Da cultura benzedeira ao ídolo do futebol: nos 188 anos, Biguaçu une passado e presente

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Cidade da Grande Florianópolis mantém os ares de interior, mesmo cortada por uma das mais movimentadas rodovias do Brasil

Se ainda há dúvida de que tradição e modernidade podem caminhar juntas, a cidade de Biguaçu, aos 188 anos completados nesta segunda-feira (17), mostra o contrário.

Com raízes fincadas na pesca e na agricultura, o município, que já foi Capital provisória de Santa Catarina por alguns meses de 1777 a 1778, conserva na sua gente a força de suas origens e uma perspectiva positiva de futuro.

De um lado, constrói-se o panorama de uma cidade que vê indústrias surgirem às margens da BR-101. De outro, as iniciativas que prezam pela sua história, costumes e natureza, com o povo nativo e os agregados no município.

Belezas naturais da cidade são patrimônio dos biguaçuenses – Foto: Leo Munhoz/NDBelezas naturais da cidade são patrimônio dos biguaçuenses – Foto: Leo Munhoz/ND

Quase dois séculos de história

Biguaçu nasceu como Vila de São Miguel da Terra Firme, em agosto de 1747, com a chegada dos primeiros açorianos à região. Com a ocupação, deu-se início à construção da primeira igreja da localidade, feita de pau-a-pique e telhas. Inaugurada em 1751, a obra foi dedicada a São Miguel Arcanjo e está de pé até hoje.

Igreja de São Miguel do Arcanjo foi construída nos primórdios da ocupação da cidade – Foto: Leo Munhoz/NDIgreja de São Miguel do Arcanjo foi construída nos primórdios da ocupação da cidade – Foto: Leo Munhoz/ND

Em 17 de maio de 1833, a cidade se desvinculou administrativamente de Florianópolis, que ainda se chamava Desterro à época. Com a autonomia e a sede de governo municipal instalada às margens do Rio Biguaçu, em 1910 o munícipio recebe o nome de ‘Biguaçu’.

Atualmente, a principal igreja da cidade, a Paróquia São João Evangelista, está localizada na praça Nereu Ramos, perto da Prefeitura de Biguaçu e do Mercado Público, além da principal região comercial do local.

Atual estrutura da igreja matriz de Biguaçu, construída em 1941 – Foto: Leo Munhoz/NDAtual estrutura da igreja matriz de Biguaçu, construída em 1941 – Foto: Leo Munhoz/ND

Biguaçuense raiz

A dualidade local fica evidente para quem caminha pelo Centro da cidade, localizado à direita, para quem segue ao Norte, da movimentada BR-101 – que corta o município ao meio. Ali, é possível encontrar um clima de aconchego, e até mesmo de interior, ainda que uma das principais rodovias do país esteja a poucos metros da praça central.

Em frente à igreja matriz, a vida passa tranquilamente. Enquanto os mais jovens cruzam a praça em passos apressados, os mais velhos parecem não perceber as horas passarem. Sentados em bancos de concreto e com os cotovelos apoiados numa “mesinha de dominó”, vivenciam todas as emoções da partida animada.

É assim que Aclici João de Campos, o ilustre Seu Pialo, vive seus dias na região. Agora, o ex-vereador e aposentado aproveita para circular pela cidade, curtir o ambiente e rever os conhecidos. Mas no caso do dominó, ele diz que não entra na disputa. “Eu não jogo, mas fico acompanhando o movimento”.

Nascido no bairro Três Riachos, Seu Pialo é figurinha conhecida na cidade – Foto: Flávio Tin/Arquivo/NDNascido no bairro Três Riachos, Seu Pialo é figurinha conhecida na cidade – Foto: Flávio Tin/Arquivo/ND

Depois de seis mandatos como vereador e uma presidência na Câmara de Vereadores, todos em Biguaçu, ele imagina um futuro próspero. “Vai melhorar muito ainda, está crescendo muito com a instalação das empresas na cidade.”

Para seu Pialo, depois de uma vida inteira no município, ele ainda lembra da sua gente com as melhores impressões. “São bons, humildes, gostam de ajudar. E aqui tem gente de tudo que é canto: do Pará, de Pernambuco e até da Venezuela!”.

Fé na benza e no futuro

Em seus 74 anos vividos, Vera Teresa Cidade de Jesus passou 30 deles no município de Biguaçu. Agente comunitária de saúde por 15 anos e benzedeira desde os 13, ela se orgulha:

“Hoje não tem quem não me conheça aqui, e não tem quem eu não conheça. Ser agente de saúde e benzedeira me fez conhecer muita gente e ser conhecida. É fora de série”.

