Duas cidades divididas pela guerra

Divisa entre os estados de Porto União e União da Vitória – Foto: Prefeitura Porto UniãoDivisa entre os estados de Porto União e União da Vitória – Foto: Prefeitura Porto União

Atravessar de um estado para outro em apenas um passo é algo comum para os moradores de Porto União e União da Vitória. Consideradas cidades irmãs apenas divididas por um trilho, os dois municípios são frutos da conhecida Guerra do Contestado.

Em 1917, logo após a Guerra, um novo traçado cortou ao meio a então Porto União da Vitória. A cidade que pertencia ao Paraná, ficou dividida com a vizinha Santa Catarina. União da Vitória ficou do lado paranaense, e o Porto foi para o lado catarinense.

A divisão deixou marcas relatadas, hoje em dia. A história da Secretária de Educação de Porto União é um grande exemplo. Dona Aldair Muncinelli nasceu no mesmo bairro que a mãe só que no registro Aldair é catarinense e a mãe paranaense.

Relatos de um tempo onde poucas eram as histórias que se ouvia com bom agrado. Foram quatro anos de muitos conflitos, dez mil mortos. A guerra envolveu caboclos, pequenos fazendeiros, posseiros, interesses econômicos, disputa territorial e religiosidade.

A guerra

A Guerra do Contestado começou em 22 de outubro de 1912 e teve fim há mais de 100 anos em agosto de 1916. A região envolvida na disputa territorial era conhecida como “Contestado”, localizada entre Paraná e Santa Catarina.

Porém a disputa territorial envolveu também questões sociais. Na época a empresa Lamber considerada a maior madeireira da América latina, localizada em Três Barras cidade que fica há 80 quilômetros de Mafra, foi a grande motivadora da construção de uma ferrovia que ligava São Paulo ao Rio Grande do Sul.

Na época segundo muitos historiadores ocorreram inúmeras desapropriações sem qualquer amparo governamental. O governo cedeu uma grande extensão de terra, cerca de 15 mil metros, nos limites do Estado do Paraná e de Santa Catarina, mas aproveitou o pretexto e desapropriou as terras dos camponeses porque descobriu que poderia lucrar com a erva-mate, bem como com a madeira existente na localidade.

Quando a linha férrea ficou pronta sem-terra e sem casa muitos camponeses se viram na verdadeira miséria.

O líder

Num momento de grandes dificuldades para a população, surge o monge José Maria de Santo Agostinho. Sem autorização do governo, José Maria que, entre suas pregações falava do fim do mundo nos anos 2000, era contra a república e tinha fama de curandeiro porque estudava as ervas e com elas auxiliava muitos doentes, fundou uma comunidade a fim de receber os oprimidos – Quadrado Santo, razão pela qual a Guerra do Contestado ficou também conhecida como Guerra Santa.

Consequência

A guerra terminou em 1916 depois de conflitos intensos, com muitas mortes, após quatro anos de guerra, é assinado o Acordo de Limites Paraná-Santa Catarina, no Rio de Janeiro.

No mapa Santa Catarina ficou com 28 mil metros quadrados e Paraná com 20 mil metros quadrados. Surgem então as cidades de Mafra, Joaçaba, Chapecó e de Porto União e vai sendo construída uma nova cultura regional no Brasil.

Orgulho

Mesmo com tantas memórias sangrentas, há quem prefira lembrar-se dela como um símbolo de resistência e força. Para Aldair moradora de Porto União a história familiar é sim um capítulo importante dessa Guerra. Nascer no mesmo bairro da mãe, porém em estados diferentes é com orgulho ganhar de presente o título de catarinense.

Da esquerda para a direita: Odilon Muncinelli, Hilda Tarlombani Wengerkiewicz, Aldair Wengerkiewicz Muncinelli, Mariane e Madeleine Ulrich e Crista Falkoski – Foto: Arquivo/Aldair MuncinelliDa esquerda para a direita: Odilon Muncinelli, Hilda Tarlombani Wengerkiewicz, Aldair Wengerkiewicz Muncinelli, Mariane e Madeleine Ulrich e Crista Falkoski – Foto: Arquivo/Aldair Muncinelli

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Caminhos do Contestado

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