Marcos Cardoso

A sociedade da Grande Florianópolis, os eventos culturais e as tradições da região analisadas pelo experiente jornalista Marcos Cardoso.

Entrevista: Lucas Heymanns

Atualizado

Foto: Fábio Audi/Divulgação/ND

Nascido em São Paulo, Lucas Heymanns veio para a Capital antes de completar um ano de idade. Cresceu e morou na Lagoa da Conceição até se mudar, em 2018, para a cidade natal atrás de crescimento profissional, mas volta e meia está na Ilha, onde cursou graduação e pós-graduação em teatro na Udesc (Universidade do Estado de Santa Catarina), para rever a mãe, Cláudia, amigos e desenvolver trabalhos.

Aos 28 anos, ele agora ganha projeção nacional como Gordo, um traficante na série “Submersos”, rodada em Florianópolis e Córdoba (Argentina), que estreou no dia 2 de março e é exibida todas as segundas-feiras, às 20h30, no Paramount Channel. Esta é a sua primeira atividade na TV, para o grande público. Antes, no meio audiovisual, havia participado apenas de alguns curtas independentes e universitários.

Na produção, que tem várias locações conhecidas de Florianópolis, como a ponte Hercílio Luz e o Ribeirão da Ilha, Lucas divide a tela com outros atores de Santa Catarina: Édio Nunes, Clei Grott, Renato Turnes, Vanessa Sandre, Andrea Buzato, Margarida Baird, Ana Baird, Wanderleia Will, Gringo Starr, Luiz Henrique Cudo, Raquel Stupp, Robson Bertolla, Vitor Hugo, Thuanny Paes, Marcio Fernandes, Iuri Milano, Regius Brandão, Chico Caprario, Milena Moraes, Manuela Campagna, Eliane Carpes, Juli Nesi, Alvaro Guarnieri, Martin Baibich, Adriano de Brito e Evelyn Derkian.

Em que momento percebeste o interesse pelo teatro e de que forma foste estimulado?

O teatro sempre esteve na família através de minha avó, Elizabeth Henreid, que foi atriz no início do icônico TBC (Teatro Brasileiro de Comédia), em São Paulo, e trabalhou também em novelas na Tupi, SBT e Globo. Foi uma mulher incrível e que inspira a família inteira até hoje.

Quando tinha uns seis anos, comecei a assistir às aulas de teatro que minha mãe fazia. Aos poucos, fui me intrometendo no grupo de adultos e gostando cada vez mais, até que passei a participar de um grupo infantil chamado Conta Contos, coordenado pelo Polo Cabrera e Rosana Almeida, no Porto da Lagoa. Era uma experiência mágica na casa deles, cheia de cenários e instrumentos, onde se reuniam muitos artistas e alunos para ensaios e tocatas.

Foto: Fábio Audi/Divulgação/ND

Onde eram as aulas e oficinas de teatro quando criança? 

Com este grupo, Conta Contos, participei de várias peças infantis que apresentávamos por Florianópolis. Participei de algumas oficinas no Casarão da Lagoa, também quando pequeno, e, mais tarde, de aulas de teatro no Colégio de Aplicação, de onde tenho ótimas lembranças.

E a formação acadêmica foi feita onde?

Fiz minha graduação em licenciatura e bacharelado em teatro na Udesc e, logo quando terminei, ingressei no mestrado pela mesma instituição. Meu mestrado foi uma pesquisa sobre técnicas de atuação a partir da ideia do estranho na arte, defendendo minha dissertação em outubro de 2018, logo antes de me mudar pra São Paulo.

A Udesc foi minha segunda casa por quase 10 anos, e é hoje uma das instituições mais respeitadas na nossa área, com gente vindo de todas as partes estudar aqui. Muitos profissionais incríveis trabalham ou vieram de lá, e foi uma grande escola pra mim.

O professor André Carreira foi teu orientador na graduação e na pós-graduação, além de coordenar um grupo de pesquisa do qual participaste. O que te atraiu na linha de trabalho dele?

Comecei a trabalhar com o André Carreira logo no início da faculdade como bolsista de pesquisa e, mais tarde, passei a integrar o Grupo (E)xperiência Subterrânea, onde trabalhamos juntos por vários anos. Foi com este grupo que montamos diversas peças e viajamos o Brasil inteiro apresentando e dando oficinas. Em 2018, circulamos também por Santa Catarina com a peça “Mierda Bonita”, e recém-lançamos um livro através do Prêmio Elisabete Anderle.

