Padre Vilson Groh, uma vida dedicada a construir pontes e derrubar muros

Levanta e anda. Nos textos históricos do Novo Testamento, a ordem “levanta-te” foi dirigida por Jesus aos que sofriam: o homem de mão seca, o cego, o leproso.  Na mística cristã, a frase assume uma dimensão profunda de resgatar a autoestima e o potencial inerente a cada um.

Em sua casa, no Monte Serrat, padre Vilson vive cercado por fotos de suas andanças pelo mundo, lembranças e livros | Foto Anderson Coelho/ND

Ao olhar a juventude e os rostos dos empobrecidos, dos sem teto, dos que sofrem de preconceito, em vez de problema o padre Vilson Groh enxerga solução. Um valioso capital social. A exemplo de Jesus, usa a educação e o trabalho como estímulo a levantar e andar. Um convite a realizar sonhos e derrubar os muros da desigualdade.

Vilson Groh, 65 anos, acredita que esperança não é uma dimensão utópica. Há 38 anos a materializa nas oportunidades que vem ajudando a criar para a população empobrecida que, embora à margem dos ideais de dignidade (trabalho, moradia, segurança, oportunidades), infelizmente é maioria e quase sempre invisibilizada.

“Cria” do Mocotó

Desde que se mudou para um barraco no Morro do Mocotó, aos 22 anos, e depois a vivência e ajuda na organização da comunidade do Monte Serrat, ambas no Maciço do Morro da Cruz, no Centro de Florianópolis, dedica-se à construção caminhos em direção à justiça social. Tão inspiradora e genuína, a história do padre será enredo da escola de samba Embaixada Copa Lord no carnaval 2020.

“Colocar-se no lugar do outro, a partir do outro, num completo esvaziamento de si para entender quem sofre e entender também os mecanismos que produzem o sofrimento. Isso é romper com a questão do assistencialismo”, ensina o padre.

Luta pela não-naturalização da injustiça social

Vilson Groh nasceu em Brusque, no Vale do Itajaí, filho do meio entre 11 irmãos e irmãs e pais operários. A família numerosa, profundamente ligada à fé católica, foi a primeira escola do vivenciar o coletivo e do aprender a partilhar. A literatura foi um dos meios pelo qual a vocação espiritual e social se manifestou. Lia vidas de santos, biografias diversas, romances sob a perspectiva do agnosticismo, questões de igreja.

Aos 12 anos já trabalhava e conciliava a escola. Frequentava o sindicato de operários, representando o pai, para garantir a bolsa que provia os estudos. Já era atento ao que na época era vigente no país, a ditadura militar. No seminário, leu os escritos de um padre francês que atuava com a questão de moradias em Paris e passou a também se interessar pela problemática social. Foi como uma iniciação numa espiritualidade coletiva.

Padre Vilson com a mãe, de 96 anos, em uma das visitas que ele fez à família, em Brusque | Foto Arquivo Pessoal/ND

Em 78 mudou-se para Florianópolis, onde estudou teologia, e finalmente em 1979 passou a morar no Mocotó. “A razão pela qual eu vim parar na periferia tem a ver com uma forma de concretizar os documentos de igreja que me chamavam como apelo: olhar o sinal dos tempos e esse sinal é o mundo dos empobrecidos. Perder a experiência dos pobres é perder a experiência de Deus”, diz.

O padre faz parte de um movimento que levanta a bandeira da teologia latino-americana e a atualização do Evangelho, corrente legitimada pelo Papa Francisco — que o recebeu no Vaticano em 2017.

“Na compreensão latino-americana, a gente descobre que os crucificados pelo sistema são as populações indígenas, negra, a população empobrecida. Esse rosto é o rosto que me atrai, porque é o rosto dos sistemas de opressão e da desigualdade social. Acho que aqui está o foco profundo do evangelho, porque é o foco que te traz a não-naturalização da injustiça social”, enfatiza.

