Cineasta produz documentário sobre descoberta da trilha do Peabiru pelos europeus

Contato do branco com os indígenas na ligação direta do oceano Atlântico com os Andes é alvo do filme

Divulgação/ND

Cineasta passou o mês de março percorrendo o Sul de Florianópolis

Durante o mês de março, o cineasta Chico Pereira e sua equipe percorreram por terra e mar a área de Palhoça e do Sul da Ilha de Santa Catarina nas filmagens de “Terra sem Mal – O Caminho do Peabiru”. Os personagens da produção são os navegadores europeus e os índios guaranis, que se encontraram no Estado cinco séculos atrás. Nesse contato do branco com os índios, esses viajantes começam a buscar um caminho que levaria direto a minas de ouro e prata. Uma ligação direta do Oceano Atlântico com os Andes.

Há poucos registros sobre o período retratado no filme, de 1504 a 1550, quando os espanhóis exploravam o litoral catarinense a caminho da Ásia pelo Estreito de Magalhães. Pereira entrevistou historiadores, antropólogos e líderes indígenas para montar o retrato da vida dos habitantes da Ilha de Santa Catarina e de seus arredores naquela época.

Na narrativa, a “terra sem mal”, um conceito dos índios guaranis, é a ideia do paraíso, que é analisada também do ponto de vista brancos. O famoso caminho do Peabiru, uma das trilhas indígenas que cortava a América do Sul de Santa Catarina até o Peru, acaba sendo envolvido por essa mística também. “Imaginar um caminho maravilhoso que vai até os Andes, isso tudo é invenção romântica. Assim como imaginar que os índios viviam em um paraíso” aponta o pesquisador Amilcar D’Avila de Mello, que dedicou 15 anos a pesquisa independente sobre o assunto, e é um dos entrevistados do documentário.

Janine Turco/ND

“É um documentário que trata de um período original, o registro é difícil”, explica o diretor. Além das entrevistas, gravuras e cartas náuticas trazem o contexto da época, enquanto imagens do mar e da região dão a perspectiva poética do documentário. O compromisso do trabalho não é tanto com a cronologia quanto com a análise histórica e antropológica do período, procurando desmistificar o contexto do chamado descobrimento.

O documentário, que está em processo de finalização e deve ser lançado este mês, foi feito a convite do Projeto Barra Sul, que desde 2005 procura e pesquisa naufrágios na área.

História que se interliga

O personagem que costura a relação entre o trabalho do projeto Barra Sul e o caminho do Peabiru é o português conhecido como Aleixo Garcia. A serviço da coroa espanhola, ele naufragou na costa catarinense em 1516 e se estabeleceu aqui com outros marujos, convivendo com os índios guaranis por muitos anos. Foi através deles que ele ficou sabendo do caminho, que levava às grandes riquezas do império Inca, ainda não descoberto por Francisco Pizarro na época. Garcia fez o caminho e chegou até a Bolívia na primeira metade da década de 1520, onde entrou em contato com povos periféricos do império. No retorno da aventura, ele foi morto por índios no Paraguai.

Há diversos dilemas e contradições na história da época em Santa Catarina. Segundo o pesquisador Amilcar D’Avila de Mello, até o nome “Aleixo Garcia” pode ser contestado, pois as fontes que conviveram com ele nunca citam o primeiro nome do explorador, apenas o sobrenome e alcunha indígena “Maratia”. O nome Aleixo vem de relatos posteriores, que contém informações equivocadas e geram dúvidas sobre sua credibilidade. Outra informação divulgada por alguns historiadores e que Mello aponta como infundada é de que Garcia teria naufragado próximo à praia de Naufragados. Segundo ele, não há indícios sobre o local do naufrágio, e ele pode ter acontecido em qualquer ponto da costa catarinense.

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