Marcos Cardoso

A sociedade da Grande Florianópolis, os eventos culturais e as tradições da região analisadas pelo experiente jornalista Marcos Cardoso.

EXCLUSIVO: confira a entrevista que Jaime Arôxa, jurado do “Dancing Brasil”, deu ao ND+

Atualizado

Jurado do “Dancing Brasil”, o coreógrafo Jaime Arôxa está em Florianópolis participando do 13° Baila Costão, evento que ocorre no Costão do Santinho Resort até domingo (4) e do qual é padrinho.

Veio com a bailarina americana Kiri Chapman – sua parceira de palco e da vida, com quem se casou no fim de 2018 – para integrar a grade de professores.

Próximo de completar 40 anos de carreira, o pernambucano radicado há décadas no Rio de Janeiro nos deu uma entrevista exclusiva sobre o programa da Record TV, a dança e seu trabalho.

Jaime Arôxa (à esq.) com os colegas de bancada do “Dancing Brasil”, Fernanda Chamma e Paulo Goulart Filho – Munir Chatack/Record TV/Divulgação/ND

A audiência do “Dancing Brasil” tem crescido desde a primeira edição em 2017 e alcançado bons índices, sendo nas quartas-feiras o assunto mais comentado em redes sociais como o Twitter. Na tua opinião, qual o seu grande diferencial?

O sucesso do “Dancing” eu acho que é por vários fatores. Primeiro, o acerto na equipe. O principal de tudo é a equipe. Se você tem uma equipe, você consegue chegar ao objetivo, e a do “Dancing” é muito profissional. Todo mundo faz bem o seu trabalho, torce para que o outro faça bem o seu trabalho e um ajuda o outro. É uma grande família.

Dá para sentir, por exemplo, na bancada de jurados como a gente tem um fluxo de energia bom, embora cada um possa ter a sua opinião diferente, mas a gente consegue ter um convívio verdadeiramente saudável, amigável, fraterno. E isso você vê em cada parte do “Dancing”: no cabeleireiro, no figurino, na luz, na técnica, nos câmeras. Todo mundo trabalha muito em conjunto.

O programa tem entre suas características o projeto do estúdio que remete a um salão de baile, o júri fixo, a mistura de ritmos por noite e as músicas que não são familiares ao ritmo pedido, algumas impensáveis de se dançar. Seriam estes o trunfo do reality show?

Esse é o resultado. É o efeito da equipe. Um programa lindo, com a produção riquíssima, não no sentido do dinheiro, mas a criatividade, o valor artístico dela. A cada dia a gente sente que ele pode ser melhor, e vai melhorando a cada dia. O povo lá é muito apaixonado pelo “Dancing”, e esse é o efeito que faz com que ele seja um sucesso.

Foto – Juarez Schmitt/Divulgação/ND

A tua participação é somente como jurado ou também atuas nos bastidores?

Atuo somente como jurado. Procuro orientar os dançarinos para eles melhorarem. A gente não faz um julgamento exatamente, a gente faz uma análise e também dá muitas dicas. Funciona como um coach à distância, de 30 segundos, um minuto de conselhos ou de dicas.

São três pessoas (jurados) que sabem muito do que estão fazendo e falando. Então, já é um trabalho forte. Não ajudamos nas coreografias, nas aulas, nem temos muito contato com os bailarinos. A gente fica muito ali esperando a hora de dar nossa opinião.

É comum ouvirmos sobre a evolução da qualidade das apresentações em realities de dança, ainda que sejam concorrentes diferentes, de edição para edição. Isto é perceptível também no “Dancing Brasil”?

O “Dancing” é um programa de competição, e os jurados servem para estimular a evolução a cada programa para que você consiga se manter nele. Eles (bailarinos) têm que melhorar a cada dia porque nós somos muito rigorosos e cobramos realmente a evolução de cada um.

O público agora está podendo votar também. A gente está mostrando uma coerência entre as notas do público e as notas dos jurados. Se não evoluir, não consegue vencer. As pessoas não sabem dançar quando chegam e quem conseguir aprender mais rápido, melhorar mais rápido, com certeza é candidato a ganhar o prêmio.

Foto – Juarez Schmitt/Divulgação/ND

A quinta temporada estreou faz um mês. Ainda há muita pista a percorrer e o desempenho dos candidatos pode variar por diversos fatores. Já é possível apontar quem mantém um nível satisfatório de apresentação e tem chances de chegar às finais?

Esta temporada está mais equilibrada. Em algumas, tivemos um favorito logo no meio do programa, a gente já sabia quem poderia ganhar. Nesta, tem pelo menos cinco com condições de chegar à final. Então, eu prefiro não arriscar.

És considerado um jurado exigente. O que mais te leva a não dar uma nota maior? Erros técnicos ou uma coreografia que não te emocionou?

Sou um jurado muito técnico. Observo muito se as pessoas estão dançando a dança proposta. Então, quero ver salsa, quero ver jive, quero ver paso doble, quero ver a dança como ela é. Embora você possa botar um cenário, um figurino diferente, um truque, um efeito especial, não importa o que você coloque, é a dança e mais alguma coisa, e não alguma coisa mais um pouquinho de dança.