Bênção de terreiro, diálogo religioso e o crescimento do Monte Serrat

O Monte Serrat e o Mocotó, no Morro da Cruz, tornaram-se lugares símbolo do movimento negro em Florianópolis. Após a tardia abolição, em 1888, os negros que viviam na então Desterro subiram o morro. Hoje, pelo menos 90% da população que mora nas duas comunidades é negra, embora não existam registros oficiais do IBGE ou da prefeitura.

“O Monte Serrat já é um pequeno bairro, mas há algumas décadas era uma das áreas mais empobrecidas da cidade. Aqui fomos desenvolvendo os trabalhos de organização da comunidade, das ocupações urbanas”, conta o padre.

As bênçãos para desenvolver junto aos moradores nativos um trabalho coletivo vieram dos terreiros de candomblé e umbanda — que o padre participa há 38 anos. Ele foi buscar na raiz da ancestralidade um sagrado que une.

“Fiz uma aprendizagem de busca da ancestralidade, do reconhecimento das matriarcas, do sagrado. Quando vou ao terreiro, vou ao sagrado do outro. Que é diferente do meu, mas que no fundo é o mesmo sagrado. O diálogo religioso é fundamental”, acredita.

“A minha experiência primeira de vida foi no Morro do Mocotó, com uma sacerdotisa negra”, lembra. Ele e a mãe de santo, Claudete Régis, são amigos próximos desde então.

A prática local e a criação do Instituto Vilson Groh

Num mundo onde 5% das pessoas detêm a riqueza e 85% vivem à margem, soa impossível para alguém como padre Vilson Groh não agir. Ele defende a prática local, que nada mais é do que a prática da cidade onde habitamos. Como ressuscitar essa cidade? Construir essa cidade? Para o padre, é importante criar mais pontes entre os setores sociais: empresários, universidades, o Centro da cidade, o morro.

“Porque é necessário resolver coletivamente os problemas da cidade”, justifica. “Não queremos tirar o papel do Estado, mas criar essa esfera pública, não estatal, de controle social. E construir um projeto macro no micro, que é a cultura da paz. E não há paz se não há justiça social”, pondera.

Nessa perspectiva, o padre priorizou a educação. A partir de 2010, com a criação do IVG (Instituto Padre Vilson Groh), as ações cresceram e hoje, além das comunidades do Maciço do Morro da Cruz, centros de educação, sociais e associações acolhem 6 mil jovens de seis a 24 anos em toda a Grande Florianópolis, numa proposta de trilha pedagógica que oportuniza estudos da educação fundamental até a universidade.

“Todas as organizações que fazem parte do IGV trabalham com jovens na dimensão da educação como transformação social. O padre Vilson tem um papel significativo, tanto na questão educativa, quanto de articulação e pastoral”, diz o pedagogo comenta Keles Gonçalves de Lima, pedagogo numa das instituições maristas que integram a rede IVG.

Na casa do padre, localizada atrás da Igreja Nossa Senhora do Monte Serrat, entre fotografias de amigos e de jovens no Brasil e no Sul de Guiné-Bissau, na África — onde o IVG também atua —, destaca-se um quadro de Madre Teresa Calcutá desenhada com lápis de cor e emoldurada pelas palavras: mãos que servem são mais santas que lábios que rezam. Uma flâmula do educador Paulo Freire também chama atenção. “O Paulo Freire dizia que a educação não transforma, mas transforma pessoas. E pessoas transformam o mundo”, diz o padre.

Juventude: solução para a humanidade

Padre Vilson Groh acredita que a juventude é a solução da humanidade. Por isso os trabalhos desenvolvidos pelo IVG priorizam a educação e o empoderamento de crianças e jovens. “Como embalar sonhos e sonhos que sejam reais, para que juventude recupere a força da esperança?”, questiona. A resposta está na ação.