Vera Teresa está há três décadas no município e não pensa em sair – Foto: Leo Munhoz/NDVera Teresa está há três décadas no município e não pensa em sair – Foto: Leo Munhoz/ND

Com o passar dos anos, a tradição da benza se enfraqueceu, mas não acabou. Vera conta que atualmente é muito difícil encontrar benzedeiras na cidade. Segundo a antropóloga e historiadora Ana Lúcia Coutinho, a cultura era muito forte na região.

“Antigamente, você podia ir em qualquer bairro, sempre encontrava uma benzedeira. Tínhamos benzedeiras muito famosas, as pessoas recorriam a elas logo após tomar os remédios na farmácia”.

Sobre o município e o povo biguaçuense, Vera relata o carinho que nasceu com o passar do tempo, desde que saiu do Paraná. “De modo geral, eu posso dizer que é um povo bem amigo, bem acolhedor. Eu adoro isso aqui, e não sairia. Tentei uma vez, mas não fiquei nem um ano fora. Esse é o meu canto. Eu amo Biguaçu”.

E com as três décadas vividas na cidade, a benzedeira também projeta o futuro. “Eu sei que pode ser bem mais. A nossa política está ganhando muitos jovens, com cabeça para um futuro bom. Pode funcionar um casamento entre a tradição do povo mais velho e o pensamento dos mais jovens”, finaliza.

Dos gramados da cidade a ídolo do futebol

Um dos grandes ídolos do esporte catarinense, Marquinhos é nascido, criado e ainda morador de Biguaçu. “Moro aqui desde sempre, meus filhos nasceram e vivem aqui”, conta.

Os gramados da cidade foram palco para os primeiros passos do atleta no esporte. E lá ele continua usando sua influência para impulsionar o futebol.

Marquinhos se despediu dos gramados em 2019, em clássico contra o Figueirense – Foto: Marco Santiago/Arquivo/NDMarquinhos se despediu dos gramados em 2019, em clássico contra o Figueirense – Foto: Marco Santiago/Arquivo/ND

“Meu pai tem um time amador, o Benfica, onde eu comecei a jogar futebol. Existem outros clubes amadores em Biguaçu, como o Bola na Rede, e eu estou sempre lá também. É importante inspirar as crianças daqui a seguirem o mesmo caminho no esporte”.

Pela proximidade de Florianópolis, é grande a quantidade dos avaianos em Biguaçu, como observa Marquinhos.

“Não sei se chegou a aumentar a torcida avaiana aqui por minha causa, mas o que eu sinto é um respeito. Aqui tem uma torcida muito grande, e todo mundo sabe que os times da Capital têm muita força em Biguaçu. Eu devo ter jogado pelo menos no segundo time de muita gente daqui”, analisa.

Hoje no cargo de dirigente do clube da Capital, Marquinhos se considera um “cidadão privilegiado” de sua cidade natal.

“Onde vou, sou respeitado. As pessoas pedem pra bater foto, percebo um carinho muito grande do povo de Biguaçu”.

O pássaro grande

Afinal, o que significa “Biguaçu”? Há algumas teorias difundidas pela região, como explica a historiadora e antropóloga Ana Lucia Coutinho: “A primeira versão e mais aceita, deriva de Biguá- Açu, que significa pássaro grande, que habita as margens do mar de Biguaçu”.

A fundadora e presidente do Grupo Arcos Pró-Resgate da Memória Histórica, Artística e Cultural de Biguaçu também revela a segunda teoria. Contada pelo padre Raulino Reitz, diz que o nome vem de uma árvore muito comum na vegetação, chamada popularmente de “Baguaçu”, mas é uma versão que não ganhou notoriedade.

Balneário de São Miguel é ponto turístico da cidade que completa 188 anos – Foto: Leo Munhoz/NDBalneário de São Miguel é ponto turístico da cidade que completa 188 anos – Foto: Leo Munhoz/ND

Existe ainda uma terceira versão, mais recente: “é de um jornalista, o Ozias Alves Júnior, que faleceu de Covid-19 em abril deste ano. Ele descreve que o nome ‘Biguaçu’ deriva da palavra “Guambygoasu”, que significa cerca grande, ou cerca de paus”.

“A gente destaca a primeira, do Biguá-Açu, porque faz parte do patrimônio secular do povo. Não existe uma decisão oficial sobre isso, e nem deve haver”, destaca a especialista.

Baleia, malária e desenvolvimento

As raízes da história de Biguaçu se dão em meio ao processo da caça da baleia, como relembra a historiadora. “Essa particularidade foi um fator econômico que contribuiu muito no começo da cidade”, observa.

