Crianças com autismo podem fazer natação de graça em Florianópolis; confira

Projeto proporciona aos alunos desenvolvimento social e psicomotor assistidos por professores especializados na Piscina Pública da Passarela Nego Quirido

Crianças com autismo ganharam a oportunidade de desenvolver suas capacidades motoras e sociais em aulas de natação gratuitas na Piscina Pública da Passarela Nego Quirido, em Florianópolis.

Idealizado pelo Projeto Estimular, a iniciativa pioneira em Santa Catarina ganhou vida nesta semana através da Secretaria de Cultura, Esporte e Juventude da Prefeitura da Capital.

As aulas ocorrem duas vezes por semana, todas as terças e quintas-feiras, das 13h às 15h, divididas em quatro turmas com no máximo cinco alunos e professores especializados.

crianças com autismo nataçãoCrianças com autismo realizam atividades de estimulação aquática na piscina da Passarela Nego Quiridu – Foto: Leo Munhoz/ND

Já são 20 alunos inscritos no projeto. Pela demanda, a secretaria estuda abrir novos horários.

As inscrições seguem abertas. Elas são feitas pelo perfil do Instagram do Projeto Estimular e os interessados devem entrar em contato via DM (Mensagem Direta).

Segundo informações da Secretaria de Cultura, Esporte e Juventude, a ideia é que as aulas sejam realizadas durante o ano inteiro, inclusive no inverno, já que a piscina tem aquecimento.

Projeto de terapia gratuita

O projeto nasceu há cerca de um mês, por uma iniciativa bem-sucedida da idealizadora, que tem vasta experiência em cuidados com crianças autistas.

“A ideia surgiu por eu ser mãe de uma criança autista, meu filho fazia terapia aquática na rede particular, por isso, sei que é uma terapia muito importante para essas crianças, porém muito cara. Tive vontade de oferecer para mães que não podem e que, muitas vezes, tem filhos desassistidos neste sentido”, diz Laryssa Smith, idealizadora do Projeto Estimular.

Ao saber da existência de uma piscina pública em condições de uso na Capital, ela procurou a prefeitura, que abraçou o planejamento.

Conhecida nas redes sociais por falar sobre autismo há mais de cinco anos, Laryssa Smith usou de influência digital para encontrar profissionais voluntários para a iniciativa.

É o caso de Alyne Vieira, de 36 anos, especialista na área, que ficou animada com a ideia.

“A Laryssa divulgou no Instagram que estava procurando profissionais voluntários para trabalhar com crianças autistas. Eu sou mãe de autista, pedagoga e neuropsicopedagoga, e o que eu faço em clínica é trabalhar na maior parte das vezes com crianças autistas. Então, eu super topei”.

natação na piscina da passarela nego quiridoProfessora Alyne Vieira com o aluno Pedro Rhyan Bragança, de cinco anos – Foto: Leo Munhoz/ND

Diversão, aprendizado e desenvolvimento

As atividades dentro da água são fundamentais para o desenvolvimento das crianças com TEA (Transtorno do Espectro Autista). Elas são conduzidas por profissionais dedicados ao tema.

“Os voluntários são especializados em autismo. A água traz uma sensação de relaxamento, então, as crianças ficam mais focadas para aprender. Isso traz vários benefícios para o desenvolvimento dessas crianças”, destaca Laryssa Smith.

crianças e pais na piscinaCrianças têm aulas gratuitas com professores especializados – Foto: Leo Munhoz/ND

De acordo com a professora Alyne Vieira, além de divertir as crianças, o trabalho atinge diversas áreas de capacitação.

“Aqui dentro da piscina o que a gente faz com as crianças é uma estimulação para coordenação motora, desenvolvimento de fala, alfabetização… Trabalhamos com materiais lúdicos e com técnicas para acalmar a criança dentro da água. É um trabalho bem importante para todo o desenvolvimento motor, psíquico e pedagógico deles.”

Piscina ficou abandonada por mais de 10 anos

O secretário municipal de Esporte, Cultura e Juventude, Ed Pereira, ressalta que o espaço estava completamente inutilizado até pouco tempo atrás.

