Conheça a família de SC que foi buscar um filho e retornou com cinco irmãos em adoção

Família que adotou cinco irmãos fala sobre o amor e os desafios do preconceito racial

Amor incondicional, coragem e determinação para lidar com os preconceitos da sociedade. Foi assim que a família Lembeck, de descendência alemã, decidiu adotar cinco crianças negras no ano de 1995, em Salete, no Alto Vale do Itajaí.

Quase 30 anos depois, ao ver os filhos formados, profissionais e já com novas famílias, os pais adotivos relembram com amor da decisão assertiva. A linhagem é composta por quatro irmãos. Um deles estava na fila de adoção quando foi chamado para buscar uma criança que havia acabado de nascer em Joinville.

Ao adotar uma criança, família voltou com uma “escadinha” de irmãos – Foto: Internet/Arquivo Pessoal/NDAo adotar uma criança, família voltou com uma “escadinha” de irmãos – Foto: Internet/Arquivo Pessoal/ND

Quando foi conhecer o novo membro do lar, o casal retornou com outros quatro. Por coincidência, o mesmo número de pais e mães dos  Lembeck, além de uma cunhada movida pelo mesmo sentimento. Foi aí que eles se uniram e cada família resolveu adotar um dos irmãos para não os separar.

A história começou pelo casal Udo e Evanir  Lembeck, esta última já falecida. Eles tinham três filhos, mas não sentiam a família completa. Receberam uma ligação de Joinville. Era o nascimento de Monique e a notícia de que eles seriam os pais da pequena. Na época, a filha biológica mais nova do casal tinha dois anos.

Evanir precisou providenciar com urgência o enxoval da pequena. Recorreu à cunhada Mari  Lembeck, esposa de Hugo. Eles tinham uma loja de confecção. Quando foi pagar as roupas do novo bebê, o irmão de Hugo brincou: “se tiver mais um irmão, traz porque aqui sobra amor”.

Mais quatro irmãos

Não tinha mais um. Tinham quatro. Os irmãos de Monique estavam em um orfanato no mesmo município que ela nasceu. O mais velho tinha quatro anos, enquanto o mais novo tinha 2. A família não teve a intenção de separar os irmãos. E foi assim que a família  Lembeck ganhou, de uma só vez, cinco novos integrantes.

A família ganhou cinco integrantes de uma vez só – Foto: Internet/Arquivo Pessoal/NDA família ganhou cinco integrantes de uma vez só – Foto: Internet/Arquivo Pessoal/ND

“Sempre tivemos o desejo de ser pais adotivos. Mas não queríamos escolher a criança e realmente preferíamos que ela fosse negra. Fomos construindo isso até que nos deparamos com esses presentes”, relembra Marilene Neves Vargas Lembeck, a Mari, que hoje é mãe de William.

Divididas por idade

Segundo ela, as crianças foram divididas por idade. As cinco famílias prometeram permanecer próximas, para eles não deixarem de conviver.

Maria do Carmo e Ingo ficaram com o mais velho, Jairo. Willian se tornou o irmão caçula da família de Mari e do Hugo. Micael, que tinha 2 anos, completou a família do casal Francisco e Rosa.

A Marlise Tambosi, irmã da Mari, e o marido, Odalcir, adotaram o Fábio, 3 anos. E a Monique, que tinha acabado de nascer, ficou com a família de Udo e Ivanir.

As crianças foram adotadas e passaram toda a infância com os irmãos de sangue e os de coração. O batizado deles ocorreu no mesmo evento. Em 2018, a família  Lembeck foi, inclusive, homenageada pelo cantor Tiaguinho, durante um desafio intitulado “acredito no amor”.

Irmãos foram batizados juntos – Foto: Internet/Arquivo Pessoal/NDIrmãos foram batizados juntos – Foto: Internet/Arquivo Pessoal/ND

Preconceito

Amor e determinação definem esta família. Mas, nem tudo foi tão fácil. Segundo Mari, mãe de Willian, foi preciso aprender a lidar com os preconceitos da sociedade. “As pessoas olhavam diferente e isso nos incomodava”, relembra.

Segundo ela, a família nunca imaginou que passaria por situações difíceis, envolvendo o preconceito racial. “Nunca fomos racistas. Por esse motivo, não imaginávamos que as pessoas pudessem ser”, diz a mãe de Willian.

Willian sofria preconceito, segundo a mãe adotiva – Foto: Internet/Arquivo Pessoal/NDWillian sofria preconceito, segundo a mãe adotiva – Foto: Internet/Arquivo Pessoal/ND

O filho, conforme Mari, foi discriminado na escola por uma das professoras. Em outra oportunidade, durante um passeio da família, foi acusado de roubo quando ainda era criança. Ele levava uma cadeira de plástico com os outros irmãos, mas deixou a dele cair. “Deve ter roubado de alguém”, disse um grupo de jovens que passava no local.

Outra experiência difícil lembrada pela mãe, foi quando ele tentou pagar um DVD que continha um jogo de vídeo game. Ele estava com o outro irmão, que foi questionado se Willian realmente pertencia à família.

Mari e Hugo nunca aceitavam. Iam até às pessoas e queriam saber o porquê da crueldade. Os irmãos também sofriam, segundo ela. “Notadamente ele era discriminado pela cor”, afirma.

A situação, também vivenciada pelos irmãos, fez parte da adaptação, das rotinas e eram encaradas como um grande desafio, mas não maior que todo amor envolvido. “A adoção não foi um presente para o William. Ela foi um presente para nós”, diz emocionada.

As crianças cresceram, mas os pais não abriram mão da convivência – Foto: Internet/Arquivo Pessoal/NDAs crianças cresceram, mas os pais não abriram mão da convivência – Foto: Internet/Arquivo Pessoal/ND

Lei Nacional da Adoção

Natural de Ituporanga, também no Alto Vale do Itajaí, o ex-deputado federal João Matos é autor da Lei Nacional de Adoção, que surgiu para desburocratizar o processo no Brasil.

A história por trás da discussão é triste. A lei, denominada Cléber Matos, levou o nome do filho adotivo do ex-parlamentar, que morreu aos 15 anos, vítima de um tumor no cérebro.

Matos passou a se interessar pelo tema quando decidiu ser pai adotivo. Na época, em 1987, o estado era “pobre” em ações do parlamento relativas à adoção. Mas foi em 2000, quando o filho morreu, que ele mergulhou no tema para a anestesiar a dor.

Foram seis anos de estudo. A Lei Nacional da Adoção, que regulamenta os critérios, se transformou em lei no ano de 2009.

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