Outro acontecimento histórico que causou impacto populacional em Biguaçu foi no século 19 – mas dessa vez, negativo.

“Houve um fato histórico relevante para a dispersão populacional de Biguaçu, que foi a malária. Ela contribuiu muito para que a população saísse naquela época”, explica Ana Lúcia.

Cortado pela BR-101, município se tornou local estratégico para instalação de indústrias e empresas – Foto: Leo Munhoz/NDCortado pela BR-101, município se tornou local estratégico para instalação de indústrias e empresas – Foto: Leo Munhoz/ND

Porém, Biguaçu vive nos últimos 30 anos um novo período de prosperidades, como observa a especialista.

“Economicamente tivemos um grande avanço nos anos 1970, que atraiu muita indústria em Biguaçu. Hoje nos destacamos por elas, assim como o polo universitário. Também temos a marina e o turismo é muito forte com as cachoeiras, trilhas ecológicas… Ainda temos nossos produtores rurais, que mantêm uma ligação na forma de fazer com a sua identidade, como doces e pães caseiros”, conclui.

Resgate das tradições e a cultura de Biguaçu

Os avanços industriais no município e a localização que pode parecer privilegiada ao ser cortada pela BR-101, também causaram preocupações para quem preza pela rica história e cultura de Biguaçu.

Museu Etnográfico Casa dos Açores abriga a história e as tradições que constroem a identidade do local – Foto: Leo Munhoz/NDMuseu Etnográfico Casa dos Açores abriga a história e as tradições que constroem a identidade do local – Foto: Leo Munhoz/ND

É o que conta Ana Lucia Coutinho, fundadora do Grupo Arcos Pró-Resgate da Memória Histórica, Artística e Cultural de Biguaçu.

“A criação deste projeto veio por uma necessidade. Eu dava aulas na UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) nos anos 1980, e sentia que a cidade tinha sido muito destruída pela BR-101, e vinha destruindo seu patrimônio. Então, um grupo de voluntários, liderados por mim, surgiu para fazer a cidade entender a importância do patrimônio histórico de Biguaçu. A cidade precisava salvaguardar o seu patrimônio”, ressalta.

O grupo passou a agir em prol da preservação da cultura imaterial da cidade, mas foi muito além disso.

“Realizamos várias ações com o intuito de preservar o sítio histórico de São Miguel, para que as festas de padroeiro não tivessem fim. Os cuidados com as praias, as músicas antigas, também resgatamos cantigas antigas, entre muitas outras medidas”, relata a historiadora.

Sucesso e influência para todo Estado

A percepção dos catarinenses sobre Biguaçu tem sido positiva, segundo Ana Lucia. “Acho que, acima de tudo, resgatou a autoestima das pessoas, e depois até surgiram outros grupos”.

Conforme a antropóloga relata com orgulho, o projeto Arcos Pró-Resgate ganhou notoriedade em outras localidades.

“Passou a ser respeitado em todo litoral de Santa Catarina e até em outros estados. Percebi muita influência. O grupo também tinha uma preocupação com a divulgação. E outro fator que abordamos é o do planejamento urbano de Biguaçu. É um desafio muito grande que ainda temos”, diz.

O Aqueduto São Miguel foi construído no século XIX, e auxiliava na canalização da água da represa, na Cachoeira de São Miguel, até a praia, abastecendo o povoado da época – Foto: Leo Munhoz/NDO Aqueduto São Miguel foi construído no século XIX, e auxiliava na canalização da água da represa, na Cachoeira de São Miguel, até a praia, abastecendo o povoado da época – Foto: Leo Munhoz/ND

Natural de Biguaçu e com uma trajetória voltada à cultura de sua cidade, Ana Lucia chegou ao cargo de presidente da FCC (Fundação Catarinense de Cultura) em janeiro de 2019, onde ficou até março de 2021.

O período foi aproveitado para trazer um olhar ainda mais especial para a preservação cultural do município, e realizar um projeto de muita importância.

“Em 2018, já havíamos doado todo nosso acervo ao museu da Casa dos Açores. Até então era a única casa pública da cultura açoriana no Brasil. Hoje, o Arcos existe só a instituição, o acervo foi todo doado. A Casa dos Açores é muito importante, porque é uma entrada para Florianópolis, para o Rio Grande do Sul, para o Uruguai. É uma vila que congrega um patrimônio histórico muito importante para o Brasil. Atualmente o projeto está praticamente findado”, conta.

Patrimônio histórico é “sem igual no Brasil”

A paixão que motivou uma vida de lutas pela história da cidade não é à toa: para Ana Lucia, o patrimônio histórico de Biguaçu é sua maior particularidade.

