcional tem o entendimento de todos presidentes das escolas como correta.

Como é gerido o Carnaval da passarela atualmente?

Desde quando assumi, entendo que a Liesf não tem de ser uma repassadora de recursos e nem executora de eventos. Não são os nossos objetivos. Por isto, o modelo de gestão inovador elaborado pela Prefeitura e Liesf, com a privatização da passarela, foi a solução para garantir as atividades. Este novo modelo nos permite, ainda em 2020, lançar o Carnaval de 2021 (somos a única capital a fazer isto).

Mais alguma cidade do Brasil aplica este modelo?

Hoje, não. Somos a única capital a terceirizar 100% das ações do Carnaval com a iniciativa privada. Somos referência nacional, e estamos sendo convidados por grandes centros a mostrar nossa experiência neste novo modelo de gestão. Em 2021, Florianópolis sediará o encontro da Fenasamba (Federação Nacional das Escolas de Samba), justamente por sairmos na frente.

A NDTV já transmitiu o desfile ao vivo diversas vezes e, novamente, será a emissora oficial. Como avalias esta parceria?

Eu estou muito feliz. A NDTV tem um jeito de entender e se envolver com o Carnaval que me encanta. O grupo inteiro entra no clima, o que facilita, e muito, a relação.

Sendo consulense, como manter a neutralidade na hora do desfile, que envolve tanta paixão?

Hoje sou Liesf, todas estão no meu coração. A neutralidade é fácil, pois agindo com honestidade, imparcialidade e, acima de tudo, com o entendimento de que vença a melhor, eu nem me preocupo com quem ganha. Fico feliz por todas desfilarem, o que já é uma grande vitória.

Em abril deste ano, após três Carnavais, termina a tua gestão na Liesf. Quais foram os avanços alcançados?

Tivemos inúmeros avanços, mas são os principais: o novo modelo de gestão com a iniciativa privada, o retorno do grande relacionamento com a Prefeitura, o melhor entendimento dos setores públicos da nossa posição dentro da sociedade, o retorno do grupo de acesso aos desfiles e o início do reequilíbrio financeiro das escolas.

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