Sempre me interessei pela pesquisa que o André desenvolve sobre atuação, explorando situações de risco e maneiras de criar atrito entre atuação e texto em seus trabalhos. O ÀHQIS (Núcleo de Estudos sobre Processos de Criação Artística), que é o grupo de pesquisa coordenado por ele na Udesc e do qual participei durante vários anos, foi um laboratório incrível de prática em atuação, que formou as bases da maneira como trabalho.

Fazíamos encontro semanais de investigações que misturavam muito trabalho corporal, leituras e escritas que me ajudaram a desenvolver tanto o lado técnico da atuação quanto um pensamento sobre o que é ser ator ou atriz no mundo de hoje.

Com a atriz Lara Matos, atuando na peça “Mierda Bonita” (2016) – Foto: Acervo Grupo (E)xperiência Subterrânea/Divulgação/ND

Quando e por que a mudança para São Paulo?

Mudei em 2018, após terminar o mestrado. Já vinha passando algumas temporadas, fazendo cursos ou participando de eventos e mostras. Depois de alguns anos de ensaio, resolvi aproveitar o fim do ciclo do mestrado para mudar de cidade e buscar outras oportunidades de formação e trabalho, conhecer outras áreas e beber de outras fontes.

Apesar do momento triste em que vivemos, não só na área da cultura, mas no país como um todo, São Paulo reúne muitos artistas de todo o Brasil e do mundo, com iniciativas independentes incríveis e programação para todos os gostos, assim como uma cena audiovisual muito forte.

Mas também estou pertinho e, sempre que dá, volto para visitar ou a trabalho. Florianópolis tem muitos profissionais maravilhosos no teatro e no cinema. “Submersos” é uma das provas disso. Apesar de ter um mercado de trabalho ainda restrito para atores, tem cada vez mais projetos despontando no cenário nacional e internacional, e muita gente produzindo arte de muita qualidade, mesmo com tão pouco apoio das instituições e do governo.

O monólogo “Hipocôndrio”, que criaste em 2014, já foi apresentado em Florianópolis, Joinville e entrou em cartaz em São Paulo em 2019. É o tipo de espetáculo que te acompanha para ser encenado por muito anos?

Sim, foi um trabalho que começou como um exercício para uma disciplina na graduação e acabou se transformando numa peça que me acompanha constantemente. Em 2019, reestreei o “Hipocôndrio” no Museu de Arte Moderna de São Paulo e depois fiz uma temporada independente.

É uma peça que significa muito para mim e que é um grande aprendizado, já que ela vai se transformando ao longo do tempo com ajustes no texto e na maneira como entendo o que ela significa no mundo de hoje.

Lucas Heymanns, em “Hipocôndrio” – Foto: Fabio Audi/Divulgação/ND

Monólogos, montagens mais introspectivas, têm a tua preferência no momento de criar a dramaturgia e atuar?

Não necessariamente. Gosto de me propor a fazer coisas bem diversas e experimento com vários formatos. Já publiquei um melodrama tragicômico que acabei nunca encenando, artigos sobre atuação e filosofia, performances sobre literatura, trabalhos mais na linha da dança e performance e, agora, tenho me arriscado em escrever roteiros para o audiovisual.

Tenho me interessado muito pela atuação para televisão e cinema também, que ainda é novidade para mim mas que é muito divertido e exige um outro tipo de trabalho com composição de personagem.

Como surgiu a oportunidade de atuares na série “Submersos”, da diretora Márcia Paraíso?

A produtora de elenco da série, Andrea Buzato, estava procurando um ator que fosse de Florianópolis para o papel do Gordo, já que queriam que ele tivesse um sotaque forte. Algumas pessoas me indicaram, dentre elas, sua irmã, que tinha assistido ao “Hipocôndrio” em uma das apresentações no Sesc Prainha e gostado bastante.

Aí foi isso: me mandaram um texto para decorar para o teste, que era uma das últimas cenas do Gordo nesta primeira temporada. Uma cena que depois descobri que é bem típica da personagem, misturando humor e violência. Fui todo caracterizado para o teste, gravamos dois takes e depois de algum tempo de ansiedade, me ligaram falando que tinha sido aprovado.

Como Gordo, o traficante de “Submersos” – Foto: Joana Paraíso/Divulgação/ND

Gordo é um traficante de drogas, que tem destaque na trama já no primeiro capítulo. Como foi a composição da personagem e a preparação para dar vida a ele?

