Sonhos na bagagem: o que faz nortistas e nordestinos migrarem para Joinville

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ND+ reúne relatos de homens e mulheres que saíram de suas terras natais e deixaram suas vidas para trás em busca de novos caminhos; confira

Joinville é uma cidade construída por migrantes. Tudo começou com a vinda de luso-brasileiros e de negros escravizados, que deram os primeiros passos na construção do município. Depois, vieram os imigrantes europeus, em março de 1851, trazendo na bagagem a busca por oportunidades.

Nas décadas de 1970 e 1980, foi a vez de migrantes do Sul de Santa Catarina e também do Paraná chegarem a Joinville para conquistar uma mudança de vida. E assim, a maior cidade do Estado segue recebendo migrantes de todos os cantos do país.

Entre os sotaques que compõem a comunidade joinvilense, estão os de pessoas vindas das regiões Norte e Nordeste do Brasil em busca de oportunidades de emprego, qualidade de vida e segurança, e que acreditam que a cidade pode oferecer o que almejam.

Migração de nortistas e nordestinos em Joinville têm crescido nos últimos anos – Foto: Arte/NDMigração de nortistas e nordestinos em Joinville têm crescido nos últimos anos – Foto: Arte/ND

Para saber mais sobre o que traz nortistas e nordestinos até aqui e se a cidade atende às ambições dos novos migrantes, ND+ conversou com alguns deles. Confira!

Carro de som na rua e emprego rápido

Ao ver um carro de som oferecendo empregos pelas ruas de Joinville, o paraense Adrian Pacheco se convenceu da sua escolha. Ele veio de Ananindeua, na região metropolitana de Belém, em busca de novas oportunidades profissionais e, há dois anos em Santa Catarina, não se arrepende da mudança.

Formado em Administração, Adrian não conseguia emprego em sua área na Capital paraense. “Em Belém, as oportunidades no meu segmento são mais escassas. O forte de lá é a área comercial. Tentei de todas as formas entrar em empresas, mandava currículo e não conseguia. Lá é muito forte a questão da indicação. Eu só conseguiria trabalhar como vendedor ou promotor de vendas”, conta.

Adrian e o filho, que também deve vir morar em Joinville – Foto: Arquivo pessoal/NDAdrian e o filho, que também deve vir morar em Joinville – Foto: Arquivo pessoal/ND

Desapontado por não conseguir trabalhar em sua área de formação, ele começou a pesquisar opções de lugares para morar e aumentar, assim, suas chances profissionais. “Busquei sobre emprego no Brasil e vi que aqui é um dos melhores estados no que diz respeito a emprego e qualidade de vida”.

Chegando a Joinville, ele ficou abismado com a oferta de trabalho na cidade. “Vi um carro de som passando na rua dizendo que tinha 200 vagas só em uma empresa. Você vai no RH e tem muitas vagas”, destaca. Quatro dias após desembarcar na cidade, Adrian já estava empregado. 

Outra coisa que fez com que o paraense se mudasse para Santa Catarina foi a segurança. “Eu gosto do sossego e da tranquilidade daqui, tenho a satisfação de poder caminhar na rua”, ressalta. Feliz no lugar que escolheu para viver, Adrian agora quer trazer o filho para viver em Joinville. 

Empresa própria e família em Joinville

Quem também veio do Pará para Joinville foi Madson Lopes Costa, de 32 anos. Ele chegou a Santa Catarina há 13 anos, vindo de Magalhães Barata, pequeno município do interior do estado paraense. Aqui, ele conseguiu montar a própria empresa e, além disso, formar uma família com uma catarinense, com a qual tem uma filha de três anos.

Em Joinville, Madson encontrou a esposa e formou família – Foto: Arquivo pessoal/NDEm Joinville, Madson encontrou a esposa e formou família – Foto: Arquivo pessoal/ND

Madson conta que trabalhava como pedreiro em sua cidade natal quando soube que um senhor viria para Florianópolis a fim de reformar um restaurante. O proprietário do estabelecimento acabou trazendo funcionários do Pará, entre eles, o próprio Madson.

