Cineasta catarinense Gilberto Gerlach frequenta o Festival de Cannes há quase 20 anos

Cinéfilo de carteirinha, Gerlach já conheceu os atores Clint Eastwood e Elizabeth Taylor e o diretor japonês Akira Kurosawa

Muitos são os que gostam de cinema, mas dá para contar nos dedos quantos já apertaram as mãos de Elizabeth Taylor, trocaram palavras com Clint Eastwood ou sentaram numa fila de poltronas onde estavam nomes cruciais da Nouvelle Vague. O melhor mês do ano para Gilberto Gerlach, cineclubista, cinéfilo, escritor e pesquisador, é maio, quando se muda para a Europa, com a mulher Carmen Lúcia, e desfruta as maravilhas do Festival de Cannes, onde tem presença cativa há quase duas décadas.

Casa de Gerlach, em São José, é recheada de referências a clássicos do cinema mundial – Foto: Anderson Coelho/NDCasa de Gerlach, em São José, é recheada de referências a clássicos do cinema mundial – Foto: Anderson Coelho/ND

Membro da Academia Catarinense de Letras, Gilberto Gerlach é autor de livros importantes como “São José da Terra Firme” (2007), “Desterro” (2010), “Ilha de Santa Catarina – Florianópolis” (2015) e “Colônia Blumenau no Sul do Brasil” (2019). No segundo semestre deste ano, vai lançar “Memórias de um Cineclube”, no qual mostrará todo o seu vínculo com o cinema, em particular o cineclubismo, que começou há quase 52 anos, em 1968.

Em abril, o Theatro Adolpho Mello será reaberto, ocasião em que Gilberto pretende fazer o relançamento do livro “São José”, com atualizações, e exibir um documentário que mostra a história do município natal entre 1750 e 1950. O filme tem duração de 45 minutos e a edição é de seu sobrinho Tim Gerlach. Em fevereiro de 2021, Gerlach vai levar o documentário “Colônia Blumenau no Sul do Brasil” para o Festival de Berlim.

Citando o filme “Feios, Sujos e Malvados”, de Ettore Scola, Gerlach diz que “o cinema me ensinou a compreender a vida e o mundo”.

ENTREVISTA

ND+: Você é um homem umbilicalmente ligado ao cinema, como cinéfilo inveterado e cineclubista. Onde nasceu esse apego à chamada sétima arte?

Gilberto Gerlach: Vivo nesse meio desde os oitos anos, e acho que o cinema está no sangue, porque tive um tio-avô, Arthur von Gerlach, que foi diretor de teatro em Viena, na Áustria, na década de 1910, e cineasta na Alemanha. Ele estudou cinema em Berlim e fez dois filmes mudos, “Vanina oder Die Galgenhochzeit” (Vanina), em 1922, e “Zur Chronik von Grieshuus” (A Crônica da Casa Cinzenta), em 1925. Neste último, filmado entre 1922 e 1923, teve como assistente de direção ninguém menos que Alfred Hitchcock. Em sua fase inglesa, Hitch, como é chamado, não escondeu as influências que teve do expressionismo alemão.

ND+: Você praticamente introduziu o cineclubismo em Florianópolis. Fale desse pioneirismo.

Gerlach: Desde cedo, em São José, junto com o historiador Osni Machado e outras pessoas, discutíamos cinema e projetávamos cenas de forma amadora. O ano de 1968 foi muito importante: recebi da distribuidora Polifilmes, de São Paulo, uma relação de mais de 200 películas de arte em 35 milímetros e senti que precisava criar um cineclube para ter acesso ilimitado a essa produção. O primeiro clube de cinema que criei foi no curso de engenharia da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina). Depois, com o pintor Rodrigo de Haro, passei a exibir filmes na casa de seu pai, o também pintor Martinho, na rua Altamiro Guimarães. Aí comecei a atuar no Theatro Adolpho Mello, em São José – época em que o jornal “O Estado” nos dava páginas inteiras para divulgar os filmes em cartaz.

ND+: Mas você também exibiu filmes em outros espaços da cidade…

Gerlach: Uma boa experiência foi a do cine Jalisco, no Estreito. Em 1979, recebi uma carta da Polifilmes oferecendo 11 longas metragens do japonês Akira Kurosawa, com cópias de 35 milímetros. Não consegui exibi-los no cine Roxy, no Centro da cidade, porque as salas da rede de Jorge Daux estavam sendo vendidas para o empresário Mário Santos, de Lages. No Estreito, o Jalisco só exibia filmes pornográficos, mas arrisquei e dei sorte: aluguei as cópias e a sala e nenhum dos filmes deu prejuízo. Depois fiquei dois anos no Theatro Adolpho Mello, usei o auditório da Biblioteca Pública do Estado e em 1984 surgiu a possibilidade de abrir o cineclube Nossa Senhora do Desterro no CIC (Centro Integrado de Cultura), na Trindade. Isso era necessário, porque 98% dos frequentadores do cinema de São José eram de moradores da Ilha.

 

ND+: Muita gente sente falta do cineclube no CIC. Sua saída de lá foi um tanto traumática.