Neste ponto sou muito rigoroso. Mas de vez em quando sou tomado pela emoção, sim. De vez em quando eles me emocionam de uma maneira que eu fico cego um pouco para coisas técnicas. Para mim a emoção sempre vence a razão nesse ponto. Então, quando não emociona, vou avaliar a parte técnica, vou dar minha nota às vezes boa. Se não me emocionar, pode estar tecnicamente perfeita, não vai conseguir um 10 porque sempre vai faltar sempre alguma coisa.

Jaime Arôxa e a parceira Kiri Chapman – Juarez Schmitt/Divulgação/ND

Em 2020 completas 40 anos carreira, que inclui escolas de dança, coreografias para espetáculos, Carnaval, videoclipes, TV e cinema, temporadas em navio, shows e aulas pelo Brasil e em diversos países. Em que trabalhos estás envolvido atualmente?

Estou envolvido com o “Dancing”, com o meu trabalho em San Francisco (EUA) junto com a Kiri Chapman, que é uma bailarina maravilhosa, e nossa parceria está indo muito bem. Então vou ter que me dedicar a ela, às nossas coreografias, aos nossos shows, às nossas aulas, nossas pesquisas, nossas viagens, tanta coisa que não me sobra tempo.

Um livro que a gente acabou de escrever, “Mude Sua Cabeça Pelos Pés”, vai também ser um curso online no futuro, é um projeto que está em andamento. A gente tem um espetáculo chamado “Viagens”, que está em cartaz, onde minha companhia também dança. Tenho aulas nas filiais (de sua escola) e workshops em várias cidades todos os fins de semana quando estou no Brasil. Eu me dedico à dança, meu projeto sempre é dançar, e nunca estou parado.

No final de 2018 casaste com a bailarina americana Kiri Chapman, tua partner. Ela participa de todas as etapas do teu trabalho?

A Kiri participa comigo de tudo. A gente tem um trabalho de parceria de verdade, de igual para igual. Ela é uma diva, uma bailarina que eu já conhecia, já era reconhecida mundialmente. É muito querida no mundo inteiro e foi um presente de Deus para mim dançar e casar com ela. Era muito mais do que eu poderia imaginar (risos). Então, sou feliz em dobro.

Jaime e Kiri – Juarez Schmitt/Divulgação/ND

No meio da dança de salão brasileira és um profissional lembrado por incluir elementos na coreografia que torna a apresentação mais contemporânea artisticamente, sem a previsibilidade da dança de salão tradicional. Como isto se deu?

Eu sempre misturei tudo. Não sei se comecei na dança de salão, mas nasci para a dança, para o balé, para o contemporâneo, para a dança em geral. A dança de salão foi a circunstância da vida que me colocou na frente. Foi o caminho que eu encontrei porque a dança me ofereceu.

Mas sempre tive em mim uma visão muito mais ampla. É por isso que a dança de salão quando foi para o palco percebi que ela precisava de elementos de outras danças e de outras artes para poder merecer estar no palco. Porque o nome já diz, “de salão”. Se é dança de salão, tem que ficar onde? No salão. Se ela vai para palco, tem que ganhar outras características, e isso funciona muito bem.

Hoje todo mundo tem essa fusão. O mundo inteiro foi na mesma linha que eu fui no início da minha carreira, quando eu era muito criticado por misturar tantas coisas. Desenvolvi tantos novos passos, quebrando certas tradições, mas de fato nunca saí da tradição. Sempre fui muito conservador na minha dança. Por incrível que pareça, eu apenas abri um pouco mais o espectro. Na minha escola todo mundo dança de tudo, não tem uma especialidade.

O Baila Costão, do qual és padrinho, em 13 anos já se consolidou no calendário de Santa Catarina e do Brasil. Que relevância tem este tipo de evento para a dança de salão?

O Baila Costão eu considero hoje o melhor e maior evento de dança de salão no Brasil. Ele reúne todos os tipos de dança, é muito democrático e tem como característica a diversão. Não é um congresso onde você tem que aprender e tem que fazer aulas.

Aqui é um resort de alta classe, tem tantas diversões, tantos atrativos, tantos cantinhos bons para estar. As pessoas adoram vir para cá. É um dos melhores congressos que eu participo no mundo. Por isso que é importante para Santa Catarina, para Florianópolis. A cidade valoriza, dá apoio. Eu sinto que a cidade gosta do Baila Costão.

Foto – Juarez Schmitt/Divulgação/ND

Nesta edição, tu e Kiri ministram curso de sensualidade na dança, que é um tema que já desenvolves há um bom tempo. O que te motivou a pesquisar sobre este aspecto da dança e o que as pessoas vão aprender?

Ensinar sensualidade foi uma coisa difícil para mim no início porque comecei a trabalhar muito com shows sensuais para a Ásia. Eu tinha que fazer coisas muito sensuais. Eram shows mais provocantes, picantes, no navio em que eu trabalhava. Então eu tinha que sensualizar com as mulheres. Tive que aprender a entrar no mundo feminino. Hoje eu vejo a sensualidade mais como aspecto saúde do que como aspecto sedução.

As pessoas ligam muito sensualidade a sedução. Eu ligo sensualidade a saúde da pessoa, tanto do homem quanto da mulher. A parte da autoestima, de gostar de você mesmo. A sensualidade te dá sensações corporais que faz você desenvolver um tesão por você mesmo. Isso é fundamental para ter a liberdade de expor seu corpo, de tocar em alguém ou de desfrutar você mesmo do seu próprio corpo, gostar dele, sentir nele prazer. É uma forma de autoconhecimento.

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