A Rede de Articulação e Conectividade dos Direitos da Criança e do Adolescente, por exemplo, trabalha identificando conflitos em relação a atuação das polícias e criou um protocolo de atendimento para a criança e o adolescente em conflito com a lei. “Num país como nosso, onde morrem 60 mil jovens assassinados anualmente, vivemos uma guerra. Por que viver num mundo tão embrutecido. Me pergunto quantos jovens dos 60 mil assassinados não teriam profissões se não tivessem sido mortos”, lamenta.

Antídoto para embrutecimento também pode ser a cor. O projeto Mocotó Cor – Beleza Transformando Vidas, foi idealizado pela Acam (Associação de Amigos da Casa da Criança e do Adolescente do Morro do Mocotó) e viabilizado pela parceria entre o IVG, parceiros da iniciativa privada e governo municipal. A ideia é contribuir com a organização da comunidade a partir de ações de embelezamento das casas, melhoria na acessibilidade, plantio de árvores e outras ações.

Oito centros sociais

A rede do IVG no total abrange oito centros sociais, de educação e associações em bairros como o Monte Cristo, com o Centro de Educação Popular (Cedep) — primeira ONG criada pelo padre há mais de 30 anos. O Centro Cultural Escrava Anastácia, o Centro Social Elisabeth Sarkamp, o Centro Cultural Marista São José, a Associação João Paulo 2º e o Centro Educacional Marista Lúcia Mayvorne também fazem parte, entre outros. Oferece ainda curso pré-vestibular e bolsas de estudo em faculdades privadas da região.

Para o empresário Léo Mauro Xavier Filho, 59, o grande exemplo do Padre Vilson Groh é o sentido de serviço. “Ele se diminui para engrandecer o outro. E assim se torna tão iluminado. Eu o conheci em função da morte da minha avó. E ficamos amigos, ele me mostrou os projetos sociais e me encantei. Ele é um construtor de pontes. Une o rico com pobre, branco com preto, sem classe, e sem credo, embora professe a fé católica”, diz.

O número de parceiros privados e públicos das ações promovidas pelo IVG demonstra essa capacidade de diálogo. De grandes indústrias a associações, políticos e figuras públicas, todos Padre Vilson conseguiu despertar para um algo maior.

“O diálogo é importante e muitas vezes não é simples. A arte de ouvir o diferente e sem perder o humor talvez seja a parte mais difícil para nós. Vivemos realidades tão profundas e embrutecidas de processos de fome, de desemprego… Nesse contexto é fundamental não perder a ternura e a alegria”, ensina.

Antes de encerrar a conversa, na manhã chuvosa da última quinta-feira, citou uma frase da filósofa polonesa Rosa Luxemburgo (1871-1919): quem se movimenta sente as correntes. “Só quem se movimenta descobre a grandiosidade de lutar, de fazer acontecer. Só quem tem a utopia. O sonho nos ajuda a caminhar. E nós temos sonhos: de um mundo liberto, onde as crianças posam ter dignidade, ir a escola, comer, brincar.

Padre vai desfilar na Passarela Nego Quirido

Em 2020, a Embaixada Copa Lord vai homenagear a história de vida e dedicação do padre com o tema Bem aventurados os que têm fome e sede de justiça – Vilson Groh, o sacerdote das comunidades. Uma passagem da Bíblia muito citada por Groh, abre o argumento do enredo: “Porque tive fome, e destes-me de comer; tive sede, e destes-me de beber; era estrangeiro, e hospedastes-me; estava nu, e vestistes-me; adoeci, e visitastes-me; estive na prisão, e foste me ver” (Mateus 25:35,36).

“É um reconhecimento merecido de um trabalho que ele faz há tantos anos na comunidade. Eu o conheci por causa da minha mãe, que sempre trabalhou com ele, desde a época da criação do Centro Cultural Escrava Anastácia. Ele hoje faz parte da minha família”, diz o sambista Luciano de Brito, integrante da diretoria-executiva da Copa Lorde e morador do Monte Serrat. Brito já adianta: o padre vai desfilar, mas vai desfilar no chão. Porque ele gosta mesmo é de estar lado a lado do povo.

Carnaval 2020