“Acho que não tem no Brasil um igual ao nosso. Por conta do conjunto, temos um patrimônio luso-brasileiro que é tombado e riquíssimo”.

Mercado Público de Biguaçu é referência entre os pontos tradicionais da cidade – Foto: Leo Munhoz/NDMercado Público de Biguaçu é referência entre os pontos tradicionais da cidade – Foto: Leo Munhoz/ND

Os biguaçuenses também têm suas características únicas, segundo a antropóloga.

“Biguaçu tem outras particularidades no saber fazer. Como por exemplo o Crivo, que é uma coisa muito específica e são poucas as cidades e pessoas que fazem isso”, destaca Ana Lucia sobre a prática de bordado.

“Assim como um fazedor de baleeira, que ainda existe aqui no município. Não quero dizer que eja o único, mas com certeza existem pouquíssimas pessoas que ainda fabricam baleeiras, e não canoas”, complementa.

Personagens notáveis do passado

A história de Biguaçu é intercalada também pela de grandes artistas de Santa Catarina e do Brasil.

É o caso de Carlos Alvim Barbosa, o Zininho, que nasceu em Três Riachos. O poeta escreveu o hino de Florianópolis, assim como dos municípios de Joinville e Rio Negro (PR).

Com uma carreira muito ligada ao samba e às rádios, Zininho teve até uma de suas composições cantada por Elis Regina, lá nos anos 1950.  A música “Se amor é isso” foi gravada na voz da estrela da música nacional.

Na década de 1960, Zininho também compôs diversos sambas-enredos para a escola Protegidos da Princesa. Ele morreu em 5 de setembro de 1998, no hospital Nereu Ramos, de enfisema pulmonar.

Zininho foi retratado em escultura de fibra produzida pelo grande artista plástico Plínio Verani. – Foto: Divulgação/NDZininho foi retratado em escultura de fibra produzida pelo grande artista plástico Plínio Verani. – Foto: Divulgação/ND

Outro nome que figura entre os moradores ilustres de Biguaçu é o poeta C. Ronald. Carlos Ronald Schmidt nasceu na Capital catarinense em 1935, mas viveu boa parte de sua vida como morador de Biguaçu.

Atuou como jornalista no Rio de Janeiro, um dos fundadores do Grupo Litoral, e foi colunista do jornal “O Estado”. É considerado um precursor na crítica de artes visuais em Santa Catarina.

“As Origens”, seu livro de estreia em 1971, foi seguido de “Ânua”. “Dias da Terra”, “As Coisas Simples”, “A Cadeira de Édipo”, “Como Pesa”, “Seguindo o Tempo” são trabalhos que consagraram sua obra na poesia brasileira.

Visceral na escrita e nas artes, ele também deixou um legado no campo visual, como pintor e escultor. Essa faceta, que era vista apenas por amigos, ganhou visibilidade em 2012, no Masc (Museu de Arte de Santa Catarina).

C. Ronaldo morreu no dia 25 de outubro de 2020, vítima de um câncer no pâncreas.

Carlos Ronald Schmidt, um dos mais ilustres moradores de Biguaçu, morreu neste fim de semana – Foto: Divulgação/NDCarlos Ronald Schmidt, um dos mais ilustres moradores de Biguaçu, morreu neste fim de semana – Foto: Divulgação/ND

A tradição de abrigar grandes escritores não para por aí. O dono do prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras de 2010, Salim Miguel cresceu e desenvolveu suas primeiras obras em terras biguaçuenses.

Considerado um dos patrimônios imateriais de Santa Catarina, o escritor publicou mais de 30 livros e também fez roteiros para o cinema, como sua participou na realização de “O preço da ilusão”, o primeiro longa-metragem catarinense, da década de 1950.

Nascido no Líbano, o escritor e jornalista chegou a Santa Catarina ainda na infância, quando seus pais se instalaram em Biguaçu.

O primeiro livro, “Velhice e outros contos”, foi publicado em 1951. Ao lado de Eglê Malheiros, professora, ensaísta e escritora, e de outros intelectuais da Ilha de Santa Catarina, criou o Grupo Sul, que revolucionou o meio cultural local com ideias que os modernistas já haviam disseminado nos anos de 1920 no centro do país.

Salim morreu no dia 22 de abril de 2016, em Brasília (DF). Na data, a Prefeitura de Biguaçu decretou luto oficial. “Sua obra contribuiu expressivamente para a cultura catarinense e brasileira”, escreveu em nota o então prefeito Ramon Wollinger.

Salim Miguel, que morreu em 2016 – Foto: Marco Santiago/Arquivo/NDSalim Miguel, que morreu em 2016 – Foto: Marco Santiago/Arquivo/ND