Foi um grande desafio para mim, interpretar um traficante com cenas muito violentas, de tiros, assédio, etc, misturadas com cenas cômicas e outras, inclusive, bem tristes. Trabalhar o sotaque da personagem foi também desafiador, tendo que encontrar um lugar que fosse autêntico, forte, sem se tornar caricato demais.

Apesar de ter vivido a vida toda em Florianópolis, fazer um sotaque é sempre complexo, e Floripa tem vários tipos de sotaque. Eu me inspirei muito em amigos e conhecidos, principalmente da infância e da adolescência pela Lagoa, Barra e Canto da Lagoa, assim como em muitos amigos que me ajudaram na composição gravando áudios e lendo o roteiro comigo.

Por outro lado, não tínhamos pretensão de imitar alguém específico ou ser fiel a como seria um traficante em um morro no Centro de Floripa, mas, sim, brincar com essa mistura de referências que acabou virando o Gordo.

Trabalhei junto à diretora Márcia Paraiso e ao roteirista Glauco Broering, adaptando algumas expressões no roteiro e encontrando o tom certo para a personagem, assim como recebi vários retornos de moradores do José Mendes, que foi a locação da maior parte de minhas cenas.

Fora isso, a preparação teve a ver com estudar o roteiro e explorar a caracterização da personagem, como andar por aí com as várias tatuagens (inclusive no rosto) e tentar me familiarizar com manipular uma arma, como segurá-la, guardá-la, colocar as munições…

O trabalho com os outros atores foi essencial também, com gente muito talentosa como Ana Cecilia Costa, Guilherme Weber, Renato Turnes, Clei Grott, além dos atores que interpretam os capangas do Gordo (Robson Bertolla, Israel Junior, Rafael Gregório, Vitor Hugo Assunção), com os quais ensaiamos bastante.

A caracterização maravilhosa feita pela Carolina Pires e pela equipe de figurino também faz parte total da criação, que é se olhar no espelho, se ver de maneira totalmente diferente e investigar que tipo de corpo isso tudo gera em você.

Lucas Heymanns (Gordo) e Robson Bertolla (Piolho), em “Submersos” – Foto: Joana Paraíso/Divulgação/ND

É o teu primeiro trabalho em uma grande produção, com duração de dois anos, elenco estrelado, etc. Como está sentido este passo na carreira?

Tem sido incrível participar deste projeto, com muita gente incrível que me ensinou muito. Sempre tive vontade de participar de uma produção audiovisual, experimentar esta outra dinâmica que é compor uma personagem aos poucos, gravando diversas vezes e nesse ritmo intenso.

Antes de mudar para a graduação em teatro, cursei um ano de cinema na UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), e este trabalho retomou em mim uma paixão por esse mundo, tanto como ator como o interesse pela realização, roteiro, direção.

É maravilhoso ver como este é um trabalho que envolve muitas pessoas, muita organização e muito talento pra entregar as séries e filmes que assistimos, e que em “Submersos” foi ainda mais especial por estar junto a equipe com muitos amigos de Florianópolis e gravando nos cenários da Ilha.

É uma delícia estrear um trabalho assim, que vai passando aos poucos, recebendo comentários dos amigos, aprendendo de novo ao assistir, e espero que tudo isso abra portas para novos trabalhos nessa área.

A série estreou no dia 2 de março. Como está sendo a repercussão do teu trabalho?

Tem sido muito boa, tanto em relação à série quanto à personagem. Muita gente veio mandar mensagem, falando de como tinha gostado de ver Floripa, seus cenários e sonoridades numa série que ficou tão bonita.

O fato de ser uma coprodução com a Argentina e ter sido gravada metade lá com atores de lá dá também um ar muito interessante para a série, transitando entre Florianópolis e Córdoba, português e espanhol.

É muito louco assistir agora e acompanhar a repercussão dois anos depois de ter gravado a série. E como os episódios são liberados semanalmente, o público vai conhecendo aos poucos as personagens e se envolvendo na trama.

Também é muito gratificante ver nossa produção em um canal importante como o Paramount Chanel, atingindo espectadores no Brasil inteiro e, em breve, também na Argentina e América Latina.

Quanto ao meu trabalho, tenho ficado feliz com os retornos sobre a personagem, que apesar de ser um vilão violento, cativa as pessoas através do humor e dos outros lados que o Gordo vai mostrando ao longo dos episódios. Espero que o público continue acompanhando, que tem muita coisa para acontecer ainda nessa trama.

Foto: Márcia Paraíso/Divulgação/ND

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