Bloco da diversidade faz a festa no Centro de Florianópolis

Não me Kahlo representa a resistência do público LGBT na Hercílio Luz

No último dia de Carnaval em Florianópolis, o Bloco Não me Kahlo movimentou a Avenida Hercílio Luz, no Centro da cidade, nesta terça-feira (5). Pelo segundo ano consecutivo, o bloco organizado pela Bodega La Kahlo e Gandaia Cultural reuniu um público diversificado, de várias idades e gêneros, que dançaram ao som de funk e músicas eletrônicas.

Com o tema “Ninguém solta a mão de ninguém”, o bloco defende o fim das intolerâncias e fobias. De acordo com uma das organizadoras, Juliana Milioli, a ideia é enfrentar o clima de intolerância e medo pelo qual o Brasil vem passando nos últimos tempos. “Ainda há muito medo e insegurança para o público LGBT. Até por conta disso, programamos a festa para terminar às 20h, dando tempo para que todos consigam ir para casa em segurança”, afirma.

Organizadores do Não me Kahlo, bloco que defende o fim da intolerância – Marco Santiago/ND

Na opinião de Juliana, embora haja mais informação, ainda são frequentes os casos de abordagens machistas e ofensivas. “Pelo menos agora as mulheres já se empoderaram e não encaram mais esses casos como ‘normais’, ninguém é obrigada a passar por esses constrangimentos”, analisa.

A festa atrai gente jovem de espírito, não importando a idade cronológica, e famílias também são bem-vindas. A autônoma Kerolainy Costa Margarida levou a filha Luiza, de três anos, para curtir a festa e se divertir. “É um bloco tranquilo, seguro e para todos os públicos”, afirma.

Kerolainy Costa Margarida, com a filha Luiza, de três anos – Marco Santiago/ND

Também tem os que chegam sem saber nada sobre a festa, como Lenadir de Andrade, 69 anos, que veio de Biguaçu com as duas filhas, Silvana (47) e Simone (46). O trio já havia participado de outros dois blocos carnvalescos, no domingo e na segunda-feira, e aproveitava o restinho de feriado para se divertir na avenida. “Participamos do Bloco da Zica e do Poeta, aqui no Centro, e agora viemos conferir esse também”, afirma Lenadir.

Lenadir de Andrade, de Biguaçu, participa de vários blocos pela Capital – Marco Santiago/ND

No palco, os DJs colocaram a galera para dançar. Entre eles, a DJ trans Lirous K’yo Fonseca Ávila, assistente social e presidente da ADEH (Associação em Defesa dos Direitos Humanos). Lirous explica que atua há três anos na organização do bloco Não me Kahlo e que ele é uma demonstração de resistência e de ocupação de um espaço (que já não existia mais) pelo público LGBT. “Antigamente, havia o bloco Roma e o Pop Gay que também acontecia aqui na Hercílio Luz, então fomos excluídos desse espaço, que agora voltamos a ocupar”, afirma.

Lirous Ávila afirma que Não me Kahlo é um bloco de resistência e de ocupação do espaço pelo público LGBT – Marco Santiago/ND

O bloco tem um papel de resistência importante porque o carnaval de rua ainda não é seguro para todos os públicos, segundo Lirous. Como presidente da ADEH, Lirous informa que atende 70 casos por mês de agressão contra LGBTs na Grande Florianópolis e, por isso, também faz um trabalho de conscientização junto à segurança das casas noturnas onde toca. “O preconceito se mostra mesmo em coisas sutis, como o fato de as casas noturnas não divulgarem fotos do público LGBT que as frequenta, em suas redes sociais. O bloco é para resistir, mesmo”, conclui.

Na mesma tarde, a poucos metros de distância, acontecia o Bailinho Infantil, promovido pela Gandaia Cultural. Das 14h às 19h, a festa reuniu muitas crianças que puderam pular carnaval, se fantasiar, comer pipoca e se divertir no pula-pula, tudo gratuitamente.

Encerramento com desfile das campeãs

Para quem adora a folia, ainda tem duas programações para o próximo sábado (9), na Passarela do Samba Nego Quirido. A festa começa às 14h com o bloco Quero Parar Mas não Consigo.

Mais tarde, acontece o desfile das escolas campeãs do Carnaval 2019 (Consulado, Copa Lord e União da Ilha), a partir das 20h30. A entrada é gratuita.