ND+ Entrevista: A vocação de Maria Gertrudes da Luz Gomes para servir

Prestes a fazer 88 anos, ela passou mais da metade da vida fazendo voluntariado e viabilizando as ações da Avos, que completou 45 anos no dia 25 de agosto

Florianopolitana nascida no bairro José Mendes, Maria Gertrudes da Luz Gomes é a filha mais velha de um comerciante que criou seis filhos administrando um armazém localizado próximo à ilha das Vinhas, a caminho do Saco dos Limões, e de uma dona de casa que “cozinhava coisas muito boas para a gente”.

Maria Gertrudes da Luz Gomes (de jaleco) lidera as ações da Avos (Associação de Apoioà Criança e ao Adolescente do Hospital Infantil Joana de Gusmão) – Foto: Anderson Coelho/ND

Prestes a fazer 88 anos, essa mulher determinada passou mais da metade da vida fazendo voluntariado e viabilizando as ações da Avos (Associação de Apoio à Criança e ao Adolescente do Hospital Infantil Joana de Gusmão), que completou 45 anos no dia 25 de agosto.

A Casa de Apoio Vovó Gertrudes, assim batizada em sua homenagem na Agronômica, garante hospedagem para as famílias de crianças e adolescente que vêm de todo o Estado para se tratar de doenças – em especial o câncer – num hospital que se tornou referência no país em sua especialidade.

Dona Gertrudes já tirou dinheiro do bolso para melhorar a estrutura da casa e do próprio hospital. A Avos, cuja sede funciona dentro do hospital, tem cerca de 90 voluntários e 30 funcionários remunerados, incluindo um
jardineiro que está há 30 anos na casa.

Cuida de reformas e ampliações, ajuda a comprar medicamentos, adquire equipamentos médicos e doa alimentos e roupas para pacientes carentes. “É muito sofrimento”, diz dona Maria quando fala das crianças, mas ressalva: “Sou uma pessoa realizada”.

Já perdeu o marido (que dá o nome ao ambulatório de oncologia do hospital) e o único filho, este aos 48 anos, mas tem quatro netos e seis bisnetos.

“Não somos nós que escolhemos o que fazer de bom na vida, mas Deus”, ensina, ainda se emocionando quando se refere ao marido, ao filho e às crianças que lutam pela vida.

Nesta entrevista, ela fala de seu trabalho e da infância, da família e de lugares da cidade que marcaram sua adolescência.

Como e quando a senhora começou a se envolver com o voluntariado?

Desde o colégio, sempre gostei de ajudar e estar na linha de frente. Cuidava das barraquinhas para arrecadar fundos para causas que achava importantes.

Depois de adulta, quando passei por uma cirurgia, meu marido sugeriu que fôssemos visitar as enfermarias para ver o que os hospitais estavam precisando.

Com um grupo de amigas, comecei um serviço voluntário no Hospital Infantil Edith Gama Ramos, no Centro de Florianópolis. Na época, as crianças internadas não podiam ficar com seus familiares, mesmo sendo bebês.

Em agosto de 1975, a partir de um curso do dr. Murillo Capella, demos início a esse trabalho que vem até hoje. O hospital era pequeno, mas ficamos cinco anos lá.

Nas lojas da cidade, conseguíamos produtos para confeccionar (em nossas próprias casas) casaquinhos de pelúcia para as crianças.

Como foi a vinda para a Agronômica e o início do voluntariado no novo hospital?

Em 1979, o Hospital Infantil Joana de Gusmão ficou pronto, embora ainda faltasse estrutura para que funcionasse plenamente. O governador Antônio Carlos Konder Reis foi quem investiu para isso, e em janeiro do ano seguinte começamos a trabalhar aqui.

Fomos atrás do que precisava, pedimos mesinhas e cadeiras aos detentos da Penitenciária Estadual e criamos uma capela, porque era preciso rezar.

Quando começou a trabalhar com as crianças, o acompanhante não podia ficar com o paciente, passar a noite com ele, conta Gertrudes – Foto: Acervo Avos/Reprodução/ND

Passamos a ajudar as crianças com câncer que vinham de todo o Estado, fazendo o papel de mães delas. Não tínhamos um centavo, mas muito amor para dar.

Fizemos muitos bazares e eventos para arrecadar dinheiro, e nos tornamos a primeira entidade do Brasil a focar na assistência a crianças com a doença, com esses moldes.

A ajuda de empresas facilitou? Como se deram as parcerias?

No Infantil, o setor de oncologia ficou pequeno, e foi aí que começamos a contar com os recursos da iniciativa privada. Com recursos de empresas, construímos um ambulatório de oncologia em substituição à antiga unidade, passando a atender mais crianças catarinense e uma unidade de ortopedia no hospital.

Contamos ainda com a ajuda Receita Federal por meio de produtos apreendidos e doados para a associação. Também criamos a UTI neonatal. Ou seja, não há no hospital um lugar onde a Avos não tenha colocado a mão.

