Guerra do Contestado completa 109 anos: ‘progresso veio, mas não enalteceu a população’

Conflito histórico que resultou na morte de cerca de 10 mil pessoas mexeu com as estruturas na divisa entre Paraná e Santa Catarina

A Guerra do Contestado, um confronto armado que aconteceu entre 1912 a 1916 em uma área povoada por sertanejos, entre as fronteiras do Paraná e Santa Catarina, completa 109 anos nesta sexta-feira (22). Ao menos 10 mil pessoas morreram na disputa por terras numa região rica em erva-mate e madeira.

Guerra do Contestado durou quatro anos e teve mais de 10 mil mortes – Foto: Claro Jansson/Acervo Dorothy Jansson MorettiGuerra do Contestado durou quatro anos e teve mais de 10 mil mortes – Foto: Claro Jansson/Acervo Dorothy Jansson Moretti

O conflito, permeado por dezenas de aspectos que envolvem religiosidade, política e desigualdade social, teve como líder principal o monge José Maria de Santo Agostinho, personalidade que peregrinava na região e alcançou grande carisma e confiança da população pelos seus milagres.

A história começou quando coronéis e fazendeiros da região decidiram construir a Estrada de Ferro que ligaria São Paulo ao Rio Grande do Sul, com apoio da empresa norte-americana Brazil Railway Company. Isso provocou a expulsão de milhares de famílias que perderam suas terras.

Este fato, gerou desemprego entre os moradores da região, que ficaram sem terras para trabalhar. Entretanto, os impactos das desapropriações foram neutralizados pela promessa de trabalho no canteiro de obras da Rodovia.  Quando a estrada de ferro ficou pronta, muitos trabalhadores que atuaram em sua construção ficaram desempregados.

Sem qualquer apoio por parte da empresa norte-americana ou do governo, ganhou força a figura do beato José Maria, que hoje tem em sua homenagem um santuário em Porto União. O “santo monge” conseguiu reunir milhares de caboclos e rebelou-se como “governo independente”.

A ferrovia foi o estopim para a Guerra do Contestado – Foto: Claro Jansson/Acervo Dorothy Jansson MorettiA ferrovia foi o estopim para a Guerra do Contestado – Foto: Claro Jansson/Acervo Dorothy Jansson Moretti

O governo federal enviou tropas para dispersar as comunidades, dando origem à Guerra do Contestado. De um lado estava os soldados armados e forças do governo, do outro um grande número de pessoas humildes armadas somente de machados, espingardas e facões.

Em 22 de outubro de 1912, a polícia do Paraná deu início a um ataque que resultou na morte de 11 sertanejos, entre eles o monge José Maria, e 10 soldados. Após várias derrotas, as tropas federais conseguiram vencer os sertanejos, em 1916.

A pesquisadora e escritora Rosa Maria Tesser ressalta a importância da data. “Nos meses de outubro nós nos referenciamos a uma data do que foi um dos maiores episódios no Sul do país, uma sangrenta guerra e há lugares que ainda sangram. Portanto, eu gostaria de fazer um apelo, vamos cuidar da nossa história. A guerra do contestado não deixa de ser a identidade do povo catarinense”, afirma.

Para o professor da UFFS e pesquisador da história do Contestado, Delmir José Valentini, lembrar da data é fundamental para avaliarmos de que maneira o progresso chegou nessas cidades e também o então desenvolvimento dos municípios que estão na região do Contestado.

“Hoje falar e estudar esse assunto é fundamental para entendermos como caminha a sociedade e até onde aquilo que se diz progresso e desenvolvimento é bom para um grupo humano. Certeza que o progresso que veio para a região não foi um progresso que enalteceu e trouxe resultado para a população que aqui viveu”, explica.

Os chamados caboclos reivindicavam a posse das terras – Foto: Claro Jansson/Acervo Dorothy Jansson MorettiOs chamados caboclos reivindicavam a posse das terras – Foto: Claro Jansson/Acervo Dorothy Jansson Moretti

“Caracteriza um conjunto de reflexos que é necessário fazer quando se fala em progresso e desenvolvimento, que tipo de progresso e desevolvimento e qual é o custo disso.  Na guerra do contestado o custo foram milhares de vidas da população que aqui vivia”, completa.

Deputados se pronunciam

Na sessão ordinária da Assembleia Legislativa nesta quinta-feira (21), alguns deputados estaduais se pronunciaram sobre a Guerra do Contestado. Eles destacaram a importância histórica da data e a importância da preservação da memória.

“Esta história do contestado é uma das marcas de Santa Catarina. Para que nós não esqueçamos desse momento não só crítico, mas também de uma mancha”, disse o  deputado Kennedy Nunes (PTB).

O deputado Neodi Saretta (PT) também se pronunciou. “Não podemos deixar essa memória se perder. É de suma importância que a população catarinense tenha cada vez mais conhecimento desses episódios e possa entende-lo como parte importante na construção das características sociais, econômicas, políticas e culturais do território catarinense”, disse.

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