Gerlach: Fiquei doente quando me tiraram de lá, depois de 25 anos de trabalho. Foi uma grosseria do superintendente, que me chamou e deu uma semana para tirarmos todos os equipamentos da sala. O Estado não gastava um centavo, porque tudo era coberto pela bilheteria. Passávamos 50 filmes por semestre, com um clube de sócios e ingressos bem acessíveis. Em 1998 construí o Cine York, no centro histórico de São José, que durou dez anos e fazia referência a uma sala com o mesmo nome que funcionou a partir de 1925 – era, então, o melhor cinema da região. São José tem tradição nessa área, porque em 1910 o frei Domingos Schmitz já exibia filmes na Liga Josephense.

ND+: Você ajudou a salvar o Theatro Adolpho Mello, o mais antigo do Estado (inaugurado em 1856) e o segundo do Brasil. Como foi isso?

Gerlach: Em 1979, fechado havia dois anos, o teatro foi colocado à venda pelo município. Nasci ali ao lado, e acharam que eu devia fazer alguma coisa para evitar o pior. Apelei para um amigo, Constâncio Krummel, que era assessor do governador Jorge Konder Bornhausen. Por decreto, o governador tornou o teatro de utilidade pública, me pediu para fechar as portas da casa e ficar com a chave. Naquele ano estava sendo criada a Fundação Catarinense de Cultura, e fui lá pedir recursos para a casa de espetáculos. Não havia dinheiro, mas conseguimos manter o prédio de pé.

ND+: Você é um frequentador assíduo do Festival de Cannes, onde conhece atores, produtores, diretores e amantes do cinema. Fale dessa experiência.

Gerlach: Todos os anos vou a Cannes, e também visito Lisboa, Paris e Toulouse. É a oportunidade de ver filmes interessantíssimos e documentários que não chegam aqui. Faço isso desde 2001, após ter sido convidado, como cineclubista, pelo filho do chefe do festival, Laurent Jacob. A cidade francesa sedia o melhor festival de cinema do mundo. A parte que mais gosto é a sessão de recuperação de filmes antigos, que tem acesso gratuito e é muito disputado por todos os presentes. Ali é possível, por exemplo, ver uma palestra de Martin Scorcese, que criou um fundo para a recuperação de filmes e sempre aparece para falar do assunto. Um dos filmes já restaurados é “Limite”, do brasileiro Mário Peixoto.

ND+: O que mais lhe dá prazer durante as semanas que passa em Cannes?

Gerlach: O festival é uma loucura! São duas semanas intensas, vendo filmes e palestras e conversando sobre cinema das 7h às 24h. Ali fiz amizade com a moradora de uma pequena cidade da Borgonha que faz parte de um cineclube onde, após cada sessão mensal, os 200 sócios organizam um jantar com a culinária do país onde o filme se passa – e com a presença do diretor. A Europa está cheia desse tipo de iniciativa. As pessoas passam a vida vendo filmes, misturados com conversa e boa comida. Em Cannes, faz-se amizades até nas filas para as sessões dos filmes em cartaz. Um casal que conhecemos vai a todos os festivais europeus (Berlim, San Sebastian, Veneza, Cannes) e publica resenhas dos filmes numa revista que mantém na França.

 

ND+: Quais foram os grandes momentos nesses quase 20 anos de presença no festival?

Gerlach: Lembro de ter conversado com Akira Kurosawa e Clint Eastwood e ter apertado a mão de Elizabeth Taylor. Já participei, a convite da presidência do festival, de um almoço com o pessoal do júri da mostra principal perto de um pequeno castelo na parte antiga de Cannes, onde estavam figuras como Isabelle Huppert e Mick Jagger. E vi velhos cineastas da Nouvelle Vague francesa sentados na mesma fila, numa sala de exibição, rindo e falando animadamente como se fossem diretores em início de carreira.

ND+: Quais são seus filmes e cineastas preferidos?

Gerlach: Os filmes é difícil citar, porque são muitos, mas meus grandes diretores são Luis Buñuel, Kurosawa, Hitchcock, Bergman, Ford, Renoir, Max Ophuls, Sacha Guitry, os italianos Scola, Fellini, Pasolini e Visconti e os japoneses Yasujiro Ozu e Kenji Mizoguchi.

ND+: Tirando o cinema, do que você mais gosta?

Gerlach: Gosto muito de futebol. Acho que é uma higiene mental, uma válvula de escape para deixar um pouco o cinema de lado. Assisto, escuto e leio sobre o assunto, embora não tenha um time do coração.

ND+: O que você está planejando no momento?

Gerlach: Um dos planos é abrir uma pequena sala no Centro de Florianópolis, quem sabe na sede da Academia Catarinense de Letras, oferecendo uma opção de bons filmes para o público mais jovem e oxigenando aquele espaço. Nas viagens que faço, vejo que a Europa produz muita coisa boa que não chega aqui e nem está na internet. Quando chegar aos 80, daqui a quatro anos, vou só ver filmes – tenho 1.500 DVDs, incluindo os clássicos do expressionismo e muitos faroestes das décadas de 1940 e 1950. Antes ainda quero atualizar e relançar o livro “Desterro”, porque nos últimos dez anos descobri muitas coisas novas sobre Florianópolis.

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