“Não somos treinadas para perder”, diz enfermeira de SC na linha de frente da Covid-19

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Tatiana Tarkina, de 39 anos, fala sobre a exaustão enfrentada no último ano e pontua os momentos mais difíceis, como assistir a morte solitária dos pacientes

“A gente não foi treinada para perder, somos treinadas para cuidar”.

É assim que a enfermeira Tatiana Tarkina, de 39 anos, que atua na Capital catarinense, avalia o número assustador de mortes em decorrência da Covid-19 em Santa Catarina. 

Atuando na linha de frente do combate à doença causada pelo novo coronavírus há um ano, ela contou sua história para o ND+ que, para celebrar o Dia Internacional da Mulher, homenageia cientistas e profissionais da saúde. Incansáveis, elas são retrato da luta diária contra o coronavírus.

Tatiana Tarkina, de 39 anos, encontrou na enfermagem a possibilidade de aliar cuidado e <span style="font-weight: 400;">conhecimento científico</span> &#8211; Foto: Leo Munhoz/NDTatiana Tarkina, de 39 anos, encontrou na enfermagem a possibilidade de aliar cuidado e conhecimento científico – Foto: Leo Munhoz/ND

Lotada no Hospital Universitário da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), Tatiana encontrou na profissão uma forma de aliar duas paixões: cuidado e conhecimento científico.

Mas, apesar de todo o tempo e saber dedicados à Enfermagem, ela não se furta em dizer que o último ano foi desgastante para além de suas condições físicas e emocionais.

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“Quando a gente trabalha na área da saúde, não cuidamos apenas de quem atendemos no hospital, viramos referência também para as pessoas que a gente ama”, pontua ela, que tem amigos com pais acometidos pela doença que perguntam a todo tempo como devem agir. Porém, com as filas nas emergências e o colapso do sistema de saúde, as respostas são sempre as mais duras de dar.

A enfermeira conta que o último ano foi desgastante para além de suas condições físicas e emocionais &#8211; Foto: Leo Munhoz/NDA enfermeira conta que o último ano foi desgastante para além de suas condições físicas e emocionais – Foto: Leo Munhoz/ND

Tatiana mora com três filhos, além do marido e do pai, de 68 anos e, apesar do medo de contaminar a família, nunca testou positivo para a doença. Para isso, todos restringem ao mínimo a circulação fora de casa.

“Saímos muito pouco, respeitamos muito o isolamento e, nas poucas vezes em que me encontrei com alguém, me senti culpada”, relata.

“A pessoa morre sozinha”

Tatiana mantém a esperança de que as pessoas não precisem perder parentes e amigos que amam para entender a gravidade da doença.

“É uma doença em que a pessoa morre sozinha. Nós presenciamos diariamente essa impossibilidade de contato e a dor das famílias, é muito triste”, destaca Tatiana, que atua no setor de  hemodinâmica [que faz procedimentos terapêuticos como angioplastia, drenagens e embolizações] e na emergência pediátrica, e ressalta que atender pacientes com suspeita de Covid-19 é comum.

Abraçar sem medo

Reencontrar espaço físico para o afeto: esse é o principal desejo de Tatiana para daqui a um ano, no próximo Dia da Mulher, diante de tanto distanciamento e sofrimento.

Tatiana relata que presenciar diariamente a dor das famílias pela morte solitária dos pacientes é devastador &#8211; Foto: Leo Munhoz/NDTatiana relata que presenciar diariamente a dor das famílias pela morte solitária dos pacientes é devastador – Foto: Leo Munhoz/ND

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“Quero poder abraçar a minha avó e meus afilhados sem medo de amar e de ser amada, sem culpa. Também espero que estejamos melhor estruturados, com menos mortes e com um sistema de saúde que consiga atender com respeito todas as pessoas”, finaliza.