Os desafios, o preconceito e as conquistas na inclusão das pessoas com deficiência

Dia Internacional da Pessoa com Deficiência é comemorado no dia 3 de dezembro, data importante para falar dos desafios, do preconceito, da falta de acessibilidade e das oportunidades

O Dia Internacional da Pessoa com Deficiência é comemorado nesta sexta-feira (3). Uma data importante para falar dos desafios, do preconceito, da falta de acessibilidade e das oportunidades. Uma realidade para mais de 17 milhões de brasileiros.

cerca de 17,3 milhões de brasileiros que convivem com algum tipo de deficiência – Foto: Marcelo Casal Jr./Agência Brasilcerca de 17,3 milhões de brasileiros que convivem com algum tipo de deficiência – Foto: Marcelo Casal Jr./Agência Brasil

“A gente teve muita briga aqui no Brasil e no mundo, principalmente nos anos 1980 e 1990, com a questão do assistencialismo. O que a gente faz, quando a gente pensa nessa lógica de assistencialismo, a gente tira da pessoa esse poder de agir e a gente coloca ela num lugar passivo, que é um lugar muito fácil de colocar a deficiência”, contou o jornalista Vinicius Schmidt.

A Lei Brasileira de Inclusão considera a pessoa com deficiência como aquela que tem algum tipo de impedimento de natureza física, mental, intelectual ou sensorial e que, em interação com outros obstáculos, pode ter sua participação ativa na sociedade obstruída.

Na prática, são cerca de 17,3 milhões de brasileiros que convivem com algum tipo de deficiência, que correspondem a 8,4% da população. Em Santa Catarina, o número é de 7,5%. Os dados são da Pesquisa Nacional de Saúde do IBGE de 2019.

Mas como garantir autonomia, potência e cidadania a pessoas com deficiência? Para Schmidt, “é gerar potência, fazer com que as pessoas sintam que de fato estão participando daquele ambiente, dar voz e protagonismo para as pessoas”

Carolina Stolf é professora de Arquitetura e Urbanismo na Udesc (Universidade do Estado de Santa Catarina) e pesquisa a área de acessibilidade, que ela acredita que precisa ser entendida como algo alcançável.

“Algumas coisas são necessárias e podem ser muito simples. Por exemplo, se você tem um colega de trabalho que tem uma deficiência auditiva, é surda, por que não aprender o básico de libras para conseguir se comunicar melhor ou então falar de um modo que seja possível a leitura labial”, disse Carolina.

Segundo a professora da Udesc, na esfera física, os desafios mais importantes ficam à cargo do poder público, que ainda tem um longo caminho pela frente: “Para a pessoa realizar qualquer ação, para ela ter o direito de acesso à cidade, ela precisa primeiramente se deslocar, chegar até esses pontos de interesse. A gente sabe que ainda é muito difícil. É algo que a gente precisa evoluir muito, começando pelo nosso espaço coletivo.”

‘A gente precisa evoluir muito, começando pelo nosso espaço coletivo’, diz professora da Udesc – Foto: Flavio Tin/Arquivo/ND‘A gente precisa evoluir muito, começando pelo nosso espaço coletivo’, diz professora da Udesc – Foto: Flavio Tin/Arquivo/ND

Mas quando o assunto é a coletividade humana, acessibilidade e inclusão andam lado a lado e demandam empatia. A professora Marcilene Alberton Ghisi sabe bem disso. “Vai ter os nomes em braile? Ótimo. Mas pode ser que essa pessoa que tá indo no museu precise da mediação para poder se locomover no espaço onde ela tá. Então, ela vai precisar de mediação. Tudo se complementa. A acessibilidade é um encontro com várias situações”, afirmou ela.

A acessibilidade seria a forma de potencializar a inclusão. Principalmente quando se fala em mercado de trabalho.

“Inclusão no mercado de trabalho, não é dar emprego para a pessoa com deficiência. É dar um emprego onde ela se sinta potente, onde ela sinta que as suas capacidades são bem utilizadas, que ela é produtiva, que ela de fato colabora para aquele ambiente, pro crescimento da empresa, pro alcance dos objetivos que a organização tem e se veja em desenvolvimento”, avaliou Schmidt.

De acordo com o último balanço de vagas de emprego do Sine, Santa Catarina tem 173 postos de trabalho abertos para pessoas com deficiência.

O analista de diversidade e inclusão Samuel da Luz Stumpf é deficiente visual. Ele foi perdendo a visão aos poucos e tem agora apenas a percepção de luz. Já atuou em empresas de diferentes portes, todas sem muito preparo para receber e acolher uma pessoa com deficiência.

“Eu tive uma experiência de trabalhar no comércio, com atendimento ao público, numa loja de equipamentos de aventura. Eu tenho a questão do olhar social, que eu consegui manter. E quando a pessoa percebia que eu era uma pessoa cega, algumas pessoas se recusaram, simplesmente viraram as costas e foram para um outro vendedor”, contou o analista.

Samuel disse que essa visão de preconceito e discriminação é limitante: “O cara que vira as costas para o meu atendimento porque eu sou cego, tá tendo uma perspectiva completamente limitada da minha realidade, totalmente fechado. O que ele pensa que possa não ser um bom atendimento pelo fato de eu não estar enxergando? São ideias mal construídas e que nem são percebidas”.

“Quando eu começar a olhar para a pessoa enquanto pessoa e perceber que todas têm possibilidades e que são diferentes, porque é assim o mundo e isso agrega, isso torna as paisagens muito mais coloridas. Aí, eu vou enxergar aquilo que é possível e eu vou contratar e não vou me preocupar se fulano vai ficar frustrado, se beltrano não vai produzir porque na verdade eu vou entender que ele é um profissional”, disse Marcilene.

Veja a reportagem especial do Balanço Geral Florianópolis.

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BG Florianópolis

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