A casa de apoio resolveu definitivamente a questão da hospedagem dos familiares das crianças?

Sim. No começo, o acompanhante não podia ficar com o paciente, passar a noite com ele. Era muito triste, os pais se obrigavam a dormir em casas próximas, pagando por isso.

Conseguimos com dona Ivone, mulher de Casildo Maldaner (que assumiu o governo com a morte de Pedro Ivo Campos), uma pequena casa perto da nossa sede atual para que os familiares pudessem dormir sem custos.

Entre as conquistas da Avos estão a UTI neonatal, ambulatório de oncologia e uma unidade de ortopedia no hospital – Foto: Acervo Avos/Reprodução/ND

Depois que a unidade de oncologia passou a operar dentro do hospital, essa situação foi resolvida. Além dos eventos, temos uma central que faz pedidos de ajuda por telefone, o que tem dado resultados graças à credibilidade da associação, mesmo durante a pandemia.

Como lida com as crianças doentes, com a dor e o sofrimento alheios?

Aprendi com o dr. Capella que não se pode chorar na frente das crianças. Uma vez, antes de ir para a praia com meu marido, resolvi passar no hospital e deixar um bolo para uma menina que fazia aniversário. Chegando lá, fiquei sabendo que ela tinha morrido. Aguentei firme, a fui chorar lá fora.

A senhora conheceu uma Florianópolis que as novas gerações nem imaginam como era. O que lembra de sua infância e adolescência?

Recordo da chácara onde morava com a família, cheia de árvores frutíferas, um parreiral e a criação de galinhas de meu pai. Ele gostava de plantar e foi um dos fundadores da primeira associação agrícola de Florianópolis.

As crianças das casas próximas brincavam todas juntas, sem diferenças e preconceitos de cor e situação social. Até a família do atual governador Carlos Moisés da Silva morava por ali, conheci sua mãe, as tias e o avô dele.

Quando eu tinha cinco anos, meu pai me pegou no colo e me mostrou o Zeppelin passando. Fiquei extasiada com aquela beleza colorida cortando o céu da cidade.

O que mais vem à memória quando fala daquele tempo?

A vida era muito boa e lembro bem que as crianças, imitando os adultos, faziam máscaras para brincar no Carnaval. Os pequenos aprendiam a confeccionar as próprias máscaras, usando barro e jornal para fazer os moldes.

Colocávamos uma vela na máscara para assustar as pessoas que passavam, porque as ruas eram escuras ou pouco iluminadas. O
“dia dos mascarados” era sempre uma festa.

Onde fez os primeiros estudos? O que recorda das escolas por onde passou?

Estudei no G. E. Lauro Müller e, como a época era de guerra, o diretor nos alertava sobre uma sineta que, se tocasse, nos obrigava a ir para um abrigo no porão, fugindo de uma possível invasão da cidade.

Na escola, ajudava a descascar batatas e escolher feijão, e aos sete anos já era a mascote do grupo para o desfile de 7 de setembro. Limpar o quadro não era uma provação, era um prazer para mim.

Havia poucos ônibus, e era comum irmos a pé até o colégio, passando pelo primeiro aterro feito na Baía Sul. Depois, estudei no colégio Coração de Jesus, quando nosso ônibus parava em frente ao trapiche do Miramar.

O que na cidade era importante para uma adolescente na década de 1940?

Às vezes, voltávamos a pé para casa, economizando no ônibus para comprar as frutas e sorvetes no Centro da cidade. As peras vinham da Argentina, e ainda hoje lembro do gosto que elas tinham.

Nos domingos, depois do cinema, o footing reunia os jovens da cidade – os rapazes na calçada, as moças desfilando no meio da rua, na praça 15 de Novembro e na rua Felipe Schmidt.

Recordo da “sessão das moças”, no cine Ritz, onde assisti clássicos como “…E o vento levou”, “Casablanca” e “Os sinos de Santa Maria”.

Além da casa dos pais, que outro lugar foi marcante para a senhora?

A praça Getúlio Vargas. Foi ali, cuidando de uma barraquinha durante a festa do Divino Espírito Santo, que conheci Carlos Bastos Gomes, que viria a ser meu marido.

Eu tinha 13 anos, e ele, 24, já estudante de Direito. Casei aos 18, e ficamos 55 anos juntos, até a morte dele, 21 anos atrás. Foi comerciante e se aposentou como funcionário do Tribunal de Contas do Estado.

Quando retornava de Tijucas, onde ia visitar a família, eu dizia para as amigas: “Ele está voltando, já sinto o perfume dele”. Viajamos muito e conhecemos grande parte do mundo, incluindo a Índia, a China, a Grécia e Cingapura. Foi um amor muito grande.

Casa de Apoio Vovó Gertrudes garante hospedagem para as famílias de crianças e adolescente que vêm à Capital para se tratar de doenças – Foto: Anderson Coelho/ND

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