Morro do Céu, na área central do maciço, é casa de Dascuia, folião que deu nome à escola de samba

Agremiação que cresceu no quintal de casa da rua São Joaquim é a caçula no desfile do grupo principal na passarela Nego Quirido

Rosane Lima/ND

Professora Valdeonira e o marido Altamiro José dos Anjos, Dascuia, o carnavalesco que dá nome à escola de samba do Morro do Céu

Criada no Morro da Caixa, a caminho da região que os mais velhos conheceram como Canudinhos, berço do Carnaval de rua em Florianópolis, a professora aposentada Valdeonira Silva dos Anjos, 79, confessa que ainda não aprendeu a dançar. Sabe apenas “farrear”, como define o requebrado meio desajeitado em volta da mesa com toalha verde e rosa, na sala do sobrado de dois pavimentos, onde também predomina a cor de rosa. Como em uma passarela imaginária, cantarola um samba sem batucada, segura as mãos trêmulas do parceiro e faz uma reverência para apresentar o primeiro amor da vida dela: Altamiro José dos Anjos, 79, o Dascuia, folião que virou nome oficial da escola do Morro do Céu.

Os dois se conheceram aos 20 anos, quando os pais de Valdeonira a deixaram ir ao primeiro baile, no extinto Clube Guarani, o popular “vai quem pode”, na esquina da avenida Mauro Ramos com a rua Clemente Rôvere, onde hoje funciona a sede do Sindicato dos Taxistas de Florianópolis. Depois de um ano de namoro e outros três de noivado, o casamento no dia seis de fevereiro de 1960 resultou em sete filhos, 10 netos e duas bisnetas, todos ligados à escola que divide a casa na rua São Joaquim 35, uma das transversais da Cruz e Sousa, com a família Dascuia. 

Cabo corneteiro da Base Aérea de Florianópolis, no quartel o formato do bibico na cabeça inspirou colegas de farda para o apelido que o acompanha a vida toda. Na juventude Dascuia já se destacava como carnavalesco carismático nas rodas de samba no morro ou no miramar, considerado também um homem sereno, obstinado e bom tocador de caixa. Logo, entrou na bateria da Protegidos da Princesa, a escola que também nasceu nos Canudinhos antes de migrar para o Mocotó, onde passou por todas as alas até chegar à presidência, em 1985.

Apesar da paixão declarada pela Protegidos, a Copa Lord também  faz parte dos 60 anos de Dascuia em escolas de samba. “Ele esteve nas duas escolas, é repeitado nos dois barracões. Tem carinho pela Copa, mas é uma antiga fantasia da Protegidos que ele ainda guarda”, revela Valdeonira.

Começo com bloco de “bonecas”

A irreverência dos sujos deu origem à escola. O início foi em 2004 com o bloco Filhas da Dadá, integrado pelos homens da família e amigos, durante esquenta na casa de uma das filhas do casal Dascuia, na Agronômica. “A mulherada também queria sair, foi dada a ideia do bloco, logo apareceu um monte de gente e meu filho Romeu sugeriu o nome do pai”, conta Valdeonira.

O bloco foi um sucesso, ganhou camisetas e bandeira nas cores da Mangueira, paixão carioca do velho Dascuia. Os primeiros arrastões juntaram mais de 300 pessoas, filhos, genros, noras, amigos e a comunidade se envolveram cada vez mais, o bloco ganhou vários concursos oficiais da prefeitura e nos últimos desfiles já eram 550 componentes divididos em alas e bateria,  puxando cerca de 2.000 foliões, números de escola de samba. “Parecia uma cocada, todo mundo queria”, diz.

De tanto crescer, em 2011 surgiu o Grêmio Recreativo Escola de Samba Dascuia. No ano seguinte, o segundo lugar no grupo de acesso foi a senha para a subida em 2013 à “série A”, como brinca a professora Valdeonira. “A responsabilidade agora é maior. Mas vamos fazer o que sempre fizemos, e sabemos fazer bem. Ganhar ou perder é consequência, as outras também virão bonitas”, diz.

Para Valdeonira, que nasceu em reduto da Copa e aprendeu a amar a Protegidos, ver o nome Dascuia na Passarela Nego Quirido é motivo de orgulho. “Acho que ele não irá, não sei se aguentará a emoção”, diz Valdeonira, que neste momento de estreia tem um desejo especial. “Gostaria muito de ouvir de novo a voz dele, saber o que está sentindo.”

Lição da vida difícil no morro

A vida no morro nunca foi fácil. A mãe, empregada doméstica, e o pai, pintor de paredes, sempre cuidaram da filha como uma joia, mas foram os irmãos mais velhos, Vanderlei e Augusto do Tamborim, bons vendedores de pinhão, que ajudaram a sustentar a família para Valdeonira estudar.

Normalista, ela deu aulas em várias escolas públicas da região e, já estava quase se aposentando no magistério, quando passou para estudos sociais no vestibular da Udesc (Universidade do Estado de Santa Catarina). E não parou mais de estudar, fez especialização em  história e pós-graduação em multiculturalismo.

 Precisava entender os motivos da discriminação do negro no próprio Carnaval, apesar de sua importância cultural e social. “Nunca me conformei com a falta de gestão pública, com o desinteresse estrutural dos governantes”, critica. 

O Carnaval entrou para não sair mais da vida dela após o casamento com Altamiro Dascuia, que, além de músico, era multiatleta. Considerado bom goleiro, corredor quase imbatível nos 100 metros rasos e jogador que também sabia o que fazer com as bolas de basquete e vôlei, era ritmista dos bons e, em 60 anos de escolas de samba, passou por todos os cargos na Copa e na Protegidos. “Ainda hoje ele é adorado pelas duas”, diz a primeira dama da verde e rosa do Morro do Céu, que nos últimos 15 anos aprendeu também a cuidar do marido como enfermeira. “Primeiro foi o derrame, que o deixou surdo. Depois, uma queda doméstica com fratura da cabeça do fêmur.”

Dascuia

Morro do Céu

 4 de novembro de 2011

Verde e rosa

Componentes: 2.300

Alas: 23

Enredo: Da água, da terra, do fogo e do ar, surge a energia para a vida, eletrizando essa avenida a Dascuia com seu samba quer contagiar

Participe do grupo e receba as principais notícias
da Grande Florianópolis na palma da sua mão.

Entre no grupo Ao entrar você está ciente e de acordo com os
termos de uso e privacidade do WhatsApp.
Loading...