Conheça o professor de Joinville que sofreu quatro acidentes aéreos

Além de sobreviver aos desastres, Paulo Roland Unger é conhecido por outras peripécias, como andar com uma cobra no pescoço pela faculdade

Já pensou em como seria chegar aos 89 anos e poder dizer que fez tudo o que queria na vida? Uma satisfação dessas, com certeza, não é pra qualquer um, mas é assim que se sente Paulo Roland Unger, conhecido professor de Joinville. “O que eu queria fazer, eu consegui”, comemora.

Quem vê o senhorzinho na tranquilidade do Residencial Bethesda, onde mora há dois anos, pode até pensar que a vida dele foi sempre uma calmaria. Mas Paulo tem no currículo diversas peripécias: entre elas, quatro acidentes aéreos.

Paulo Roland Unger comemora a vida bem vivida – Foto: Bethesda/NDPaulo Roland Unger comemora a vida bem vivida – Foto: Bethesda/ND

O alemão, a Medicina e a enchente

Filho de pai alemão e mãe brasileira, ele nasceu em Corupá e estudava em uma escola alemã quando o idioma foi proibido no Brasil durante a campanha de nacionalização do governo Vargas. “Só tinha uma escola brasileira e era para meninas. Então eu fui pra lá sabendo duas palavras: bom dia. Foi terrível. Alguém sempre xereteava para a irmã que eu tinha falado alemão no recreio e pronto, lá vinha uma surra de vara de marmelo”, lembra.

Aos 12 anos, ele veio para Joinville e, depois de se formar no colégio, partiu para Florianópolis para fazer uma faculdade. A princípio, a sua escolha era Medicina. “Eu falei para o meu pai que queria Medicina e ele me colocou para trabalhar como assistente de um médico. Um mês depois, eu cheguei pra ele e disse que não queria mais. O médico, de vez em quando, tem que ver alguém morrer e eu detesto isso”, destaca.

Ao desistir de ser médico, Paulo partiu para a Odontologia, área em que se formou e trabalhou por dez anos em Corupá, até que uma enchente prejudicasse seu trabalho na cidade. “A enchente carregou a usina que fornecia energia elétrica e ligaram a rede a um transformador, mas a energia era tão ruim que os equipamentos do meu consultório não funcionavam: não acendia sequer o raio X”, conta. Por isso, toda a família se mudou para Joinville em 1962.

Mais um feito: Paulo foi o primeiro idoso vacinado contra a Covid-19 em Joinville – Foto: Juan Todescatt/NDTVMais um feito: Paulo foi o primeiro idoso vacinado contra a Covid-19 em Joinville – Foto: Juan Todescatt/NDTV

Sobrevivente de quatro acidentes aéreos

Na maior cidade de Santa Catarina, tudo ia bem até que Paulo sofreu o seu quarto acidente aéreo. Nos três primeiros, ele havia sobrevivido sem ferimentos depois de pousos de emergência. No último, porém, o resultado foi 60 pontos no rosto, 23 fraturas no braço, 45 dias no hospital e dois anos usando gesso.

“Eu estava como convidado e nós decolamos com um nevoeiro colado ao chão. Com um minuto e meio de voo, a 150 metros de altura, o motor parou. O nevoeiro impediu que conseguíssemos ver a pista e pousamos no meio do mato. Arrebentou o avião, não se aproveitou nada”, relembra.

Apesar do susto e da lenta recuperação, o feito de sobreviver a quatro acidentes rende risadas. “Quando eu tive o terceiro, todo mundo dizia que eu poderia andar de avião até não querer mais porque nunca ninguém passou de três acidentes. Mas eu passei”, destaca.

E quem pensa que ele teria ficado traumatizado com tantos desastres aéreos está enganado. Paulo foi para a Europa quatro vezes e visitou quase todos os países da América do Sul. O lugar que mais gostou foi Machu Picchu, no Peru. “É fantástico, a gente está acima das nuvens, é espetacular. Foi o local mais impressionante que já fui”, fala o professor.

Cobra no pescoço e a carreira como professor

Sem poder exercer a profissão depois do acidente, Paulo optou pela sala de aula e foi ensinar Biologia. No colégio, foi pressionado a se formar em um curso de Licenciatura para poder continuar na atividade e, por isso, acabou cursando Geografia e passou a fazer parte do quadro de professores da antiga FURJ, hoje Univille.

Por lá, ele era conhecido por andar com uma cobra de 1,80 m de comprimento no pescoço. “Eu andei com ela, uma caninana, por seis anos dentro do carro. Foi o seguro mais barato até hoje: ela só comia um camundongo por mês e, de vez em quando, eu colocava ela no pescoço, entrava na sala e era uma festa”, conta.

Paulo nunca se casou e nem teve filhos, mas não lamenta. “Quando eu ia casar, minha noiva faleceu e eu nunca mais encontrei ninguém parecido com ela. Por isso, tive liberdade, tudo que eu ganhava eu gastava em viagens”, fala.

Aos 89 anos, ele diz não ter arrependimentos e nem outros planos. “A minha viva foi bem vivida, não posso me queixar”.

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