“A piscina da Passarela Nego Quirido ficou abandonada por mais de 10 anos. Hoje, nós temos uma piscina coberta e aquecida. Eu já vinha afirmando que ela seria utilizada talvez até na madrugada, se necessário”, diz.

“A piscina não era utilizada, coberta nem aquecida. Foi feita toda a estrutura de concreto e, há dois anos e meio atrás, quando a gente recebeu a missão do prefeito Gean para fazer funcionar, abrimos a piscina por duas temporadas ainda sem cobertura. Depois conseguimos a emenda de orçamento impositivo dos vereadores, recurso que foi direcionado para a cobertura e aquecimento da piscina”, diz Ed.

Hoje, uma piscina como essa, coberta, aquecida e com cinco raias, deve ser avaliada em R$ 1,4 milhão”, avalia o secretário.

Além do projeto para crianças com autismo, são realizadas aulas de natação para 200 crianças carentes, às segundas e quintas-feiras, separadas em quatro turmas.

Também são ministradas aulas de surf e, em breve, terá para pescadores. Todas gratuitas.

Novas estruturas espalhadas pela cidade

Ainda de acordo com o secretário Ed Pereira, já há um planejamento para abrir uma nova piscina na região Continental de Florianópolis.

“O plano é repetir a estrutura no Continente de imediato. Já foi autorizado pelo prefeito Gean. Ele me pediu para levantar três áreas públicas e dessas vamos escolher qual a mais preparada para receber o equipamento”, completa.

As três áreas estudadas são localizadas na Beira-Mar Continental, na região do Estreito, e no Monte Cristo.

“Como projeto, devemos gastar uma média de R$ 400 mil/ano em aulas, de natação, hidro e polo aquático, de segunda à sábado”, informa Ed.

Como a demanda é satisfatória, a pasta já pensa em estender o projeto para outras regiões da Capital.

“Futuramente, pensamos em buscar uma piscina no Sul e no Norte da Ilha porque a demanda realmente mostra que vale a pena. Vivemos em uma ilha, com praias, as crianças têm que ter o contato com a água”, conclui.

Alegria e empolgação marcam os alunos

Entre as crianças que iniciaram as aulas nesta semana está Miguel Correia Palacios, de 7 anos. Segundo Andreia Correia Palacios, ele teve sua ansiedade potencializada em razão da pandemia e do isolamento social.

“O Miguel adora água, sempre que ele fala de piscina, fica muito animado. Estar em casa nesses tempos de pandemia foi bem difícil, a gente está retomando agora, bem animados com a iniciativa”, conta.

aluno de nataçãoAndreia Correia e o filho, Miguel, de 7 anos – Foto: Leo Munhoz/ND

De março até setembro de 2020, Miguel ficou sem nenhum tipo de atividade. “Ele ficou bem ansioso, algumas terapias aumentaram por causa dessa mudança brusca”, diz Andreia.

Ela conta que descobriu a iniciativa pelo Instagram de Laryssa Smith e decidiu inscrever o filho. Apesar do entusiasmo, ela preferiu esperar para contar a notícia ao filho.

“Por causa da questão da ansiedade, que é muito forte, eu só contei pra ele sobre as aulas hoje, um pouco antes de vir. Ele ficou muito feliz, bateu palmas, vibrou.”

crianças com autismo fazem nataçãoMiguel Correia Palacios se diverte na piscina da Passarela Nego Quiridu – Foto: Leo Munhoz/ND

Outro aluno que iniciou suas aulas no projeto nesta quinta-feira (18) foi Gustavo Santos Mariano, de 8 anos.

A mãe, Misleine Mariano Santos, conta que já notou o impacto positivo da atividade no comportamento do filho.

“Ele ficou um tempo parado, por conta da pandemia, não tinha o que fazer, ficava muito ansioso, agitado. E aí conseguimos essa aula para ele.  Depois de praticar atividades, ele fica mais animado e feliz”, finaliza.

aluno do projetoGustavo Mariano Santos, de 8 anos, ficou animado com as atividades de natação – Foto: Leo Munhoz/ND

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