Em Santa Catarina, ele trabalhou na construção civil por muito tempo até conseguir abrir uma empresa própria no ramo. “Quando eu vim, não foi por falta de trabalho ou de dinheiro, mas para conhecer novos lugares. Como não tinha saído da minha cidade e do Pará, eu abracei, vim pra cá, gostei e fiquei”, destaca.

Apesar de não ter vindo diretamente em busca de trabalho, Madson acredita que a mão de obra em sua cidade natal é desvalorizada. Segundo ele, enquanto a diária na construção civil é de cerca de R$ 200 em Joinville, no Pará, é de R$ 100. Além disso, muitos empregadores não pagam os direitos trabalhistas, como INSS.

Madson chegou como pedreiro e conseguiu abrir a própria empresa em Joinville – Foto: Arquivo pessoal/NDMadson chegou como pedreiro e conseguiu abrir a própria empresa em Joinville – Foto: Arquivo pessoal/ND

Madson diz que apesar de ter se adaptado facilmente à cidade, lidar com o frio e a saudade das pessoas e costumes da sua terra foram os únicos desafios da sua estadia na cidade. “Eu sentia falta de conversar, contar histórias, lendas e outras coisas que só se conversam entre paraenses”, destaca. Nesse sentido, o que também auxilia a matar a saudade da terra natal é contar com a venda de temperos, especiarias e outros itens trazidos por conterrâneos até o Sul.

Qualidade de vida e busca do sonho em solo catarinense

O cearense Felipe Morais Marques, 27 anos, é outro exemplo de quem saiu da sua terra natal atrás de novas oportunidades em Joinville. Ele é natural de Itatira e nunca tinha saído do Ceará até terminar o ensino médio. Quando concluiu os estudos, resolveu deixar a casa da mãe para buscar uma nova vida.

Antes de chegar a Santa Catarina, ele ainda passou por São Paulo, mas não se acostumou com o ritmo de vida. “Lá eu trabalhava em restaurante de domingo a domingo, em dois horários. Foi boa a experiência, mas é um ritmo muito agitado”, conta.

O fato de ter dois irmãos já vivendo em Joinville o ajudou na decisão de vir para cá. Com o auxílio deles, Felipe conseguiu emprego em um mês. “Isso facilitou muito pra mim. Já tinha onde morar, já tinha alguém pra me direcionar, dizer como era a cidade. Eu nunca tinha trabalhado em uma empresa grande, só ouvia falar e não imaginava aquilo pra mim”, diz ele. Apesar disso, ficou por cinco anos no mesmo emprego em uma fábrica de eletroportáteis.

Felipe já tinha dois irmãos em Joinville, o que facilitou a escolha pelo lugar – Foto: Arquivo pessoal/NDFelipe já tinha dois irmãos em Joinville, o que facilitou a escolha pelo lugar – Foto: Arquivo pessoal/ND

O quesito qualidade de vida também pesou na escolha. “Saúde, transporte… Eu costumo falar que outro lugar para viver bem como em Joinville, não conheço”, destaca.

Estabilizado, Felipe quer, agora, investir no seu sonho: o desenho. “Eu tenho um dom que é a arte. Quero montar algo para mim. Aqui, eu aprendi muito sobre isso. Hoje, o pensamento é mais amplo, a gente está divulgando bastante o trabalho e já construindo a nossa clientela”, ressalta.

Felipe é o responsável pelo grafite de Ayrton Senna no mural perto do Ciretran de Joinville – Foto: Arquivo pessoal/NDFelipe é o responsável pelo grafite de Ayrton Senna no mural perto do Ciretran de Joinville – Foto: Arquivo pessoal/ND

A mesma motivação que impulsionou Adrian, Madson e Felipe a virem para o Estado, incentivou os passageiros vítimas da tragédia com o ônibus na BR-376, em janeiro, entre elas, Andréa Lédo, professora universitária que veio para Joinville a fim de fazer um doutorado.

“Eu queria vir atrás das minhas oportunidades e, como vinha com o meu filho, queria estar em uma cidade mais tranquila”. Sobrevivente do acidente, ela não quer voltar para o Pará: mesmo tendo chegado a Joinville de ambulância depois da tragédia, é por aqui que ela pretende ficar.