Contas em dia e organização, Fábio Botelho avalia seus três anos à frente da Liesf

Em entrevista exclusiva ao ND, o empresário falou sobre o modelo de Carnaval de Florianópolis e o que pretende fazer após entregar o posto ao seu sucessor

Fábio Botelho tem o sentimento de dever cumprido à frente da Liga – Foto: Foto Flavio Tin/ND

Depois de três anos como presidente da Liesf (Liga das Escolas de Samba de Florianópolis), o empresário Fábio Botelho se despede do cargo neste Carnaval. Apesar de admitir que vai sentir saudades da função, ele também entende que precisa descansar e aproveitar as festividades como folião. Além disso, após se dedicar à Liga nos últimos tempos, quer voltar sua atenção ao trabalho e à família. Botelho deixa a Liesf com o sentimento de dever cumprido e pronta para a próxima diretoria, que deve ser escolhida em abril deste ano.

Em entrevista exclusiva ao ND+, ele falou sobre o início de sua gestão, os desafios enfrentados neste período e o que pretende fazer após entregar a presidência para seu sucessor. Confira:

O que o levou à Liesf e o fez almejar o cargo de presidente?

Na realidade, eu não almejei. Eu estava em casa, quando recebi um telefonema que me levou à uma reunião com todos os presidentes da escolas de samba. Nela, todos eles pediram que eu assumisse a Liga. Ninguém queria assumir a Liesf por três motivos: a situação econômica do país, a situação financeira da Liesf e a situação na qual o Carnaval se encontrava diante da sociedade. Eu, por conta de questões profissionais, não tinha interesse, mas aquilo me comoveu muito. Eu acabei assumindo com o objetivo de mudar o padrão dela. Foi aí que tudo começou.

Quais ações conseguiu desenvolver durante esse período?

Nós arrumamos contabilmente e juridicamente todas as escolas, para que pudessem receber recursos tanto privados, quanto públicos, diretamente. Fizemos um planejamento estratégico com todos no Sebrae/SC, onde foi definido o verdadeiro papel da Liga. Esse papel é de integração com a sociedade, articulação política e financeira para as escolas e também de promover políticas sociais. Não mais de repassadora de recursos, como era antigamente. Sem falar, obviamente, do papel fundamental da Liga que é organizar o Carnaval técnico — todo disciplinamento e o manual de julgamento — junto com a CPC (Comissão Permanente de Carnaval).

Sente que deixou alguma pendência, algo que não conseguiu fazer enquanto presidente?

Nós tivemos várias barreiras e obstáculos. Confesso que assumi o Carnaval de Florianópolis com a ameaça de ele não acontecer mais, num momento em que Rio de Janeiro e São Paulo passavam por problemas, Porto Alegre cancelou o Carnaval e a sociedade tinha o entendimento de que o Carnaval tirava dinheiro da educação e saúde. Então, nesse cenário adverso, nosso maior objetivo era fazer três anos de gestão com Carnaval e conseguimos, mas isso tudo só foi possível porque o prefeito Gean foi um grande apoiador.

A diretoria da Liesf no Complexo Nego Quirido – Foto: Foto Flavio Tin/ND

Este é seu último Carnaval à frente da Liesf. Como se sente ao deixar o posto?

Eu vou sentir falta, mas também sei que está na hora de sair. Eu acho que nós só podemos acreditar num mundo melhor quando novas ideias surgem. Já dei a minha contribuição para o Carnaval. Nós fizemos uma gestão em três anos com muita transparência, sem nem R$ 1 de dívida, nenhuma ação. Na minha gestão, a gente conseguiu fazer os três anos de Carnaval. Então, meu sentimento não podia ser diferente do dever cumprido.

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Com a sua saída, quem assume a Liesf?

Existem algumas pessoas que estão se colocando à disposição, o que me deixa muito feliz. Isso já prova que a Liga mudou. Nós fizemos um modelo de gestão com a prefeitura e a iniciativa privada, que nos possibilitou já lançar o Carnaval 2021. É a única Capital do Brasil que lançou o Carnaval 2021 e isso faz com que pessoas queiram assumir a Liesf. Vai ter uma eleição, que vai acontecer em abril, mas vou trabalhar para que tenhamos uma chapa de consenso. Para que a gente possa achar um nome de consenso entre todos e diante disso traçar um planejamento para a Liga nos próximos três anos, sendo que eu estarei do lado de fora. Vou ajudar no que as escolas precisarem, vou ajudar a Liga, mas eu preciso descansar.

Quais são suas recomendações para o próximo presidente?

Manter a transparência e o pé no chão. Saber que o Carnaval de Florianópolis tem seu tamanho e ponto. A gente não pode mais fazer aventuras. A recomendação que eu dou para o próximo presidente é manter a linha que nós desenvolvemos com presidentes das escolas de samba. Porque a Liga não é minha, a Liga é deles. Acima de tudo, o Carnaval precisa ter essa pegada da palavra. Aquilo que for combinado precisa ser cumprido. Até para que a sociedade volte a ter credibilidade em todo o processo que norteia as nossas escolas, a Liga e a nossa cultura.

Você falou que também é preciso renunciar a muitas coisas. Pode contar um pouco sobre a sua experiência?

Significa que quando termina a apuração do Carnaval eu dou uma semana e já começo a planejar o do ano seguinte. E é assim para todas as escolas de samba também. A gente tem um papel de articulação e de planejamento do Carnaval com os presidentes das escolas que é gigantesco. A sociedade não sabe disso. E mais: a sociedade não sabe que todos os presidentes são voluntários, assim como todos da diretoria da Liesf. Isso é muito bacana e eu sou muito satisfeito de trabalhar com esses caras. Eu sou outro desde quando assumi. Tenho hoje muito mais paciência, solidariedade, entendimento e coragem.

Já tem planos para depois de entregar o cargo?

Primeiro, vou voltar 100% para minha empresa. Segundo, ano que vem quero ter férias — porque eu saio um pouco da empresa, mas fico na passarela praticamente o tempo todo. Terceiro, eu quero brincar o Carnaval sem compromisso. Tanto que a minha meta ano que vem é desfilar nas escolas que me aceitarem na ala de amigos, se possível em todas. E tem uma outra coisa, que eu quero fazer sem compromisso, que é ajudar as escolas na organização.