Conheça a médica por trás do Alô Saúde que salva vidas em Florianópolis

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Fernanda Melchior criou os protocolos de orientação a pacientes com suspeita de Covid-19 para a Secretaria de Saúde da Capital catarinense

Compreender o paciente em sua totalidade, para além de uma lista de sintomas. Foi o que fez Fernanda Melchior, de 31 anos, escolher ser médica de família e comunidade em Florianópolis.

Fernanda é uma das tantas mulheres que combatem há um ano a pandemia de Covid-19 de frente em Santa Catarina. Por sua história e de suas semelhantes, o ND+ homenageia a todas neste 8 de março, Dia Internacional da Mulher.

A médica Fernanda Melchior é responsável pelo Alô Saúde Floripa e também realiza consultas de modo remoto durante a semana – Foto: Leo Munhoz/NDA médica Fernanda Melchior é responsável pelo Alô Saúde Floripa e também realiza consultas de modo remoto durante a semana – Foto: Leo Munhoz/ND

“Receitar um remédio quando um paciente tem dor no estômago, sem saber que ele perdeu o emprego ou está se separando – e  tudo isso influencia na dor que sente -, nunca fez sentido para mim”, assegura ela, que viu o surgimento e o avanço da Covid-19 impor desafios até então inimagináveis à rotina dos profissionais de saúde.

E coube a ela também a missão de definir os protocolos, estabelecer os critérios clínicos de orientação e criar os algoritmos do Alô Saúde, serviço de atendimento pré-clínico gratuito oferecido pela prefeitura da Capital, que direciona os pacientes com suspeita de Covid-19 conforme os sintomas e a necessidade de tratamento.

“Tudo o que temos de evidências científicas ‘traduzimos’ para que os médicos consigam se comunicar melhor com os pacientes. Identificamos se o que a pessoa tem é de menor ou maior potencial de gravidade para garantir que ela vá ao local certo”, ressalta ela, que atua no departamento de Gestão Clínica da Secretaria de Saúde de Florianópolis.

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Desgaste e lágrimas

Apaixonada por “cuidar de gente por completo”, a médica goiana, que também atende no Centro de Saúde do bairro Trindade, conta que tem vivido altos e baixos na linha de frente de combate à doença.

Envolvida em uma rotina desgastante, intensificada nas últimas semanas devido ao aumento dos casos no Estado, ela chega a trabalhar 16 horas por dia quase sem intervalo.

Envolvida em uma rotina desgastante, a médica chega a trabalhar 16 horas por dia quase sem intervalo – Foto: Leo Munhoz/NDEnvolvida em uma rotina desgastante, a médica chega a trabalhar 16 horas por dia quase sem intervalo – Foto: Leo Munhoz/ND

“A Medicina sempre foi a minha paixão, mas, ultimamente, quando eu levanto de manhã e vou para o centro de saúde, fico pensando no que vai acontecer”, revela, sem segurar as lágrimas, sobre o clima de incerteza que se abateu sobre o Estado recentemente. 

Entre as suas principais angústias está a falta de políticas públicas que garantam o isolamento social em um momento em que a saúde vive um colapso em Santa Catarina.

“Enquanto eu isolo aquela pessoa e a protejo só por um momento, ela continua sem auxílio emergencial, em um trabalho precário. Então, ela não enxerga outra saída a não ser sair e se arriscar a conviver com o vírus”, destaca.

Para Fernanda, presenciar o luto das famílias afetadas pela pandemia, seja pela morte ou pelo afastamento de seus entes queridos, tem sido uma das faces mais dolorosas impostas pelo coronavírus.

“Em um atendimento, orientei um senhor de idade bem avançada que tinha sido diagnosticado com a Covid-19 a ficar isolado de sua família. E ele me perguntou: ‘Não tem como fazer diferente? Eu não sei mais quantos aniversários eu vou ter’. Emocionada, respondi que para ele ter outros aniversários ao lado da família, não tinha como fazer diferente”, lembra. 

Em outra ocasião, ela precisou dar o diagnóstico a uma paciente que tinha acabado de perder a mãe com a mesma doença. 

“Eu tive que dizer que ela estava com a mesma doença que tirou a mãe dela. Como explicar que 80% das pessoas ficam bem, se 100% de tudo, para aquela pessoa, deu errado?”, questiona.

O caminho é pela ciência

Fernanda reforça que os protocolos do Alô Saúde foram construídos com base em evidências científicas e que, por enquanto, não há uma medicação aprovada pelas autoridades médicas e sanitárias capaz de prevenir ou tratar a Covid-19, doença que até o dia 5 de março matou 484 pessoas só na Capital. 

No entanto, ao longo dos últimos meses, a médica precisou responder diversas vezes a órgãos de classe sobre os critérios estabelecidos no projeto e reforçar que não há “pílula mágica” contra a doença.

“Cheguei a me questionar se não perderia meu CRM [registro no Conselho Regional de Medicina] por defender o que a Ciência diz”, pontua.

Fernanda reforça que os protocolos do Alô Saúde foram construídos com base em evidências científicas e não há “pílula mágica” – Foto: Leo Munhoz/NDFernanda reforça que os protocolos do Alô Saúde foram construídos com base em evidências científicas e não há “pílula mágica” – Foto: Leo Munhoz/ND

Porém, apesar do clima de incerteza no qual a pandemia deixou todos, ela faz questão de traçar planos para manter viva a esperança e conta como pretende estar quando o Dia da Mulher chegar novamente.

“Para o próximo ano quero estar bem para continuar a fazer o que eu amo, que é ser médica de família e comunidade, atender gente e, ao mesmo tempo, ajudar a construir a ciência”, conclui.

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